Gaza: somos todos responsáveis. Por Léa Maria aarão Reis.

John Lenon e eu. Por Carlos Alberto Jales.

Herói, eu? Por Carlos Alberto Jales.

Esperança do jornalismo a favor do cidadão: não à mercantilização da mídia. Por Maria das Graças Targino.

O mercado que escraviza a cultura. Por Celso Japiassu.

A curiosidade do público sobre o pormenor artístico e o sexo dos bares. Por Paulo Maldonado.

Velhice: só a ironia conforta. Por Paulo Maldonado.

Reminiscências euclideanas. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Singela historinha de Natal. Por Moacir Japiassu.

Duas crônicas de Affonso Romano de Sant'Anna.

A crônica entre a filosofia e a graça. Por Jean Pierre Chauvin.

O Silêncio dos Amantes. Resenha de Maria das Graças Targino.

Um olhar feminino sobre a vida e sobre o mundo. Por Celso Japiassu.

A casa, a luz e os ventos. Por Silva Costa.

A minha menina má. Por Nei Leandro de Castro.

Memórias do nosso tempo: Lembrança de Silvinha.

Deixa o mago trabalhar. Por Carlos Alberto Jales.

O envelhecer, a solidão e o cansaço. Por Maria das Graças Targino.

Cheio de prosa. Por Nei Leandro de Cstro.

Quase triste. Quase feliz. Por Maria das Graças Targino.

Eu, o centro-avante Ademir e a derrota do Brasil em 1950.

Um jogo de futebol inesquecível.

O galo da Rua do Sol. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Duas crônicas de Affonso Romano de Sant'Anna.

Memórias do nosso tempo: um depoimento sobre Marcos Lins. Por Clemente Rosas Ribeiro.

O século sombrio. Por Léa Maria Aarão Reis.

Elogio à Loucura. Por Maria das Graças Targino.

Celso Furtado e a história da SUDENE. Por Clemente Rosas.

Em defesa de Camila. Por Maria das Graças Targino.

Historias de amor no cinema feito para o Natal. Por Maria das Graças Targino.

Homenagem a Celso Furtado. Por Clemente Rosas.

Roberto & Lily, histórias de amor. Por Maria das Graças Targino.

Jornalismo e meio ambiente. Por Maria das Graças Targino.

Sexo: Criatividade demais estraga. Por Daniel Japiassu

Michel Moore, o documentário e a tragédia da vida. Por Léa Maria Aarão Reis.

A eternidade dos amores fugazes. Por Maria das Graças Targino.

Israel x Palestina. Uma discussão sobre o racismo. Por Léa Maria Aarão Reis.

Os traços da perversidade humana, por Graça Targino.

Quem foi Gláucio Gill, por Helio Bloch.

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Arte e Embuste

 

Arte da hora, por Hélio Jesuino.

Uma crônica de Affonso Romano de Sant'Anna dá início a um debate sobre arte e embuste.

Almandrade entra no debate e em dois artigos fala sobre a irrealidade da arte contemporânea e o descaso pela arte.

Os mecanismos de marketing da arte contemporânea. Celso Japiassu.

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O encontro de Madame Satã com o bordel das normalistas.

Daniel Japiassu entrevistou o embaixador dos havanas.

A paz no mundo, segundo Claudio Sendin.

Anotações sobre a cidade de Salvador. Almandrade.

A versão light da alma feminina. Carla Rodrigues.

Comida sob medida para neuróticos, por Carla Rodrigues.

A bicicleta que derruba, por Silva Costa.

Dois textos sobre a cidade, por Almandrade.

Luciana Souza, uma brasileira no jazz. José Nêumanne.

A mais antiga pergunta: você acredita em Deus? Por Claudio Sendin.

Um poema de Brecht e uma carta de Evandro Lins e Silva.

A publicidade selvagem contra o correio eletrônico, por Stéphane Foucart.

O discurso de Fidel Castro no aniversário da Revolução Cubana.

