Praia do Flamengo, 132 - Clemente Rosas, inventário de esperanças e sucessão vertiginosa de experiências de um líder estudantil. Por W. J. Solha.

Gaza: somos todos responsáveis. Por Léa Maria aarão Reis.

John Lenon e eu. Por Carlos Alberto Jales.

Herói, eu? Por Carlos Alberto Jales.

Esperança do jornalismo a favor do cidadão: não à mercantilização da mídia. Por Maria das Graças Targino.

O mercado que escraviza a cultura. Por Celso Japiassu.

A curiosidade do público sobre o pormenor artístico e o sexo dos bares. Por Paulo Maldonado.

Velhice: só a ironia conforta. Por Paulo Maldonado.

Reminiscências euclideanas. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Singela historinha de Natal. Por Moacir Japiassu.

Duas crônicas de Affonso Romano de Sant'Anna.

A crônica entre a filosofia e a graça. Por Jean Pierre Chauvin.

O Silêncio dos Amantes. Resenha de Maria das Graças Targino.

Um olhar feminino sobre a vida e sobre o mundo. Por Celso Japiassu.

A casa, a luz e os ventos. Por Silva Costa.

A minha menina má. Por Nei Leandro de Castro.

Memórias do nosso tempo: Lembrança de Silvinha.

Deixa o mago trabalhar. Por Carlos Alberto Jales.

O envelhecer, a solidão e o cansaço. Por Maria das Graças Targino.

Cheio de prosa. Por Nei Leandro de Cstro.

Quase triste. Quase feliz. Por Maria das Graças Targino.

Eu, o centro-avante Ademir e a derrota do Brasil em 1950.

Um jogo de futebol inesquecível.

O galo da Rua do Sol. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Duas crônicas de Affonso Romano de Sant'Anna.

Memórias do nosso tempo: um depoimento sobre Marcos Lins. Por Clemente Rosas Ribeiro.

O século sombrio. Por Léa Maria Aarão Reis.

Elogio à Loucura. Por Maria das Graças Targino.

Celso Furtado e a história da SUDENE. Por Clemente Rosas.

Em defesa de Camila. Por Maria das Graças Targino.

Historias de amor no cinema feito para o Natal. Por Maria das Graças Targino.

Homenagem a Celso Furtado. Por Clemente Rosas.

Roberto & Lily, histórias de amor. Por Maria das Graças Targino.

Jornalismo e meio ambiente. Por Maria das Graças Targino.

Sexo: Criatividade demais estraga. Por Daniel Japiassu

Michel Moore, o documentário e a tragédia da vida. Por Léa Maria Aarão Reis.

A eternidade dos amores fugazes. Por Maria das Graças Targino.

Israel x Palestina. Uma discussão sobre o racismo. Por Léa Maria Aarão Reis.

Os traços da perversidade humana, por Graça Targino.

Quem foi Gláucio Gill, por Helio Bloch.

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Arte e Embuste

 

Arte da hora, por Hélio Jesuino.

Uma crônica de Affonso Romano de Sant'Anna dá início a um debate sobre arte e embuste.

Almandrade entra no debate e em dois artigos fala sobre a irrealidade da arte contemporânea e o descaso pela arte.

Os mecanismos de marketing da arte contemporânea. Celso Japiassu.

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O encontro de Madame Satã com o bordel das normalistas.

Daniel Japiassu entrevistou o embaixador dos havanas.

A paz no mundo, segundo Claudio Sendin.

Anotações sobre a cidade de Salvador. Almandrade.

A versão light da alma feminina. Carla Rodrigues.

Comida sob medida para neuróticos, por Carla Rodrigues.

A bicicleta que derruba, por Silva Costa.

Dois textos sobre a cidade, por Almandrade.

Luciana Souza, uma brasileira no jazz. José Nêumanne.

A mais antiga pergunta: você acredita em Deus? Por Claudio Sendin.

Um poema de Brecht e uma carta de Evandro Lins e Silva.

A publicidade selvagem contra o correio eletrônico, por Stéphane Foucart.

O discurso de Fidel Castro no aniversário da Revolução Cubana.

Conversa de botequim via telefone celular, por Caio Mourão.

O que faz uma mulher mudar a vida, por Carmen S. Martinzez.

A crise econômica é uma crise de papel. Ensaio de Leopoldo Camara.

Arrumando a casa, Silva Costa se rende à nostalgia da memória.

Relato de uma viagem ao inferno.

Nós que matamos Tim Lopes. Affonso Romano de Sant'Anna._

Um projeto para reformar a política no Brasil, por M. Peri.

Elogio aos gatos. Celso Japiassu.

Suas senhas e nossos bandidos, por Daniel Japiassu.

Juventino na malhação, por Jorge Ferenando dos Santos.

Porque Romário não vai à Copa. Caio Mourão.

Larguem o W do homem! Por Marcia Lobo.

Uma crônica de Jorge Fernando dos Santos - Uma lição de vida.

