Carlos Alberto Jales – cinco poemas

Gestos silenciosos

Silenciosos gestos
recriam o tempo

Punhais indecisos
cortam a noite.

Há raios e chuvas
que não conhecem o dia

Mãos torturadas acalentam
a imensidão dos campos.

Vigorosas molduras abrigam
velhos retratos.

Vozes proféticas anunciam
o desenlace das promessas

E em tudo o homem e
seus tortuosos caminhos.

 

Luta


Na luz da manhã,
retorno à palavra.
Picotada de sonhos,
a palavra grita, se esgueira
nas fechaduras do tempo,
se faz código e se faz melancolia.
No meio da tarde, a palavra falece,
esquece os caminhos, desfaz os
nós das legiões, perpetua a carne
e seus grilhões.
À noite, a palavra me devora.

 

Não procures

Não procures na poesia a
solução de teus problemas

O poema é um andarilho à
procura de abrigo.
Um viandante,
com olhos nas estrelas.

Um navegador que não
chega a nenhum porto.
Um mergulhador nas solidões
da alma

Não procures na poesia
a solução de teus problemas

Procures antes a celebração das palavras
a sagração dos ventos e os
sonhos invioláveis de pessoas em seus voos.

 

Nessas horas tardias

 
Nessas horas tardias os
homens caminham.
Que procuram que já não
tenham achado?

Que mistério descobrirão
que não tenha nascido dos
seus olhos?

Que pecado será perdoado,
se o tempo tudo apagou?

E os rios transbordantes
chegarão aos mares?

E os silêncios que cultivam
servirão para alguma coisa?

Nessas horas tardias os
homens caminham e se dispersam
ao apelo longínquo dos ventos.

 

Os sinos e os meninos

 
Os sinos são feitos para
os meninos

Tocam para eles
na manhã

Os sinos compreendem
os meninos

Os sinos sabem que os meninos
não se importam com o tempo

Os sinos sabem que o tempo
não existe para eles

Os meninos sabem que os sinos
são como ventos,
tocam,
falam
e desaparecem nas curvas de
todos os caminhos

 

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