Porque odeio qualquer comemoração

Bill Falcao

Eu odeio Carnaval! Aliás, odeio todas as datas comemorativas. De qualquer coisa! Odeio Carnaval, Ano Novo, Páscoa, Natal,Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, meu aniversário... Deveriam criar o "Dia do Saco Cheio". Este eu comemoraria, com grande prazer, alegria, contentamento, júbilo, risos, sorrisos...

Mas, gosto, estranhamente, de marchinhas de Carnaval. Talvez porque evoquem uma época onde tudo era mais ingênuo e, quem sabe, puro.

Gosto, especialmente, daquela que começa assim: "Tomara que
chova/três dias sem parar/Tomara que chova/três dias sem parar." Até cantei essa estranha marchinha daqui da minha janela, no ano passado. Montaram um palco aqui em frente, na Praça da Estação. E os bêbados, vagabundos e pivetes começaram a chegar, pra pular de graça dentro de um cercadinho, tudo bem parecido com um curral que vi uma vez em Campos do Jordão. Cinco minutos depois, meu santo favorito (desde aquele dia), São Pedro, mandou uma tromba d'água tão violenta que derrubou até o palco, onde uns crioulos fingiam que cantavam. E a digníssima platéia corria feito o estouro de uma boiada, enquanto eu, espectador privilegiado, gritava como se comemorasse um gol do Cruzeiro: "Tomara que chova/três dias sem parar/Tomara que chova/três dias sem parar..."

Ssinto uma grande solidão nessas datas! Procuro abrigo em
amigos como Bertrand Russell, Tchecov, Herman Hesse, John Lennon, Frederic Chopin...Ainda bem que tenho esses amigos, hein? Tem gente que é íntima de Zecão e Zecãozinho, Chicão e Chicãozinho... O único cãozinho que suporto é o Nick, mesmo assim porque entendi o motivo dele se refugiar aqui em casa, abandonando minha vizinha. Nick gosta de ir pra rua, é seu maior prazer, eu acho. E me obriga a sair com ele todos os dias. Saimos do Centro atravessando o Viaduto da Floresta. Aí nos sentimos livres. Ainda bem que moro bem próximo do fim (ou será do começo?) do Centro. Basta sair de casa, passar pela Praça da Estação e pegar o Viaduto da Floresta.

Seria terrível se eu morasse ali pelo meio do bairro. Já tentei sair com o cão por aquele lado e quase fui linchado. Como esse povo daqui de BH é jacu...

Em Copacabana, velhinhas andam com seus poodles tranquilamente, pela Barata Ribeiro, pela Avenida Copacabana, pela Atlântica... Aqui, se você anda com um cão pela rua é olhado como um ET.

Mas não é disso que eu estava falando! Eu falava de datas
comemorativas e de solidão. Quanto mais gente eu vejo reunida pra comemorar o que quer que seja, mais sinto solidão, mais me sinto realmente um ET.

Gostaria de ser religioso, entrar pra uma seita...Talvez eu fosse
feliz...Eu acreditaria em deuses e ainda teria amigos que
acreditariam também...Tudo perfeito...Rezaríamos juntos...
Por quê eu não acredito em nada?

No Olympia, a gente ia dançar e ver shows, embaixo do Edifício JK. Lá, hoje, existe uma igreja. Universal. Há dois dias, voltando do neurologista, passei por lá justamente na hora em que ia começar um culto. Pensei: "Eu devo entrar também! Minha vida
pode melhorar, quem sabe eu encontre a felicidade aqui?"
Depois, olhei pras pessoas que entravam e perdi a vontade.

Há mais de 20 anos, quando eu morava no Rio, passei uma vez pela Igreja da Candelária, no Centro. As portas estavam abertas. Dei uma olhada e fiquei fascinado pela beleza da Igreja. Como um autômato, fui entrando e, quando percebi, estava ajoelhado naquelas cadeiras esquisitas que as igrejas têm. Pensei que fosse rezar, pedir alguma coisa. Mas fiquei olhando as paredes, o teto, os vitrais, o altar, a roupa do padre. Tudo lindo, como um desfile de uma Escola de Samba (detesto Carnaval, mas reconheço que algumas escolas são, digamos,
esteticamente bonitas).

Enquanto a missa prosseguia, eu sai do transe, olhei aquelas
mocréias com véus e terços nas mãos, me levantei e procurei a saída, aterrorizado...

Lembro daquele personagem do Woody Allen em "Hanna e Suas Irmãs". O que procurou entrar pro Catolicismo, Judaísmo, Hare Krisna etc?. É o que eu tento fazer agora. Mas, na prática, não sou muito bom em nada. Meu psicólogo discorda. Mas ele discorda de tudo que eu digo há 22 anos! Acho que é uma tática dele pra não perder cliente. Fica me fazendo pensar no contrário...

Mas eu falava de prática. É que tentei seguir um grupo que dá sopa pros mendigos de madrugada, e não senti nenhum prazer nisso. Uma garota ainda me disse que eu "não deveria ficar procurando prazer", e sim procurar "fazer o bem, sem esperar recompensas". Concordo, mas, além de tentar ser útil pros outros, eu segui o grupo por causa dela, tipo assim: "O que você vai fazr depois de dar sopa pros pobres?"

Não consegui me dar bem em nenhuma das atividades. Cheguei em casa morrendo de dó dos mendigos e também de mim (a garota era linda, vai ter seu trabalho reconhecido por Deus, não tenho a menor dúvida disso).

O Carnaval continua por quatro ou cinco dias, sei lá! Na
Bahia, nunca acaba! Dizem os historiadores que é impossível saber até a data do início do Carnaval na Bahia! Quanto ao fim, também é impossível.

Ainda bem que moro nessa terra onde o Carnaval não passa de quatro ou cinco dias (incluo aí a quarta-feira de Cinzas, que não deveria, mas É Carnaval!) e sua presença é notada apenas pelos bêbados que dançam sem música pelas ruas e pelos pentelhinhos que jogam água e mijo na gente...

Com mais de 40 anos nas costas, eu reconheço: não achei minha
turma. Acho que é por isso que detesto essas festas populares.

Minha solidão aumenta nessas épocas. Odeio ver o povo feliz porque é Natal, Carnaval, Dia do Cacete... E Ano Novo, então? O que tem de novo no ano? Observe que as pessoas nem percebem que estão comemorando na hora errada. Na verdade, deveriam comemorar UMA HORA DEPOIS, já que os dias 31 de dezembro e primeiro de janeiro fazem parte do horário de verão.

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