UM PLANO PARA AS ELEIÇÕES.

Como fazer o Presidente
Por B. de Paiva, consultor político
 
Nossa empresa de consultoria política, B.de P.& Partners, entrou há pouco na licitação de um partido político para um projeto de continuidade de poder. Temos bastante experiência nisso. Trabalhamos para vários governos mundo afora, tendo se destacado nossa intervenção nas Ilhas Reunião, Angola, no Perú e, mais recentemente, na Argentina e na Venezuela. Já elegemos comunista posicionando-o perante o eleitorado como neo-liberal; nazista como comunista; madeireiro como ativista dos Verdes e, deve estar na lembrança de todos, Fernando Collor combatendo a corrupção de Sarney e a ameaça que o Lula representava para a poupança popular. Ganhamos bom dinheiro e experiência sobre como dirigir a tendência de voto nos países emergentes do ex-terceiro mundismo.

Perdemos essa licitação porque nos recusamos a fazer alguns repasses que o nosso “board” considerou acima dos preços do mercado internacional. Mas era um projeto interessante porque envolvia algumas questões institucionais e inúmeros conflitos de interesses – do tipo quem está em cima se segura e quem está por baixo balança o galho. Trata-se de um país grande e multifacetado. A coligação que se encontra no poder disputa entre si cada centímetro de influência e o pau come atrás das cortinas e sob as mesas. Correm diariamente denúncias de corrupção, gravações clandestinas e boatos com e sem fundamentos. É um grupo vigiando o outro, de dedo em riste e gravadores de última geração. Um quadro político, enfim, moderno e atrativo.

A coalizão hegemônica procura se manter no Poder, como é muito comum com todo mundo que está por cima. Mas as dúvidas são enormes. O representante da coalizão que ocupa o primeiro degrau do Executivo está bastante desgastado. Caiu na boca do povo, como dizemos em nosso jargão de consultores políticos. Por mais que ele desempenhe a liturgia do cargo e olhe tudo com ar superior, como convem a um Presidente, as massas teimam em desmoralizá-lo, a oposição cobra programas de governo e pede renúncia e as bases de apoio no Congresso gritam cadê o meu. Uma reforma feita recentemente no Ministério nenhuma repercussão conseguiu na opinião pública e a popularidade do governo encontra-se rolando pela escada abaixo.

Esse é o cenário, em rápidas palavras. A solução que propusemos em nada se parece com a que vendemos na Venezuela. Nada de populismo e demagogia porque o quadro é outro. Uma coisa é fazer de um sargento um líder popular e outra é fazer o mesmo com um intelectual cosmopolita, como é o caso de que tratamos. Intelectual não gosta de cheiro de povo. Fizemos muita pesquisa para concluir que a coalizão deve pensar logo num candidato viável para as próximas eleições. Nada de renúncia ou impeachment porque isso daria fôlego à oposição e o risco de perder o poder seria muito grande. Moldar desde já pelo menos dois perfis políticos alternativos seria a solução indicada. Começar a preparar essas duas candidaturas para o primeiro embate do Século XXI, insinuando diante do povo dois possíveis candidatos, com perfís bem diferentes, para descobrir mais tarde qual dos dois vai para a vitória nas urnas. Os dois dizendo sempre que não são candidatos mas sem negar peremptoriamente.

Assim:

Perfil do candidato A

Perfil do candidato B

Idoso

Jovem

Autoritário rude

Autoritário vaselina

Carrancudo

Risonho

No poder

Quase na oposição

Nordestino

Nordestino


Pode-se ver que existem duas características em comum nos dois perfís: autoritário e nordestino. Justifica-se a primeira pelo fato de que o povão detesta presidente mole. O prendo e arrebento de um presidente já esquecido foi o seu maior momento de popularidade. O inconsciente coletivo do povão jamais esqueceu o autoritarismo risonho de um ditador do Sul que governou o país por duas vezes. A recomendação de ser um nordestino explica-se pela necessidade de apelar para os eleitores mais pobres, que representam a imensa maioria dos votos. O nordestino tem essa enorme capacidade de, mesmo sendo milionário, parecer pobre. Além disso, a coalizão já deve saber que a tendência é a de ser derrotada nas capitais, onde o voto é mais rebelde, e ganhar nos grotões, onde o eleitor tem, digamos assim, mais amarrações com as lideranças. Ou com lideranças religiosas do tipo evangélico, que têm se revelado o maior entre todos os negócios legais. Melhor, só as drogas.

Na hora de finalmente lançar o candidato para a vitória, as pesquisas dirão se deve ser o candidato A ou o candidato B. Estarão garantidos, no mínimo, mais quatro anos de Poder .

Duvido que essa estratégia não dê certo. Só esperamos que eles não esqueçam de nos pagar alguma coisa pela luz que lhes demos nessa atual conjuntura.

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