O poeta e o calendário, outros poemas

Carlos Alberto Jales

 

O poeta e o calendário

O poeta é um encantador
de calendários

 

As chuvas caem.
As crianças choram.
O sol amadurece.
Os ventos se desviam.

 

Só o poeta guarda essas
coisas como suas

 

Só o poeta arranca do peito
as partidas dolorosas e as
planta nos varais do tempo

 

Só o poeta se consola com
as ausências e se prepara
para o futuro

 

Só o poeta olha o passado e se
esquiva das coisas que vê

 

O poeta é um encantador de
calendários

 

Sozinho,
o poeta vive desolado,
ouvindo o eco dos dias desperdiçados
e olhando um calendário que nunca
se cumpre

 

 

Nada se repete
                         
Nada se repete quando
já vimos tudo.

O por do sol não se repete.
O brilho das estrelas não se repete.
Não se repete o balido de ovelhas em campos desolados.
Nem se repete o arco-íris que conhecemos na infância.

 

Nada se repete quando
já vimos tudo

 

A cidade adormecida não se repete,
como não se repete o silêncio que
imobiliza os amantes quando a noite chega

 

Nada se repete.

 

Só o mar,
o eterno mar chora os náufragos
nunca redimidos

 

Poema dos 12 anos
            (Em memória de meu irmão Jalles, para sempre)
                                   
Tudo passou e se perdeu entre os dedos:
os dias obscuros,
as tardes vulneráveis,
os pássaros retardatários de suas longas viagens

A vida,
esse rio de um fluir eterno,
esse soneto que não termina nunca,
esse avesso de um rosto só,
também caminha para os abismos

 

Só tu não passaste,
com teus olhos incendiados de poeta,
com tuas mãos sulcando a terra em outro país

 

Só tu permaneces como as estrelas das manhãs
e voltas a cada instante de teu exílio para nos dizer
que tudo está consumado nesta ilha entre o céu e o mar
e que agora,
mais do que nunca,
as chuvas descansam em solo de pedra

 

Poema para Fernando
                              (Uma ausência sempre presente)
                                              
Por que te foste assim,
Se não conhecias os caminhos?

Se não sabias responder,
Os dias pacientes foram tão fugazes

 

E te perdias a cada instante,
Fugindo em busca de uma
Cartografia secreta

 

As tardes,
os campos,
as colheitas existiam para que pudesses
encontrar o lume das estrelas

 

Mas te perdias em cada sombra e
te encontravas desamparado como
um anjo expulso do paraíso

 

Por que nada conhecias,
Tudo descobriste:
os caminhos erráticos,
as faces lívidas,
o outro lado do espelho e
sobretudo a lição de um tempo congelado em teu peito

 

Profecia

Nenhuma palavra anunciará
o dia da libertação

 

Nossos ouvidos serão surdos
ao clamor das massas

 

Haverá apenas uma estranha
melodia aliviando as noites

 

Lágrimas antigas não serão
mais represadas

 

As colheitas já não vingarão
em solos de ausência

 

O amor (se já existiu) ficou preso
num tempo de solidão

 

Árvores,
pedras,
pássaros,
formarão um exército que nada enfrentarão.
Sofreremos todos os dias as dores do parto,
mesmo os que habitam os abismos

 

Nenhuma palavra anunciará
o dia da libertação

 

Mesmo assim caminharemos exangues
e desesperados à procura de fragmentos
do sol

 

 

 

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