Conversa de botequim via telefone celular, por Caio Mourão.

O que faz uma mulher mudar a vida, por Carmen S. Martinzez.

A crise econômica é uma crise de papel. Ensaio de Leopoldo Camara.

Arrumando a casa, Silva Costa se rende à nostalgia da memória.

Relato de uma viagem ao inferno.

Nós que matamos Tim Lopes. Affonso Romano de Sant'Anna._

Um projeto para reformar a política no Brasil, por M. Peri.

Elogio aos gatos. Celso Japiassu.

Suas senhas e nossos bandidos, por Daniel Japiassu.

Juventino na malhação, por Jorge Ferenando dos Santos.

Porque Romário não vai à Copa. Caio Mourão.

Larguem o W do homem! Por Marcia Lobo.

Uma crônica de Jorge Fernando dos Santos - Uma lição de vida.

A nova tecnologia e a velha crise social. Daniel Japiassu.

Sergio Cavalcanti diz porque a internet faz mal e declara o seu amor por ela.

Sísifo pelo avesso, Fênix e os velhotes de Havana, por Léa Maria Aarão Reis

Depoimento de um campeão do futebol de botão, por Anibal Beça.

Affonso Romano de Santana conta o amor de um mineiro pelo mar.

Novo livro de Lea Maria Aarão Reis: a mulher na idade madura.

Dois Textos de Affonso Romano de Sant'Anna sobre o horror de setembro.

Guerra à guerra.
Por Daniel Aarão Reis.

O fim do mundo, segundo São Malaquias. Por Mario Jorge Dourado.

Mario Castelar estréia no site e escreve sobre a magia dos átomos e dos índios.

Caio Mourão e a tia que viajou num
disco voador.

Um adeus a Eduardo Haddad Filho, por Carlos Alberto Teixeira, em O Globo.

Léa Maria Aarão Reis escreve sobre
o que há de bom acontecendo.

A Crise dos Papeleiros

Leopoldo Camara

 

Leopoldo trabalhou em quase todas as áreas da Comunicação Social em jornais, revistas, rádios, televisões, agências de propaganda, assessorias de imprensa e produtoras de comerciais. Durante oito anos também lecionou, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Escreveu três romances: "João Apocalipse", "Como num passe de mágica" e "Apocalipse II", este último inédito. Trata-se de ficção econômica, um romance "if" desenvolvendo a hipótese sobre o que teria acontecido ao Brasil e ao mundo se um presidente, conhecido pelo povo apenas como João, tivesse colocado em marcha um processo para restaurar a verdadeira economia, desestabilizando o atual modelo baseado num dólar sem fundos, que lastreia um mar de papéis especulativos que estão levando o mundo à garra.
Evidentemente, nenhuma editora ousou publicar, mas o autor fez uma pequena edição particular.
Cansado desta vida de comunicação, o autor prepara-se para realizar agora seu grande sonho: ser dono de botequim, um bar chamado Rabo de Galo, em Fortaleza, Ceará.

 

 

Nunca o mundo foi tão rico, com novos produtos de alta tecnologia sendo lançados a cada dia. A agricultura atinge novas marcas e, teoricamente, não haveria mais fome no planeta. No entanto, estamos diante de uma crise que insiste em permanecer e se renova sempre na sua infinita e criativa capacidade de nos assustar.


A crise aí está, viajando na alta velocidade das modernas telecomunicações, de braço dado com seus parceiros preferidos: a fome e o desemprego.


Estamos atravessando um momento de grande perplexidade onde o esporte preferido da imprensa é adivinhar que país será a próxima bola da vez a sofrer - como eles dizem - "um forte ataque especulativo".