A nova tecnologia e a velha crise social. Daniel Japiassu.

Sergio Cavalcanti diz porque a internet faz mal e declara o seu amor por ela.

Sísifo pelo avesso, Fênix e os velhotes de Havana, por Léa Maria Aarão Reis

Depoimento de um campeão do futebol de botão, por Anibal Beça.

Affonso Romano de Santana conta o amor de um mineiro pelo mar.

Novo livro de Lea Maria Aarão Reis: a mulher na idade madura.

Dois Textos de Affonso Romano de Sant'Anna sobre o horror de setembro.

Guerra à guerra.
Por Daniel Aarão Reis.

O fim do mundo, segundo São Malaquias. Por Mario Jorge Dourado.

Mario Castelar estréia no site e escreve sobre a magia dos átomos e dos índios.

Caio Mourão e a tia que viajou num
disco voador.

Um adeus a Eduardo Haddad Filho, por Carlos Alberto Teixeira, em O Globo.

Léa Maria Aarão Reis escreve sobre
o que há de bom acontecendo.

WJ Solha

 

CLEMENTE ROSAS

Inventário de esperanças e sucessão vertiginosa de experiências de um líder estudantil

 

W. J. Solha *

 

Bancário com carreira no sertão e na capital paraibanos, tive enorme inveja quando comecei a trocar e-mails - há dois ou três anos - com vários colegas do BB, também escritores, mas que tiveram carreira internacional no Banco do Brasil: Esdras do Nascimento, Ivo Barroso e Carlos Trigueiro – todos agora no Rio. Do mesmo modo, lembro-me – com imenso complexo de inferioridade - da figura lendária em que se tornou um tal de Manoelzinho, que aprendera a ler sozinho aos quinze anos, nas abas de uma serra da região de Pombal, onde vivi; fora pro seminário de Cajazeiras, perto dali; trocara a batina por um emprego no Bradesco, em Recife; se mandara pro Rio – aprovado em concursos da Petrobrás, Banco do Brasil e Banco do Estado de São Paulo, optando pelo primeiro – até que, ante a repressão da ditadura, matriculara-se na Sorbonne, na França, desviando-se de lá pra Universidade Patrice Lumumba, de Moscou, onde morrera algum tempo depois, devido a um tumor no cérebro. Transformei sua trajetória – tão fascinante me parecera - na de meu personagem Zé Medeiros, em meu até hoje inédito romance “Dricas”.

 

E eis que o também paraibano Clemente Rosas, residente no Recife, lê alguma coisa minha no blog Unlimited, de Hugo Caldas, do Pernambuco, escreve-me, publica uma excelente resenha de meu romance “Relato de Prócula” no Jornal do Commercio, começamos a trocar e-mails, recebo dele seu livro “Coco de Roda – Treze Ensaios Iluministas”, concordo integralmente com suas abordagens sobre os também paraibanos Virgínius da Gama e Mello e Ariano Suassuna, e aí ele supera a inveja que eu tinha do tal Manoelzinho e dos meus amigos escritores do Rio, dando-me para ler outro livro seu – “Praia do Flamengo, 132 – Crônica do Movimento Estudantil nos anos 1961-62”! Caramba, trata-se de um documento único sobre o que foi a luta extremamente aventurosa das lideranças universitárias brasileiros pela implantação do socialismo no país, no conturbado período que acabaria descambando no triste março de 64, época em que eu vivia como noutra nação, conseguindo um bom emprego, namorando e me casando, recebendo do distante Brasil apenas vagas notícias a respeito, pelo rádio, sempre intercaladas por alegres jingles, tipo “Coca-Cola Coca-Cola, oi, me faz um be-em”, ou “Passa passa talco Ross, quero ver passar...”

 

Clemente Rosas – que acabei conhecendo pessoalmente num encontro, em João Pessoa, em prol do reerguimento da Sudene - é como escreve: elegantemente sóbrio. Contido. Sua narrativa acompanha com lúcida calma os começos de um jovem corajoso, mas tão inseguro quanto tímido, que vai evoluindo até mostrar-se inteiro, dois anos depois, transformado num líder estudantil experiente e seguro. Cada etapa desse florescimento é notável. Lembro-me de ter visto, durante as filmagens de “A Canga”, em 2001, Walter Carvalho – então nosso diretor de fotografia – falando sobre o deslumbre que seu irmão Vladimir exercera sobre ele, Walter, na juventude, influenciando-o definitivamente para sua carreira de cineasta. E eis que reencontro nosso grande documentarista (com nome que homenageia Lênin) no mundo de Clemente Rosas:

 

- “O responsável por essa minha mudança dialética havia sido Vladimir Carvalho, já naquela época vidrado em teatro e cinema, além de fervoroso militante.”

