PANDEMIA E SOLIDÃO

 

Maria das Graças Targino
Abr. 202
1

Impermanência
[...] toda vez que eu estou presa àquela falsa sensação de segurança que o apego traz, eu lembro que um dia estava à beira da praia observando uma mãe com um filho brincando, assim, à beira do mar.
Eles tinham um balde e com o maior esforço de fazer uma escultura perfeita. Cada vez que conseguiam, vinha a onda e derrubava.
E aí eles riam e recomeçavam.

E por terem aprendido a construir tudo da primeira vez eles não tinham medo de começar de novo.

Autor desconhecido e divulgado graças a Allan Dias Castro

Chegada funesta da Covid-19

Não se pode dizer que os dias mundo afora corriam leves e soltos nos anos 90. Seria hipocrisia deslavada. Problemas mundiais de dimensão catastrófica. Além de questões ambientais (poluição do ar, desmatamento, extinção de espécies, degradação do solo e superpopulação), registro de guerras, muita fome, crises políticas e econômicas, terrorismo e violência, e desastres naturais, humanos e mistos, por quase todas as partes.
Como se fora insuficiente, ainda que os primeiros coronavírus humanos tenham sido isolados, no longínquo 1937, a pandemia do novo coronavírus, a Síndrome Respiratória Aguda Grave Coronavírus 2 (SARS-CoV-2) deixou a salvo por um tempo relativamente longo um único continente, a Antártida. Neste momento, segundo a BBC News Brasil, são apenas 10 países sem nenhum caso de Covid-19. Todos eles – Palau / Micronésia / Ilhas Marshall / Nauru / Kiribati / Ilhas Salomão / Tuvalu / Samoa / Vanuatu / Tonga – têm em comum reduzida população. Outra vertente diz respeito aos regimes repressivos, com destaque para a Coreia do Norte e Turcomenistão, ambos na Ásia.


O atual surto de infecções por SARS-CoV-2 é denominado de Coronavirus Disease 2019 (Covid-19). Em meio a infindas controvérsias, acredita-se que a Covid dos dias de hoje foi detectada no dia 1 de dezembro de 2019, em Wuhan, sétima cidade da China e número 42 do mundo, localizada no centro do país, dentre um grupo de indivíduos com pneumonia de causa desconhecida, a maioria deles, vendedores ambulantes do Mercado de Frutos do Mar.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como emergência de saúde pública de interesse internacional. Duas outras infecções por coronavírus, SARS, 2002-2003 e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), 2012, causaram, à época, síndrome respiratória grave em humanos. Essas três doenças infecciosas que levam à disseminação praticamente global são causadas por β-coronavírus. No caso específico da Covid-19, desde a infecção, o período de incubação para os primeiros sintomas aparecerem varia de dois a 14 dias, atingindo, em geral, o trato respiratório superior ou inferior. Os sintomas mais comuns são registro de febre e, no mínimo, um sintoma respiratório, como tosse ou dificuldade de respirar, sendo também comum a disseminação viral no plasma ou soro.


O novo agente do coronavírus (CID10) é assim denominado devido ao perfil microscópico em formato de coroa. E a Covid-19 não está só. Traz consigo variantes mais contagiosas e resistentes, e, portanto, mais letais. Com tantas notícias sobre as mutações do Sars-Cov-2, ao lado dos esforços globais em busca do avanço da vacinação contra o vírus por parte de nações autossuficientes na produção de vacinas, a exemplo da China, Inglaterra e Estados Unidos, unem-se outras, como Alemanha, Canadá, Rússia e o próprio Brasil. No entanto, persiste dúvida implacável: as vacinas iniciais e em curso darão conta das cepas da Covid-19? A resposta é complexa e inescrutável.


Num momento de tantas mortes e de tanta gente infectada, os números que mudam literalmente, a cada dia, não expressam as verdadeiras dimensões da catástrofe que surpreendeu a todos. Nenhum organismo mundial, incluindo a OMS, nenhuma nação, nenhum sistema de saúde, nenhuma equipe médica, nenhum economista, nenhum agente funerário, nenhum empresário, nenhum cidadão, enfim, ninguém estava preparado para o rastro de horror causado pela chegada funesta e sorrateira da Covid-19 ao Brasil, ao que tudo indica, no início de 2020.