Mas quem ataca? A imprensa não sabe dizer, limita-se a repetir o que dizem seus informantes, sem maiores aprofundamentos. Perplexos também estão os senadores da CPI do Sistema Financeiro, que, diante das complexas manobras das mesas de operação dos bancos modernos, transmutam-se em insólitas contrafações de Hercule Poirot, perguntando onde a testemunha/réu estava a tantas horas do dia tal, na esperança quase infantil (apesar das idades) de pegar a vítima em contradição para, a partir daí, dar seu showzinho para o pequeno eleitorado que os acompanha pela TV Senado.
Profissionais do mercado de capitais também se assustam ao perceberem que, mais uma vez, as bolsas estão despencando, que o prejuízo do dia é inevitável e sempre se consolam dizendo "pior que hoje é impossível".


Vê-se um esforço de todos na tentativa de explicar a crise, mas se enrolam, confundem alhos com bugalhos, como se dizia antigamente, e falam, indiscriminadamente, em riqueza e dinheiro, como se fossem a mesma coisa.


No entanto, para se entender esse momento é fundamental perceber a profunda diferença de significados, pois nela está a explicação da crise:

 

EXISTE DINHEIRO DEMAIS PARA RIQUEZA DE MENOS.

A capacidade do mundo de produzir riquezas é imensa, mas não consegue superar a habilidade do homem em produzir dinheiro. E essa é a essência do aperto que estamos passando.
Vamos tentar explicar isso começando pelo fim, pelos chamados investidores do capital especulativo, esses que entram e saem dos países, sem qualquer cerimônia, sem sequer pagar o Imposto de Renda, como descobriu-se só agora no Brasil, provocando crises nas bolsas, no câmbio e nas reservas monetárias e, principalmente, na verdadeira economia da cada país.


Qual é o tamanho desse capital? Não se sabe ao certo mas é enorme. Estima-se que ele esteja oscilando entre 13 e 17 trilhões de dólares. Alguém muito inspirado chamou este fenômeno de nuvem, pois não tem forma definida, desloca-se constantemente ao sabor dos ventos da especulação e é difícil de determinar o ponto exato onde ela se originou. Antigamente, classificávamos o mundo dividido entre nações ricas e nações pobres, com alguns intermediários nesta história. Houve, no século passado, a solidez da libra lastreada em ouro do reinado de Victoria e em 1945/46 surgiu o dólar, garantido pela mirífica visão das inesgotáveis reservas de ouro estocadas em Fort Knox.


Contos de fadas. Se existir uma reserva de ouro em Knox, será apenas um truque de cenografia, muito bem montado com acrílicos mais polidos e brilhantes que o próprio ouro. Este ouro todo já foi sacado pelos governos europeus, liderados pela França de De Gaulle, quando, saídos da guerra e já reconstruídos, descobriram que tinham em seus cofres uma avalanche de moeda escriturada e de papel moeda em US$, ironicamente, a moeda que ajudara a Europa a se levantar e que agora a sufocava através da compra indiscriminada de suas riquezas industriais, por meio de um cheque, aparentemente de boa qualidade mas, na verdade, quase sem fundos.


Ainda não era um cheque sem fundos total, como franceses e alemães logo perceberam, já que o dólar ainda era lastreado em ouro, na cotação de US$ 35 a onça troy uma coisa bem abaixo da cotação atual (a onça troy hoje vale dez vezes este valor).


De posse de seus títulos em papel americano, os governos europeus trataram de transferir o ouro equivalente para suas contas, num movimento tão alucinado e acelerado que, primeiramente, o governo americano tratou de reavaliar a paridade, reajustando-a para US$ 160 a onça. Não adiantou, os saques em ouro continuaram e o governo americano, numa crise parecida com esta de agora, desvinculou o dólar do ouro e o papel passou a flutuar desde então ao sabor do mercado.
Foi a segunda falha do sistema financeiro mundial.


A primeira falha teve origem em 1944, na conferência de Bretton Woods, quando as potências vitoriosas se reuniram para traçar os rumos da economia mundial do pós-guerra. John Maynard Keynes, o representante da Inglaterra e um dos mais brilhantes pensadores da economia, propôs que a partir de então, as transações econômico-financeiras fossem regidas por uma moeda escriturada, o bancor, que seria monitorada por um banco central mundial que manteria vigilância permanente sobre as trocas internacionais, lançando alertas vermelhos toda a vez que aflorasse um desequilíbrio, não importava se positivo ou negativo. O superávit exagerado seria tão punido quanto o déficit incontrolável e haveriam mecanismos de socorro para o reajuste das economias.


