Os sonhos envelhecem


Maria das Grašas Targino*
                                                                                                                                          

O “The Voice Kids” é um reality show musical da Rede Globo, destinado a crianças talentosas que sonham em incorporar a música à sua vida pessoal de forma plena e, quiçá, mais adiante, à vida profissional. A fórmula foi tão bem aceita pelo público que já finalizou sua quarta temporada, que ocorre de tempos em tempos e, decerto, o sucesso foi decisivo para a ideia da montagem do “The Voice+”, com formato similar e estreia no último dia 17 de janeiro, com jurados conhecidos do grande público: Claudia Leitte, Daniel, Mumuzinho e Ludmilla.


O “+” incorporado à expressão inglesa “The Voice” é o indicativo de que os candidatos precisam pertencer à faixa etária de 60 anos em diante. O caçula dos musicais tem trazido excelentes candidatos. São pessoas que acreditam ser possível continuar abraçando o sonho da música e, portanto, usufruindo a doçura e a paz que ela traz. Mais do que reviver canções e momentos de sua existência, expõem nosso poder em decidir o tipo de velho que queremos ser. Vamos além. Ousamos afirmar, talvez, para espanto de alguns, que é preferível ser um velho ridículo aos olhos dos outros do que um velho acabrunhado aos seus próprios olhos.
Repetimos, com insistência irritante (reconheço), que é a sociedade que define e impõe um padrão psicossocial de velhice. O velho se julga velho e é julgado velho. Tachado de velho, é induzido a assumir, pouco a pouco, infinito cansaço, infinita inércia, infinita lassidão diante dos dias que seguem, numa tentativa de corresponder às expectativas, ou seja, comportando-se como esperam que se porte. No caso da velha, veste-se como os outros esperam vê-la – como será? Cuida dos cabelos como as velhas devem fazê-lo – como será? Contém o ímpeto de dançar, porque as críticas virão. Intimida-se. Risca de seu dicionário a palavra ousar. De seu coração, a palavra paixão. De seu viver, a expressão “grandes emoções”.
O velho tende a viver a vida dos filhos, dos netos, dos sobrinhos, dos bisnetos, dos afilhados, enfim, de quaisquer outras pessoas. Este velho, este, sim, merece piedade. Não consegue mais ser e se contenta em não ser. De fato, como afirmamos, também com veemência, muitas vezes, nos surpreendemos com o que ainda somos capazes de ser, no momento em que superamos o medo de continuar cultivando o encantamento da vida.


Mas, no “The Voice+” em especial, o que chama atenção é o bordão dito como mantra antes e durante o Programa – “os sonhos não envelhecem.” Envelhecem, sim. E como!  Ora, os sonhos nos acompanham. Seguem nossos passos. E à medida que a vida nos traz alegria, esperança, felicidade, contentamento, realização e prazer, não poupa os dissabores que virão sob formatos e cores diferentes, às vezes, em circunstâncias de muita dor e espanto paralisante. Porém, o que é vetado, em qualquer circunstância, é perder a capacidade de sonhar e acalentar a esperança.


Cada um de nós possui experiências únicas, embora concordemos com quem afirma que a história do ser humano se repete com variantes inevitáveis. Por exemplo, vivi, como todos (ou quase todos), grandes amores. O maior de todos – se é possível mensurar (e é) – perdeu-se nos desvãos da vida. Soube que nos encontraríamos “casualmente”. O coração bateu forte. Previ que ele não seria mais ele. O sonho se fora. Não o esqueci. Mas os fios se romperam. Os copos de cristais se desfizeram em cacos pequeninos e sem vida. Morreram como morreu nosso amor. Restaram as lembranças. Posso desnudar, detalhe a detalhe, a volúpia de seu corpo nu brincando com o meu num jogo divino de sensualidade e paixão. Posso descrever, um a um, tudo que vivemos, sonhamos, dissemos, pensamos. Os nomes dos filhos escolhidos e que não chegaram. Simples assim: eram sonhos e nada mais...


Quer dizer, o grande sonho se desfez. É, agora, um vulto desbotado do que poderia ser e não foi. Agora, o sonho assume o formato caricato de paixões perdidas, revisitadas, às vezes, em noites insones. Os sentimentos persistirão invencíveis, indestrutíveis e inabaláveis. Os sonhos terão novas cores e direções ou novos formatos. Os sonhos transmutam-se. O tempo de espera difere. Afinal, tendemos a andar mais devagar com o passar dos anos. E os sonhos podem envelhecer, sim, de tanto esperar!

 

*Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica, gracatargino@hotmail.com

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