No caso do território nacional, o caos agrava-se, desde o início, face à conduta desencontrada entre presidente (assim mesmo, p minúsculo), governadores, prefeitos e políticos em geral e o “vácuo permanente” no Ministério da Saúde quanto a diretrizes amplas e consistentes. Como a incerteza paira em todos os cenários, em meio à guerra ruidosa entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ênfase para a inoperância de um desgoverno aliada à sua postura negativista, impossível não registrar as pelejas do presidente com laboratórios, organizações internacionais e nacionais, e países com tradição no universo da vacinação, o que deixa o povo brasileiro à deriva com um fluxo gigantesco de informações, desinformações e fake news. Isto é, a praga do vírus e os males por ele causados atingem todos os segmentos da vida da população, com graves repercussões na economia e na educação em qualquer nível. Em tempos do coronavírus, a educação a distância ou os recursos remotos foram os primeiros itens visualizados como estratégias a curto prazo. Eis, porém, que vem à tona uma dura realidade: o analfabetismo digital, tanto de docentes quanto de discentes, salvo raras exceções, advindo da falta de treinamento e, no caso do alunado, da dificuldade de acesso às inovações tecnológicas, por fatores econômicos, culturais e sociais.


As inovações tecnológicas são capazes de estabelecer mecanismos diversificados para o intercâmbio de informações e maior influência mútua entre os involucrados no processo de aprendizagem. Mas, o ensino híbrido ou blended learning só está apto a vencer limitações geográficas e temporais, se a população escolar dispuser de um corpo docente capacitado em termos de alfabetização / letramento digital, que possa garantir aos discentes o acesso ao fluxo informacional inerente à sociedade contemporânea.

 

Distanciamento social

 

Indo além das questões técnicas alusivas à pandemia, é o momento de refletir sobre os males acarretados a todos ou a quase todos os seres humanos. Além de regras de higiene ora impostas, a exemplo do asseio das mãos com água e sabão ou álcool gel, útil também para a limpeza de maçanetas, corrimões, telefones, teclados, etc. ou do uso permanente de máscaras, o que mais assombra é o distanciamento social imprescindível nas famílias, nos ambientes de trabalho e em qualquer outra situação. Se em tempos de pandemia, muitos casais se reencontraram, reviveram das cinzas o carinho contido, trouxeram de volta as belas camisolas largadas em baús, o inverso também ocorreu pela exaustão cotidiana “da cara a cara”. Segundo dados do Colégio Notarial do Brasil, as separações saltaram de 4.641 para 7.213 (54%) entre maio e julho de 2020. Ademais, o país registrou 1.890 homicídios dolosos de mulheres no primeiro semestre de 2020 (alta de 2% em relação ao mesmo período de 2019), com o agravante de que, do total, 631 caracterizam-se como feminicídios. Dados do Monitor da Violência do G1, ano 2021, dão conta de que 14 Estados detêm elevação na soma de feminicídios, sob a vergonhosa liderança do Acre (taxa de 0,88 feminicídios por 100 mil mulheres), seguido do Mato Grosso (0,69); Maranhão, 0,39; e Pará, 0,23, além da expectativa de subnotificação desde a chegada e o alastramento da pandemia.

 

Distanciamento social e solidão

 

Como decorrência, a solidão e a tristeza instauram-se nos corações. A cada momento, no meu caso específico, olho a vida mesclada com a morte. Fico triste porque a própria vida não me parece viva. Afinal, creio que quando a Covid-19 bate à porta de uma família, não apenas se apossa de um corpo ou corpos. Ao contrário. Traiçoeiramente, tece fios finíssimos e quase invisíveis como uma teia de aranha e leva embora nossas esperanças e nossos sonhos. Assombro muitos ou poucos (agora, raramente vejo alguém e as conversas limitam-se às redes sociais), quando digo que 2020 e este início de 2021, com seus minutos, suas horas, seus dias de enfrentamento à Covid-19, nos quais me mantive totalmente só, mudaram minha vida diante do sofrimento que grassa famílias e povos. Para ser verdadeira (e o sou), perdi a noção exata de há quantos anos vivo num mundo que construí à parte por imposição da sociedade, que repudia sem palavras, de forma silenciosa, os que envelhecem. Dias, meses e anos!


A princípio, a pandemia me pareceu algo transitória e finita. Repetindo um poeta qualquer, perdido num espaço qualquer, pensei: “ora, se tudo que a gente planejou tivesse dado certo, alguns de nossos melhores momentos não teriam acontecido”. Breve, voltaria ao lar para idosos, onde ajudo a cada semana; reveria a turma querida do cineclube; iria ao supermercado, livre e faceira; visitaria algum amigo; continuaria meus estudos, como aluna especial numa pós-graduação qualquer; escreveria, escreveria, escreveria...