A proposta de Keynes foi brilhantemente aprovada... Em parte.
Em vez de um banco central que controlasse planetariamente a economia, criaram o FMI, Fundo Monetário Internacional, uma entidade sem muita força, cujo fundo de caixa foi proporcionado por todos os países membros, depositando uma parte em ouro e o restante em sua própria moeda nacional. Não aprovaram a moeda escritural. abrindo lugar para que o dólar assumisse rapidamente este papel. Nada mais justo, afinal os Estados Unidos eram credores de todos os países vitoriosos na guerra da Europa e eram credores até da reconstrução da Alemanha, financiada pelo Plano Marshall.


Além disso, os Estados Unidos tinham amargado séculos de país do terceiro mundo, dominado pela matriz inglesa. Agora, com uma Inglaterra combalida - para não dizer falida - era vez da moeda americana substituir a libra como balizadora das trocas internacionais.


E assim se deu.


Com todas as cagadas que estamos vendo agora.

* * *

Durante todos os anos 50, o turista americano foi o visitante dos sonhos de qualquer país em reconstrução. O casalzinho do Arkansas, passava no banco da esquina, sacava parte de suas economias em dólar e se mandava para a Europa.


Em função de sua cultura arraigada, o casal, com seu trajes facilmente reconhecíveis à distância, não entendia muito bem o velho mundo, com suas casas arcaicas e muitas ruínas, vistas a partir das confortáveis poltronas dos ônibus de citytour, mas se maravilhava com a gentileza do povo, sempre disposto a fazer favores, em troca de uns poucos níqueis.


E aí surgiram filmes maravilhosos: An American in Paris, Sabrina, Tree Coins in The Fountain, O Candelabro Italiano, Rossano Brazzi, etc, etc, etc.


Saco!


Cansei de ver aquela história, onde um americano chega no interior da França e uma garotinha, a mais gostosa do pedaço, começa a falar em inglês, porque ela tinha um tio, que gostava muito da América e a ensinou a falar a nova língua, durante a pérfida ocupação alemã.


Senão, como é que o caso ia rolar até a cama sem legendas?

 

* * *

E tome dinheiro, tome papel, invadindo a economia e se tornando cada vez mais indesejável.


O Balanço de Pagamentos americano vinha sendo deficitário desde 1951e aqui devo chamar a atenção para que não confundam Balanço de Pagamentos com Balança Comercial. O déficit do Balanço de Pagamentos representava o total de moeda emitida para cobrir principalmente, os investimentos de longo prazo das empresas americanas no exterior. Em outras palavras, o governo americano emitia dólares sem qualquer lastro para a compra de riquezas reais (indústrias e similares) no velho mundo e no Oriente. O segundo componente do déficit eram as crescentes despesas militares que respaldavam o papel dos Estados Unidos como o defensor muito bem armado do mundo livre. Finalmente, numa escala menor, mas bastante significativa, vinha o déficit provocado pela conta turismo do cidadão comum americano.


O Balanço de Pagamentos americano só foi superavitário em 1968/69, durante o governo Nixon, o que também é simbólico e bastante inquietante, já que a melhor gestão econômica dos Estados Unidos no pós guerra foi defenestrada pelos honestos cidadãos da classe média, porque o presidente era um mentiroso e um espião de campanhas eleitorais do partido adversário.


Coincidentemente, a segunda melhor gestão econômica da moderna história americana pertence a um presidente que correu o risco de perder o mandato num longo processo jurídico-parlamentar porque é um mentiroso e tem uma preferência por práticas de sexo oral com indefesas estagiárias.


