A MORTE DE MINHA MÃE

A MORTE DA MÃE DE FLÁVIO DE CARVALHO

A MORTE DA MÃE DE JAMES JOYCE

 

W. J. Solha

 

Ao folhear um livro de Arte, no minuto antes de começar este texto (com que nem sonhava) dei com algumas reproduções da Série Trágica, desenhos com que Flávio de Carvalho registrou a extremamente dolorosa agonia de sua mãe com câncer. Isso me remeteu a um diálogo, logo no início do Ulisses de Joyce, em que o personagem Buck Mulligan lembra o fato de que a mãe do amigo Stephen Dedalus pedira no leito de morte, ao filho sem fé, que se ajoelhasse e fizesse uma oração, no que não foi atendida. E a morte dessas duas senhoras me levou à memória do fim de Dona Ermelinda Emílio Branco Solha.

 

A cena do Ulisses é autobiográfica. Joyce – apesar de sofrer ao assistir ao falecimento de Mary Jane Murray, vítima de câncer, não se ajoelhou e rezou contrito de suas apostasias, como ela implorava. Daí a bronca, na tradução de Houaiss:

 

- Você podia ter-se ajoelhado, que diabo, Kinch, quando sua mãe lhe pediu isso moribunda - Buck Mulligan dizia. - Sou tão hiperbóreo quanto você. Mas imaginar sua mãe suplicando-lhe no seu último alento que você se ajoelhasse e rezasse por ela. E você recusar. Há alguma coisa de sinistro em você...

 

Flávio de Carvalho foi mais chocante. Pra quem não sabe ou não se lembra, ele foi um dos grandes nomes do movimento modernista brasileiro. São dele o retrato do poeta cubano Nicolas Guillén e o projeto desta vila paulistana:

Agitador, irreverente, trabalhava só de short na empresa de construção civil de Ramos de Azevedo, em plenos anos 20, o que provocou um abaixo-assinado dos proprietários e usuários de outras salas do edifício, exigindo que a firma o botasse pra fora. A reação foi terrível:

 

- Só me tiram daqui a bala. Mas vai ser difícil, pois vou instalar uma metralhadora no ateliê.

 

Blefava?

 

Anúncio no dia seguinte, no Diário Popular:

"COMPRA-SE UMA METRALHADORA. TRATAR COM FLÁVIO DE CARVALHO NO INSTITUTO DE ENGENHARIA".

Com formação européia, era revoltado com o formalismo brasileiro, o que incluía roupas masculinas insuportavelmente quentes no clima tropical. Advogou, por isso, o bom-senso das saias e blusas femininas, e saiu à rua:

 

Mas a irritação popular chegou também à elite, quando – em 47 – ante os estertores da mãe cancerosa – Ophélia Crissiúma de Carvalho –, pegou papel e caneta, partindo para o registro desse sofrimento, registro que transferiu para desenhos a carvão, que expôs no recém-inaugurado Museu de Arte de São Paulo – MASP - com o título Série Trágica – Minha Mãe Morrendo.

Stephen Dedalus, no Ulisses:

 

Leito de morte de minha mãe. Vela. O espelho coberto com lençol. Quem me trouxe ao mundo jaz ali, com pálpebras de bronze, sob algumas flores baratas. Liliata rutilantium. Eu chorei sozinho.

A arte importa porque é vida. A vida importa porque é arte. Li o Ulisses quatro vezes, todas antes da morte de minha mãe, com câncer como a de Flávio de Carvalho, com câncer como a de Joyce, e o lance do irlandês me veio à memória quando vi a católica D. Linda – no fim - curiosamente enfurecer-se ( não comigo, que já publicara o iconoclasta A Verdadeira Estória de Jesus, que meu pai lera, ela não) mas com meu mano, porque se tornara Mórmon. A vida imitou a arte, que imitou a vida... pra ele, deixando-me como espectador... pra escrever este artigo.

 

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