 

E aí vemos quantas outras pessoas brilhantes cruzaram o caminho de Clemente:

 

- “Tive oportunidade de empregar a mesma tática insidiosa (de Vladimir Carvalho) para, por minha vez, recrutar Paulo Pontes, que consegui que fosse indicado pelo Partido para uma reunião de comunistas atuantes em movimentos de cultura popular, no Rio, apresentando-o a Marco Aurélio Garcia e pedindo para recomendá-lo a Vianinha, Armando Costa e outros companheiros do Centro Popular de Cultura (CPC)”.

 

- “A essa altura, Lindberg Farias, Vice-Presidente de Coordenação Universitária da UNE e representante da Paraíba na diretoria da entidade, já pensava em meu nome para sucedê-lo “.

 

- “Eu era vice-presidente do Diretório Acadêmico de Direito, e meu amigo Tarcísio Burity, o presidente”.

 

- “Lembro a magreza e a energia do Antonio Augusto Arroxelas.”

 

- “Nossa última reunião, naquela fase, contou com a participação de dois companheiros: o Betinho (Herbert José de Souza) e Cacá ( Cacá Diegues).”

 

- “Destacava-se ( na Conferência de Montevidéu) a figura patriarcal de Miguel Ángel Asturias: um velho índio guatemalteco, de pele moreno-pálida, nariz alto, grandes orelhas, vasto corpo, que ele descansava, sem qualquer pose, sentando-se na grama dos jardins.”

 

-“Lembro-me de um almoço na Embaixada da Iugoslávia, para que fui convidado, juntamente com o deputado Francisco Julião.”

 

- “Os invasores haviam desaparecido no escuro do jardim. Um rapaz gemia, no chão, a perna quebrada por um tiro. Quem o socorreu foi José Iremar Bronzeado, meu velho conhecido da Paraíba, que aliava à experiência de escoteiro a de ex-soldado do batalhão das Nações Unidas, em Suez.”

 

- “Isa Guerra era uma pessoa notável. Originária de Campina Grande, onde moravam seus pais, alojava-se em João Pessoa, num pensionato de freiras do velho mosteiro de São Bento. Inteligente, charmosa e comunicativa, liderava naturalmente o bloco feminino, enquanto deslumbrava os seus coleguinhas do outro sexo.”

Além desse desfile de pessoas marcantes, cujos nomes cresceram, anos depois, há uma vasta sequência de paisagens no livro de Clemente Rosas: João Pessoa, Recife, Rio, São Paulo, Brasília, Curitiba, Quebec, Leningrado, Moscou...

 

- “Eu dispunha de apenas alguns dias antes de embarcar para Helsinque, na Finlândia, onde deveria realizar-se o VIII Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes pela Paz e Amizade entre os Povos.”

 

- “Além de Bucareste, estivemos na estação balneária de Mamaia, no Mar Negro, e fizemos, de ônibus, a travessia dos montes Cárpatos.”

 

- “O funcionário do hotelzinho, em Zurick, como eu pedira, me despertara pelo telefone, para que eu continuasse minha viagem até Praga.” Muito bem. Esse enfronhamento em detalhes do movimento estudantil brasileiro e internacional já seria o bastante pra seduzir qualquer leitor que viveu ou não aquela época de transição. Some-se, no entanto, ao relato sempre empolgante dessa parte de nossa História, uma acuidade e controle da escrita, capazes de observações como estas, sobre algumas mulheres:

 

- “A delegada da Albânia fazia bem a figura da comissária do povo, rústica, encorpada, sem adornos femininos.”

 

“A Zuleika era madurona e nada bonita, mas ostentava duas coxas roliças frequentemente exibidas sob o vestido justo e curto, no cruzar de pernas, ao longo das reuniões que mantinha conosco. Aquelas coxas, cujos lances atraiam, inelutavelmente, nossos olhos juvenis, eram a sua única amenidade.”

 

- “Lá pelas tantas, todo mundo cheio de vodka, apelava-se para a irreverência;

 

Somos socialistas, pa´arriba e pa´abajo

Y al que no le guste, que vaya pa´el carajo.

 

Naquele tempo, o palavrão não era corriqueiro entre as moças. Lembro-me de uma bela interprete espanhola que, nestes momentos, omitia-se do coro. Mas continuava dançando”.

 

E repare na humanidade desta anotação:

 

- “Após ter participado de vários conflitos de rua, pude observar que esses tipos afoitos que se lançam na frente dos tanques e expõem o peito às balas, entregando-se a sacrifícios nobres, mas inúteis, são, muitas vezes, indivíduos tímidos, retraídos, anônimos no dia-a-dia. Agem como se sentissem haver chegado o seu grande momento de afirmação perante os companheiros. Como se aquela fosse a sua vez e a sua hora.”

 

“Praia do Flamengo, 132” é um depoimento tão importante quanto vivo. Não História de historiador, mas de quem passou por tudo que nos conta com total desenvoltura e conhecimento de causa. A revelação dos bastidores da grande trama – que não cabem aqui – já valem o livro.

Lançado em 1992 pela FUNDARPE – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – ele está merecendo – urgentemente – uma segunda edição.

 

* escritor

 

 

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