Mas voltando aos anos 60/70, a moeda americana sofreu uma forte pressão especulativa, talvez mais violenta do que as que presenciamos há pouco tempo no Sudeste Asiático, que depois passou pela Russia, chegou ao Brasil e agora ameaça a Argentina. Naquele tempo, a pressão especulativa contra o dólar não era feita por anônimos investidores. Na sua liderança estava Charles De Gaulle, que não era um investidor oportunista como os de hoje. Ele era apenas um grande estadista que se indignava com a facilidade de um país em imprimir papel para comprar riquezas.


Mas nessa época, a Balança Comercial, aquela que regula as trocas de produtos e serviços entre os países, apontava um superávit em favor dos Estados Unidos.


E isso durou até 1971.


A partir de então, foi um despencar pela ribanceira. A administração Jimmy Carter (1977/80) quase conseguiu implantar a inflação galopante no país, que ameaçou até a hegemonia do "quarter" como moeda capaz de comprar qualquer coisa nas máquinas automáticas. Reagan (1981/88) levantou a moral do povo americano, afastou a ameaça da inflação, empurrando-a para baixo do tapete com o artifício de lançar títulos da dívida do governo americano, uma coisa que, anos depois, seria copiada pelo governo brasileiro
Com Reagan, os Estados Unidos deixaram de emitir mais dólares sem lastro, pois seria escandaloso. Passaram a vender papéis.
Os resultados financeiros do país eram desastrosos. O déficit entre as despesas do governo e a arrecadação de impostos passou a girar na casa dos 200 bilhões/ano. A Balança Comercial, outros 200 bi negativos e mais uns déficits da Balança de Pagamentos, com despesas militares, somando mais 80 bi.


Nesses 17 anos, os Estados Unidos emitiram cerca de 5 trilhões de dólares(*) em papéis da dívida interna. Esses papéis, que na verdade significam a incapacidade de um país em pagar suas contas até do armazém, estão na mão dos investidores da nuvem e são encarados como riqueza sólida, tão sólida e segura que remunera o investimento com pouco mais de 5 por cento ao ano.


Esta é a reserva técnica. O restante, que pode ser 8 ou 12 trilhões, e eu aposto mais na segunda hipótese, precisa ser remunerado à altura dos méritos de quem acumulou tanto dinheiro.


(*) atualizando este valor para julho de 2002, a dívida interna americana já chegou a 6 trilhões, 111 bilhões de dólares e cresce na velocidade de 25 mil dólares por segundo.

Mas como surgiu este dinheiro?

É um processo constante e coerente. Na primeira hora, foram os euro-dólares, resultantes do soerguimento da economia européia e da enxurrada de papel americano que entrou trazido pelos bolsos dos turistas e através das grandes aquisições corporativas. As bases militares da OTAN também cumpriram seu papel de distribuir generosamente dólares para todos os tipos de cofres da Europa, incluindo ai os porquinhos de barro da irmã caçula e chata da namorada gostosa do soldado de Tio Sam, aquela que acompanhava a ida do casal ao cinema.

Como resultado desta primeira acumulação indesejada, tivemos as já citadas pressões especulativas contra a moeda americana, lideradas pelo governo francês.

Um segundo movimento da economia mundial que contribuiu para a crise atual se inicia com a guerra de 1973 entre Israel e seus vizinhos. Naquele momento, os países produtores de petróleo, quase todos árabes, estavam reunidos numa associação de classe, a OPEP. Como represália ao apoio que Estados Unidos e países da Europa ocidental estavam dando a Israel, a OPEP suspendeu inicialmente a entrega de petróleo para os países ocidentais, estabelecendo ao mesmo tempo um novo preço para o barril de petróleo, que se mantivera, até então, décadas e décadas, por volta dos 3 dólares.


Em poucos meses, o barril de petróleo já era cotado a 30 dólares no mercado spot de Amsterdam, uma espécie de bolsa de futuros, mais uma vez o papel substituindo a riqueza.
O choque desta operação na economia mundial foi muito maior do que o percebido. Ele está na base de toda a desestabilização financeira atual.