Ledo engano. Minhas pobres certezas foram ao ar. Planos se desmancharam como brumas tristes em noites tristes e escuras sem luar. É preciso deixar o tempo comandar. É preciso deixá-lo decidir quando tudo se transmutará numa história que soará como exagero para as gerações que virão e escutarão cansados de escutar. Anunciado. Inevitável. As gerações de agora vêm às sete léguas as grandes pandemias de tempos atrás, com destaque para cinco dentre elas: peste bubônica; varíola; cólera; gripe espanhola; H1N1 ou gripe suína, que consta como a primeira pandemia do século 21.


Ao lado de todo o clamor que ora impera, sem choramingar, agradeço aos céus a possibilidade de ler, escutar música e escrever. Choramingando, sinto falta dos filhos e dos netos queridos. Sinto falta dos meus irmãos. Todos distantes em outras cidades. Afronto e viajo até Boa Vista (Roraima) para ver meu único irmão-menino. Voos restritos. Aeronaves plenas de viajantes e viageiros. Aeronaves plenas de risco de contaminação. Na verdade, a pandemia acirrou minha imensurável solidão. Mas não paro na minha própria dor. Sofro pelas famílias dos que se foram. Quando alguém parte aos céus, deixa um rastro de dor. Desde menina, nunca soube o porquê, associava a morte a uma exibição de fogos de artifício: em vez de euforia por seus efeitos visuais, uma sensação de que alguém se fora em disparada rumo ao mundo encantado e tudo virara cinza.


A Covid-19 expõe, sem resquícios e sem pudor, as desigualdades de um país, que mesmo em época de pandemia, não se livra dos desonestos de “colarinho branco” e dos bandidos pé de chinelo, ambas as categorias perigosas e danosas ao povo brasileiro. É espantoso assistir na tevê enfermeiras ludibriando os idosos com falsa vacinação. É assombroso ver bandidos em fuga com vacinas para negociar – porque há receptadores. Todos os que violam os cofres públicos são criminosos cruéis e da mesma estirpe das enfermeiras que desonram uma profissão tão linda e dos malfeitores, que fogem pelas ruas e vielas com as vacinas surrupiadas. A todos estes não importam os brasileiros que morreram antes de nascer: são nossos irmãos que sobrevivem sem qualquer documento, nem mesmo a certidão de nascimento. Os direitos sociais mínimos lhes são negados. As aldeias indígenas continuam se contaminando...


 Desde o primeiro momento, escrevi – palavras soltas ao vento – para que, após o pessoal da área de saúde em todas as escalas, as categorias de coveiros, garis e a população carcerária fossem lembradas como prioridade. Classes sem voz! Por que será? No entanto, numa prova inconteste de que o ser humano é capaz de ressignificar seu cotidiano, em meio a tantos percalços, surgem por todos os lados lives das mais diferentes naturezas. O que dizer dos memes, dos vídeos, das orações, das novenas, das fake news que disparam numa corrida insana, das piadas grosseiras ou ingênuas que enchem as caixas eletrônicas de correspondência?

 

Nada é para sempre

 

Os velhos nunca estiveram tanto tempo em evidência. No meu caso, nenhum medo da pandemia. Muito medo das carrocinhas que catam os velhos e as velhas (risos!). Nunca me senti tão velha no alto dos meus belos e bem vividos 72 anos. Anos transcorridos, e, de repente, a pandemia traz à tona a anciã em que me transformei. Resisto e, quando muito, admito que embalo, com carinho, a velhice instalada em minha vida. Tornei-me uma mulher-coruja-silenciosa ou, frente ao coronavírus, uma mulher-solidão-pandemia. Se antes, olhos aguçados e movimentos rápidos, hoje, olhos cada vez mais arregalados, de onde escoam lágrimas invisíveis e permanentes diante da dor dos que têm menos do que eu ou diante da maldade do ser humano ou frente à insensatez dos jovens. Estes esvaem-se em escandalosas festas. Levam o vírus para pais, tios e avós.


Volto à capacidade do homem de inventar, reinventar e se reinventar. O que dizer das peças publicitárias, algumas das quais sagazes e inteligentes com o intuito de esclarecer dúvidas e informar? O reconhecimento aos profissionais da área de saúde em geral, incluindo enfermeiros, técnicos de enfermagem, cuidadores, também me dá conforto, sobretudo, quando a eles, agrego outros trabalhadores essenciais ao cotidiano, em especial, neste momento. Falo dos entregadores (delivery); carteiros; bombeiros; técnicos de manutenção de serviços públicos e privados; servidores funerários; porteiros; diaristas; motoristas de plantão; coletores de lixo, etc. Em tempos de paz, são eles covardemente esquecidos!


