Josť Bezerra Cavalcante

 

GÊNESIS E EXIT DE JOSÉ BEZERRA CAVALCANTE

W. J. Solha

Primeiro:

Assisti, no Festival de Cinema de Brasília de 2002, a um filme de intensa beleza – “Desmundo”, de Alain Fresnot, fotografia de Pedro Farkas – no qual conheci o Brasil recém-descoberto, dotado de um idioma que exigiu legendas pra tornar o diálogo inteligível. Bem. Os bons poemas de José Bezerra Cavalcante, superpopulados de expressões datadas por Joaquim Osório Duque Estrada e José Pedro Xavier Pinheiro - como fúlvido, incunábulo, paramento, fulgor, cimalha, cincerro, ganga, cítara – remetem-me a uma época bem mais recente que a do Descobrimento, mas ainda não nossa: a da criação do Hino Nacional e da primeira tradução brasileira de “A Divina Comédia”.

Segundo:

Parece-me que há sempre uma parte maior que o todo em toda obra de arte. Por isso todo mundo conhece a abertura – ou “protofonia” – não a ópera “O Guarani” do Carlos Gomes, o “Aleluia”, mas não o “Oratório Messias” de Haendel, a “Ária na Corda Sol”, mas não a “Suíte no. 3” de Bach; e por isso poucos se lembram do que há no teto da Sistina, além da Criação do Homem; e por isso poucos sabem o que Euclides da Cunha fez, além de “Os Sertões”; e por isso o Youtube está cheio de cenas que ganharam vida própria fora dos filmes de que fazem parte, como a corrida de quadrigas do “Ben-Hur”, o duelo de banjo e violão de “Amargo Pesadelo”, o monólogo de Corisco em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, o ensopado de botinas de Carlitos, em “Corrida do Ouro”, etc, etc. Bem: do mesmo modo ressaltam-me, no “Rescaldo” de José Bezerra Cavalcante, suas duas partes finais, na verdade uma só – “Origem” e “Fim” - justamente porque aí há o encontro do épico mais a linguagem do autor.

Sequência

Claro que JB Cavalcante domina o ofício e também conhece o dístico de Delfos – “Conhece-te a ti mesmo”. Começa o poema “Sala de Espelhos” com este verso:

Vejo em volta. Não me encontro.

Em “Crepúsculo”:

Os horizontes me limitam

e tumulam.

E o que é ele? Seus sonhos, como declara em “Voos caem”:

Os sou retroagindo

às funduras do tempo.

Lembro-me de que, há anos, um colega do Banco do Brasil, ao cruzar por mim na calçada da Bica, disse ao filho pequeno, mostrando-me:

- Eis um animal em extinção.

Acho que também é como JB se sente. Por que? Um trecho de sua biografia responde:

- Representou a UNE no Comitê Preparatório do VIII Festival Mundial da Juventude e dos estudantes em Helsinque, e assessorou a UIE (União Internacional dos Estudantes) em Praga.

Há um ideal tipo Doze Pares de França, Cavaleiros do Rei Arthur e de Templários resistindo, nele, suponho.

Antepassados mouros e cruzados

somam os meus caminhos e pedaços.

Lembra-me o encanto que envolveu o momento em que, na entrada da adolescência, deparei-me, pela primeira vez, com A Lenda de Sir Parsifal, Percival ou Perlesvaus, aquele que partiria em demanda do Cálice Sagrado. Chego a ouvir os versos de “Ascendência”, de JB, com o coro da “Carmina Burana” de Carl Orff em bg:

Fulgem, celestes, suas armas brancas.

Turgem os campos lanças, estandartes.

Corcéis inquietam-se preparados

e galonados para a guerra santa.

Zás! Sacam-se os terçados das bainhas.

Vêm-me, à memória, também, “Os Cantos” de Pound, de certo modo irmãos dos de JB, nos feitios de Homero.

Oh geração dos afetados consumados

e consumadamente deslocados

Uma série anterior de poemas do “Rescaldo” – “Onirografia” – prenuncia o clima final com seus bestiários, incunábulos, armoriais. Sinta o ritmo de galope e a majestade de epopéia quando JB diz, em “Alegorias”

Corcéis me ofuscam cintilantes

e se interpõem nas minhas rotas cegas

com seus paramentos cravejados.

Cilhas e rabichos lantejoulantes

testeiras enlaçadas por fitas multicores,

peitorais encouraçados e espelhados,

selas apetrechadas com lanças

e adagas cromáticas,

estribos ataviados com vilões fulgores,

narinas espirrando forças incontidas,

baba escorrendo por vazadas bocas,

freios arriados e bridas volantes,

soltas, vibrando resplandecentes,

Aí ressoa “A Pedra do Reino, de Suassuna, e o texto imponente de Euclides da Cunha, aquele que viu guerreiros medievais em nossos vaqueiros encourados. O poeta se desespera:

Sou os caminhos percorridos, céus e fossos,

Impura pira, insacro fogo, chama inglória.

E o resto?

Compreensão:

Amanheceu, por fim.

Mas anoiteceu,

em mim.

E

ventre primal (...) e, fora, lousa.

 

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