Toda a economia mundial girava no pressuposto de matérias primas baratas, uma vez que os países dominantes, os importadores de tais produtos, vinham impondo o preço aos exportadores, países do e pra lá do terceiro mundo.

Tomemos como exemplo o automóvel, a grande vedete da civilização industrial do pós-guerra. Basicamente, um carro se faz com tecnologia (know-how); aço derivado do minério de ferro; borracha, hoje mais derivada do petróleo do que da seringueira e combustível, basicamente, até então, extraído do petróleo.
De todos os componentes, o único existente com fartura no chamado primeiro mundo era o conhecimento tecnológico. Os demais eram buscados no terceiro mundo a preço vil. Uma tonelada de ferro, que movimenta as siderúrgicas e a indústria automotiva, custa hoje a metade de um almoço numa churrascaria paulista. Os Estados Unidos sempre foram grandes produtores de petróleo, mas em função do preço de banana praticado no exterior, fecharam grande parte de seus poços, mantendo-os como reserva técnica estratégica.

Mas vamos ao mais importante: a economia mundial passou a viver com um de seus componentes de preço custando dez vezes mais. Como em economia não existem milagres, pois trata-se de um sistema de vasos comunicantes, o que começou a ser cobrado a mais aqui, iria faltar, inevitavelmente, mais adiante.

Como aconteceu.

* * *

Comecemos analisando o impacto desta reviravolta nos países exportadores. Países árabes, com estrutura de poder familiar, feudal, que já viviam bem com 3 dólares o barril, de uma hora para outra, se viram atolados por uma enxurrada de dinheiro.


O que fazer com ele?


Foi uma loucura. Na primeira hora, compraram Rolls Royces folheados a ouro, fecharam o Harrod's de Londres, uma das maiores lojas de departamentos do mundo, por um domingo inteiro, com todos os empregados a postos, para que a família de um príncipe árabe pudesse comprar com calma tudo o que quisesse.


No segundo estágio, mais sofisticado, pensaram em comprar todas as empresas do mundo. Começaram a fazer isso, mas a empresa ocidental era muito complicada para a cabeça anárquica dos monarcas árabes. Chegaram a comprar algumas coisas, patrocinaram a Williams, escuderia da Fórmula 1 e com isso eliminaram a tradicional champanhe comemorativa da vitória no pódium, por motivos islâmicos.


Comemoravam com refrigerante.


Saco!


Indisciplinados como eram, os árabes chegaram à conclusão que empresas ocidentais eram muito chatas, que seus ganhos eram muito pequenos, comparados com o girar da manivela dos poços e desistiram de controlar economicamente todo o mundo.
Resolveram então aplicar as sobras desse dinheirão, numa caderneta de poupança.

 

* * *

 

Analisemos agora a posição das casas bancárias, diante deste novo fato.


Os banqueiros, há muito tempo, já estavam acostumados à difícil rotina de captar dinheiro que era posteriormente aplicado em bons negócios para o banco, principalmente.


De uma hora para outra, as portas das casas bancárias foram arrombadas por uma avalancha de dinheiro, que desejava ser remunerado... E bem!


Somas de tal grandeza punham em risco a estabilidade do próprio sistema bancário. Um bilhão de dólares, aplicados à menor tacha, representavam um custo diário para o banco de US 1 milhão e 600. Só a partir desse ganho é que o banco teria que procurar sua remuneração.

 

* * *

 

Na outra ponta do processo, estavam os países - ricos ou pobres, não importava - que precisavam comprar o petróleo pelos novos preços e, é claro, não tinham bala para isso. Mas aí, pela primeira vez, estes países se depararam com bancos para lá de amistosos, oferecendo exatamente o que eles mais precisavam:

 

Dinheiro a custo barato para comprar gasolina.

 

A coisa foi tão alucinante que o ministro da economia do Brasil na época, Delfim Neto, chegou a autorizar o aumento dos juros no Brasil para forçar os empresários e governos estaduais e municipais a ir buscar o dinheiro lá fora. Os dólares que entravam desta maneira ficavam na porteira do Delfim, que repassava para os tomadores o equivalente em cruzeiros da época.