A transcrição literal dos sentimentos vivenciados por uma jovem italiana me mostra quão semelhante é o ser humano na alegria e na dor. Poderia ser ela indiana, neozelandesa, brasileira, francesa, birmanesa:

 

Existem situações na vida que não se esperam, e o pior, diante delas, nos vemos impotentes. Moro em Como [comuna italiana da região da Lombardia, capital da província de Como, importante centro industrial próximo a Milão e famosa por sua antiga manufatura de seda], na zona onde o coronavírus chegou sem ninguém esperar... Corrijo, sem ninguém acreditar, pois esperar, com tantos chineses que passam pelo norte da Itália, esperávamos sim!

 

Escolas fechadas, academias fechadas, bares fechados depois das 18h. e tantos indivíduos saindo de casa somente para o estritamente necessário. É uma situação estranha que nos leva a reavaliar algumas coisas. Nessa hora, ter um carro lindo, uma bolsa cara, roupas maravilhosas, serve para quê? Não teríamos nem como usar ou a quem mostrar.

 

A única coisa que passa a importar e que pedimos a Deus é saúde. Para nós mesmos e para [nossos entes] queridos. Na verdade, como gastamos tempo em correr atrás ou pedir a Deus coisas que não nos servem para nada, tantas vezes! Como somos fúteis na maior parte do tempo! Como não valorizamos o que realmente vale a pena!

 

Estamos em casa. Inventamos jogos. Almoços e jantares tornam-se longos e cheios de conversa entre nós. Rimos e choramos juntos do problema e cuidamos um do outro. Ninguém tem para onde ir ou coisas para fazer. A falta de tempo acabou! Fechados em casa e “presos” por causa do tal Senhor Coronavírus, que nos faz um grande favor, apesar de tudo! Livra-nos da arrogância, porque vemos que não somos nada e nem temos controle de nada. Livra-nos da cobiça, pois entendemos que não serve para nada. Mostra-nos nossa vulnerabilidade e, então, mostra-nos o caminho de volta a Deus.

 

Por fim, nos faz perceber nossa “prisão” individual do dia a dia, pela tal falta de tempo e por termos que conter nossos sentimentos. E nos liberta. Deixa-nos livres para termos medo, para nos sentirmos impotentes, para não corrermos atrás de nada... Afinal, o único trabalho que temos ou a única lição de casa é a de tentarmos não adoecer... E por último, e talvez o mais importante, nos faz reencontrar nossos amados. Aqueles com quem vivemos na mesma casa, amamos, mas muitas vezes nem nos falamos direito: nossa família.

 

E por fim, nos faz voltar a Deus. Afinal, diante dessa nossa vulnerabilidade, é Ele e somente Ele que pode nos proteger... No balanço geral, o Senhor Coronavírus pode até nos matar, no fim de tudo, mas certamente nos ensina a viver!!! (BBC News Brasil, 2020). 

 

E acrescento: prossigo a pensar nas consequências do coronavírus, nos enfermos, nos que já encantaram, nas lacunas eternas que deixaram, mas sigo, aqui e agora, não importa, recoberta por extrema solidão. No lugar de números e percentuais estatísticos, falo de sensações e anseios. De amor e desamor. De alegrias e tristezas. Da ponderação sobre nossa vida como ser humano, com todas as inquietações em torno de ser gente, no sentido pleno e divino do termo. Se o coronavírus revela nossas fragilidades, anseio que possa manter a esperança e o amor no coração! Mas, como, assumidamente, sou um ser humano que prefere o sim ou o não, e odeia, com todas as forças, o quase ou o talvez, a falta de perspectivas me entristece. Refiro-me ao fato de que, diante dos impactos trazidos pelo vírus, não sabemos quando ele partirá, não importam as previsões sem previsão que se espalham por aí. Desconhecemos, com segurança, as formas para sua cura rápida ou seu fim. As vacinas aí estão cercadas de questionamentos, esperança e devaneios.
Mas, cedo, muito cedo, aprendi que nada é para sempre. Em oposição, tudo pode ser de verdade e, no caso da Covid-19, uma verdade cinza ou incolor, triste e trágica por tantas vidas ceifadas e famílias desfeitas. Mas ela partirá! E, tal como a mulher da epígrafe inicial deste texto, não terei / não teremos medo de começar tudo de novo.

 

 

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