Arraial do Cabo
Caio Mourao*

Lá pelos anos 70 e caquerada, que alguns “ipanemenses” da minha geração lançaram o começo de uma colônia naquela cidade, ou melhor, numa de suas praias.

Tudo começou com Sérgio Braga, meu colega de “copo e de cruz” - e de terno também (vide crônica anterior). Ele estava namorando uma pessoa de Cabo Frio não de todo livre, pois era mais ou menos casada com alguém bem conhecido. Era necessário um lugar escondido para os encontros e, naquele tempo, não existia ainda a maravilha de motéis – pelo menos não com essa facilidade de hoje. Ele virou e mexeu até que descobriu uma casa, bem simples, numa praia quase deserta, só freqüentada por pescadores, Praia Grande, perto do Morro da Atalaia. Alugou e os pombinhos passaram a se encontrar lá.

Mas aos sábados e domingos não usavam a casa, pois tinham uma boutique e eram os dias de pique do negócio, ficando a casa livre, então.

Eu construía a minha de Iguaba e tinha que vir todo fim se semana para verificar o andamento da obra, pagar os pedreiros e providenciar material. Por isso, comecei a ir para lá na sexta, no sábado cuidava de Iguaba e domingo curtia a Praia Grande. Na segunda retornava ao Rio, pois meu atelier de jóias não funcionava neste dia – desisti de tentar, pois estavam todos de ressaca, tanto patrão (eu) como os “empregados”. Assim, dávamos mais uma hora nos outros dias.

Outro freqüentador era Odin, amigo nosso, vidrado em fotografia e em pescaria, que lá encontrou seu paraíso, e até hoje está pela região. Assim fomos tocando, até que o caso cabofriense de Sérgio terminou, e então veio completar a trinca.

Então começa realmente a estória.

Sergio era muito relacionado, como gente, como publicitário e também era excelente cozinheiro, começou a convidar amigos para os fins de semana, então tivemos um desfilar de Millor Fernandes, Fausto Wolff, César Thedim, Jorge Eduardo, Henfil, Hugo Bidet, Paulo Coelho (o arquiteto, não o embromador), Jaguar, Ismênia Dantas, Celso Japiassú etc. Estes últimos adoraram e alugaram casa no mesmo lugar, Jaguar ao lado. Começou o “kibutz”. E todos estes personagens sempre vinham acompanhados por beldades da época, o que fazia a alegria dos olhos dos pescadores e dos nossos também.

Todo o fim de semana virava festa, cada um levava seu uisquinho, suas comidinhas, no bom sentido e no outro também, e nos divertíamos a valer.

Descobrimos então, que dentre nós, vários cozinhavam por diletantismo e bem. Odin, especialista em peixes; eu fazia umas quatro ou cinco coisas também; Sérgio e Celso nem contar, pois abriram restaurantes depois. O de Sérgio, o “Chopnics”, que acabou, e de Celso, o “Farona” que funciona muito bem até hoje.

Resolvemos, então, que a cada domingo um iria para a cozinha fazer a comida . Era chato, pois perdia um bom tempo de praia e fofocas.

Começou com Odin que fez um peixe de comer rezando. Celso fez um feijão gordo mineiro, que não funcionou muito, porque cada um que ia pegar mais um uisquinho, dava uma tarrafada, e chegou na mesa já meio magrinho.

Na minha vez resolvi fazer um Escalope Surpresa, é um filé mignon semicortado ao meio, com queijo mussarela e presunto por dentro, depois empanado e frito, fácil e rápido, pois não queria perder a praia, que naquele dia estava o máximo. Henfil, o dos fradinhos, estava lá, e resolveu me ajudar e aprender a receita, só que não concordou com o nome de Surpresa, pois segundo suas palavras:

- Se todos sabem o que tem dentro, não existe surpresa nenhuma.

Preparei tudinho, só não empanei. Deixei para a hora de fritar e fui curtir minha praia, já atrasado.

Voltei, terminei a tarefa e servi para a turma, a estas alturas 16 horas, já mortos de fome e com vários aperitivos funcionado.

Então, começam a trincar os dentes e tirar da boca as coisas mais insólitas, tampinhas de cerveja, filtros de cigarro, rolhas, nada engulivel, porém.

E Henfil, morrendo de rir e dizendo:

- Isto sim, é um autentico Escalope Surpresa! Eu que fiz. – assumiu.

Outra foi com Sérgio, que resolveu fazer um peito de boi, que, como todos sabem, é uma carne duríssima e só serve para sopa, e assim mesmo...

Começou a operação na sexta. Até foi mais cedo para Arraial para escolher a carne e já botá-la nos seus molhos secretos. Todo o sábado passou revirando as peças dentro do alguidar, espetando e colocando mais segredos. No domingo, começou a assar em forno lentíssimo as seis da manhã, não ficava quinze minutos na praia sem sair para dar uma olhada ou virada na sua obra de arte. Esmerou-se.

Resolvemos então sacanear o cozinheiro, combinamos todos, que na hora de degustar a maravilha, ninguém diria nada a respeito, comentaríamos fofocas da praia, quem comeu quem, serviços no Rio na segunda-feira etc.

Assim foi feito, Sérgio olhava de um para o outro esperando um comentário, e a gente devorando aquela maravilha. Nada dissemos, até que Sérgio, levanta-se quase com lágrimas nos olhos e diz:

- Está direitinho, não está?

Caímos na gargalhada, e ele então percebeu tudo e ria mais do que todos.

Foi o melhor peito de boi que comi em toda a minha vida.

*Escultor, designer e cozinheiro amador