A afirmação da poesia

 

Celso Japiassu

 

Embora venha de uma militância de 40 anos no território da poesia, Carlos Alberto Jales só agora estréia em livro com o lançamento de Áspero Silêncio. O tempo que levou para decidir-se a reunir e publicar seu trabalho é prova de auto-exigência e do cuidado com o que escreve e que deixou maturar por todos esses anos, dando-nos de vez em quando, em poemas publicados aqui e ali, pequenas amostras da alta qualidade do que produzia em silêncio.

 

Trata-se de obra tecida por um poeta conhecedor da boa forma do fazer poético, aliada à inspiração dos artistas que sabem onde encontrar a beleza existente nas palavras e que muitas vezes as transcende. É com precisão que visita a essência da poesia como arte que se constrói lavrando palavras, descobrindo seus sentidos ocultos, deixando-as revelar nexos surpreendentes.

 

O desafio do poeta é a folha branca, que João Cabral de Melo Neto comparou a um deserto. Baudelaire também se referiu ao poema como uma figura de proa que, depois de atravessar o espaço e o tempo interiores, defronta-se com o espaço e o tempo exteriores, materializados na página em branco.

 

É nesse deserto que Jales planta o poema e nele trabalha até chegar ao equilíbrio da forma onde floresce a poesia. E não se nega a explorar, com inspiração e perícia de mestre, temas caros a todos os poetas, como o amor e a amizade, o sofrimento da alma e o que Drummond chamou de sentimento do mundo.

 

Sem medo de aceitar suas próprias emoções, delas faz uso contido, evitando que transbordem para alem do equilíbrio que a boa poesia deve manter, ao mesmo tempo em que toca profundamente a sensibilidade do leitor.

 

Em Áspero Silêncio, como o próprio título comprova, o autor mostra que sabe trabalhar com os adjetivos, essas armadilhas traiçoeiras nas quais alguns poetas naufragam, seduzidos pelo canto da sereia dos efeitos sonoros que muitas vezes comprometem irremediavelmente o poema. Carlos Alberto Jales, ao contrário, é um poeta que maneja adjetivos domando-os para deles extrair uma expressão lírica de grande intensidade, cujo resultado se percebe na elegância da forma, no arcabouço dos seus poemas.

 

Este é um livro bem-vindo ao panorama editorial em nosso país. Por mais que se duvide da utilidade da poesia e por mais que diminuam os espaços que lhe são dedicados nas estantes das livrarias, mais se torna necessária como a mais ampla expressão da criatividade humana. Ela transpõe o limite da lógica comercial dos best sellers. Num mundo voltado para o consumo conspícuo e para o falacioso valor das mercadorias, os poetas cumprem sua missão, resistem e reafirmam a superioridade da poesia.

 

 

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