Os miseráveis ontem e hoje

 

Maria das Grašas TARGINO *

 

O filme “Os miseráveis”, ano 2012, traz de volta nossa adolescência, quando autores clássicos, a exemplo do ensaísta e dramaturgo francês Victor-Marie Hugo ou, simplesmente, Victor Hugo, faziam parte dos escritores a serem lidos. “Os miseráveis”, ano de 1862, é uma obra que nunca esqueci. Não necessariamente por constar da listagem de publicações que se eternizam na literatura, mas, sim, por trazer à tona a essência do ser humano. Coerente com a atuação do autor como ativista dos direitos humanos em uma França movida pelos ideais revolucionários, século XIX, o filme revela a injustiça e a fragilidade do ser humano.

 

Depois de mais ou menos uma dezena de adaptações tanto para o cinema como para a televisão mundo afora, somente em 1985, estreia como musical em Londres. Daí, segue para a Broadway (Nova York). Retorna, agora, como longa-metragem. Com todos os diálogos “cantarolados”, o que desagrada à parcela significativa dos espectadores, gerando críticas sarcásticas (mas dignas de respeito), "Les misérables” se centra na história de Jean Valjean, protagonizado por Hugh Jackman. Preso por longos 19 anos pelo roubo de um pão para alimentar sua irmã mais nova, como presidiário perde identidade e dignidade, sob um número qualquer. Não é nada. É apenas o número 24601. Como ex-presidiário, enfrenta a maldição que os acompanha, inclusive na atualidade e na realidade local. Isto é, o que parece, à primeira vista, não manter relação com a realidade atual brasileira, comprova ser cópia fiel do que se passa, em pleno século XXI, ano 2013. Referência à denúncia feita pela grande imprensa, Rede Globo de Televisão, Programa Fantástico, domingo 10 de fevereiro, com base em censo sobre os manicômios judiciários, resultante de solicitação do Ministério da Justiça. Os dados são aterrorizantes. Em 2011, em nosso país, 3.989 pessoas estão trancafiadas nesses manicômios, com o agravante de que, dentre elas, 741 já deveriam ter sido libertadas, o que corresponde ao elevado índice de uma vítima da lentidão da Justiça em cada quatro encarcerados.

 

A quem parece ser a obra de Victor Hugo ultrapassada, acrescento que o Brasil tem seu próprio Valjean: Nelson Leopoldo Filho. Quando moço, tentou roubar comida numa residência qualquer. Pego em flagrante, mesmo sem conseguir seu intento, ficou preso por 53 anos, não importa se a legislação brasileira prescreve que ninguém – nem o mais temível assassino ou estuprador – pode ficar mais de 30 anos aprisionado. Jogado num manicômio por ser considerado doente mental, hoje, 77 anos, Nelson vive em asilo, onde a liberdade lhe permite ir e vir, mas não recuperar os anos de vida perdidos. No caso de Jean Valjean, paradoxalmente, ele foi mais feliz.

 

Como única solução para fugir da implacável perseguição do policial Javert (Russell Crowe), conseguiu mudar de identidade e seguir seu rumo. Mais adiante, apesar de bem-sucedido, seu sonho de enterrar o passado não dura muito. Descoberto pelo inclemente Javert, foge de novo. Dessa vez, leva consigo Cosette (Amanda Seyfred), a filhinha de uma ex-operária de sua indústria (Fantine, vivida brilhantemente por Anne Hathaway), com quem se sente em débito por sua omissão quando é ela injustiçada e posta fora do trabalho, deixando à míngua a filha, criada, até então, sob encargo de um casal de malandros.

 

De fato, “Os miseráveis” possui trechos de infinda beleza, como o momento em que os jovens cantam e decantam os interesses pessoais em contraposição aos interesses coletivos em torno de duas palavras – negro e vermelho. A bondade do pobre Valjean também é patente em diferentes momentos, incluindo o gesto de evitar que um inocente vá para a prisão em seu lugar; a liberação de seu algoz; o sentimento paternal que nutre pela pequena Cosette, que se transforma em adolescente disposta a viver uma bela história de amor. Há trechos de infinda feiúra, quando a maldade do homem ocupa papel central. O filme faz jus, sim, ao sucesso de bilheteria no teatro, uma vez que o espetáculo foi assistido por mais de 60 milhões de pessoas espalhadas em cerca de 40 países e nos mais diferentes idiomas. Não é à toa que o longa-metragem dirigido por Tom Hooper (ganhador do Oscar por “O discurso do rei”), produzido por Working Title / Cameron Mackintosh e com roteiro de William Nicholson, recebeu oito indicações ao Oscar, além da conquista já consagrada do Globo de Ouro como melhor filme.

 

Sem enaltecer ou desmerecer o gênero musical, que se impõe com clássicos, como “Cantando na chuva” (Gene Kelly no papel central) e “Cabaret” (vez de Liza Minelli), o filme sensibiliza pelo encontro fantástico entre os miseráveis do século XIX e século XXI, onde quer que estejam, França ou Brasil. É a evidência da fragilidade do ser humano ao longo dos tempos... São personagens que se eternizam por denunciarem situações universais...

 

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

 

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