Este processo ia muito bem, até que os bancos começaram a se assustar, por volta de 1982, com os fortes índices de inadimplência dos tomadores e fecharam a torneira do dinheiro fácil.


E aí chegamos à crise dos anos 80.


No Brasil começamos a falar em dívida externa, FMI, alta de juros, aumento do custo dos serviços, aumento dos impostos, redução dos salários, desemprego, inflação, inflação, INFLAÇÃO...


Em dezembro de 82, o Brasil baixou à UTI, com sua saúde econômica bastante abalada.


E nós, brasileiros, perdemos um pouco mais de dez anos de nossas vidas apenas por conviver com esta crise.


Crime!


Mais uma vez, crime dos papeleiros.



* * *

 

O tempo foi passando e as dívidas se transformaram em papéis que, até hoje, têm cotação no mercado.


É impressionante como uma clara evidência de falência se transformou em dinheiro que, a partir daí, é confundido com riqueza.


Esse dinheirão domina o mundo e é o único responsável criminal pela crise que estamos vivendo hoje.

 

* * *

Como os papeleiros servem ao dinheiro.

 

Ao papeleiro só interessa buscar a maior remuneração possível para o papel chamado dinheiro.


Os banqueiros, historicamente os primeiros papeleiros, já que inventaram o papel moeda, descobriram rapidamente que o dinheiro que não mais captavam, mas jorrava aos borbotões em suas mesas, não podia ser remunerado com empréstimos a terceiros por uma pequena taxa acima, o famoso spread.


E aí os bancos começaram a recrutar jovens brilhantes, na faixa dos 27 anos, recém saídos de mestrados e doutorados, para bolar fórmulas mágicas capazes de remunerar o criminoso papel.
A criatividade da juventude foi fundamental nesta brincadeira irresponsável que está nos fudendo agora.


O raciocínio é simples.


Qual é o mecanismo financeiro capaz de proporcionar grandes ganhos num curto espaço de tempo?


As bolsas de valores, é claro. E as de futuro, também!
A partir daí, começa a festa.


A compra e venda de ações pode proporcionar ocasionalmente grandes ganhos, ou grandes perdas, mas nada acima do um por cento, em períodos de estabilidade.


E um por cento era pouco. Aí, os garotinhos começaram a criar novos games mais fascinantes.

 

* * *

 

O primeiro deles, chama-se mercado futuro.


É um joguinho muito engraçado onde eu aposto que a ação que eu me comprometi a comprar daqui a trinta dias pelo valor de 1 dólar, estará valendo na época 1 dólar e 20. E aí eu ganho 20 centavos por ação.


Se ela estiver valendo 80 centavos, eu perco 20 e tenho que honrar o compromisso.


Volto a repetir: tenho que honrar o compromisso.

 

Mas na hora da compra, eu não pago nada e se meu palpite der certo, eu ganho uma fortuna aplicando nada.


É um jogo, não é?

 

* * *

 

O segundo joguinho chama-se mercado de opções e está intrinsecamente ligado ao primeiro. Eu compro, no mercado futuro, uma ação que pagarei um real daqui a 60 dias.


Na euforia das bolsas da primeira metade dos anos 90, em 30 dias a ação que eu me comprometi a comprar já está valendo 1 real e 50. Aí chega um interessado e me oferece 30 centavos pela opção de comprar aquela ação daqui a trinta dias.
Se eu vendo, eu ganho 30 centavos por ação sem ter desembolsado um níquel.


Imagine se eu tivesse comprado 1 milhão de ações, o que é normal neste mercado, eu teria na carteira 300 mil dólares.


Entenderam porque os garotinhos de 27 anos dirigem, no mínimo, um Audi?


Vamos adiante.


O segundo comprador da opção, aquele que desembolsou 30 centavos, ou seja 300 mil dólares, vê que ação em dois dias, pulou de R$ 1.50 para R$ 2.


Ai ele vende sua opção por 50 centavos.


Ou seja, em dois dias, ele aplicou 300 mil dólares e recebeu 500 mil!


Joguinho interessante, não?


Foi isso que aconteceu nestes últimos anos.


E iria continuar desde que as bolsas continuassem a crescer.
Só que elas começaram a cair.


* * *

 

E ai, como é que fica?
Fica uma grande cagada que o pobre cidadão não entende e acha que é em parte culpado.
Não é culpado. A culpa inteira deve ser debitada aos papeleiros!

 


* * *

 

Voltemos àquele cara que comprou a opção de compra das ações por 500 mil reais, já que elas valiam quase 2. Lembram-se: essas ações estavam para ser pagas no valor de 1 real, dentro de mais 30 dias.


Grande lucro!


Só que as bolsas caíram, depois de 10 anos de euforia e aquela ação que aparentemente valia 1 real, estava cotada agora a 60 centavos.


E o que fazer com um papel de opção de compra que foi pago a 500 mil reais?


Limpar o rabo?


* * *

Esse é o negócio. Enquanto as bolsas subiam qualquer jogo era aceitável. Agora que as bolsas caíram, cabe ao cidadão comum pagar a conta dos garotinhos de 27 anos com suas máquinas maravilhosas, tipo Ferrari Testa Rossa.

* * *

O presidente do Federal Reserve, Allen Greenspan, informou que os investidores americanos perderam cerca de 1 trilhão e meio de dólares com as oscilações da Bolsa desde outubro de 1999. O mundo inteiro, calculam outros, viram 3 trilhões e meio se evaporarem, o que eu acredito e faz com que a nuvem esteja menor. Segundo esses cálculos, ela varia agora entre 9.5 e 13.5 trilhões.


Ainda é muito dinheiro irresponsável... Criminoso.

 

***

 

Conclusão:

 

Nos últimos dias, os jornalistas do tipo papagaio começam a falar em nova arquitetura para o sistema financeiro mundial.

 

Quem acompanhou e acreditou no que aqui foi exposto já sabe porque o sistema financeiro mundial precisa de uma reforma radical.


Do jeito que está, estamos caminhando irremediavelmente para o apocalipse econômico.


A civilização já passou por isso pelo menos três vezes. Nas vésperas de 1914, a grande mobilização de mão de obra para ser bucha de canhão, resolveu o problema do desemprego, que era iminente. Depois, em 1929, a aparente exuberância da economia americana sofreu o refluxo de uma Europa que não se saíra bem da Primeira Grande Guerra e que estava sendo sustentada pelo aporte de capitais americanos. Mas aí a linha política caipira americana prevaleceu no Congresso e o dinheiro para a Europa foi cortado. Com isso, a Europa deixou de comprar aos americanos e o resto todos nós sabemos: a queda da Bolsa de Nova York, uma profunda recessão nos Estados Unidos, com advogados desempregados na fila da sopa, em Chicago e Nova York, enquanto no interior as colheitas apodreciam por falta de preço e de transportes.


Toda a crise do papel é muito burra!


Em 1929, não foi apenas o corte do fluxo de capitais para a Europa que provocou a crise. Os negócios em papel no mercado americano estavam chegando ao delírio. Imagine-se uma pequena estrada de ferro de 100 quilômetros. Era a única coisa real. Ai inventavam uma companhia holding para administrar a ferrovia e seus papéis eram vendidos na bolsa. Na seqüência, criavam uma nova holding que unificava a primeira holding citada com uma outra que controlava uma ferrovia mais adiante com 150 quilômetros de trilhos.


Aí, os papeleiros foram fazendo a holding da holding e todos os papéis eram lançados na bolsa, com excelente cotação e aceitação. Quando sentaram na realidade, descobriram que companhias de bilhões tinham como base física apenas duas estradinhas de ferro que somavam 250 quilômetros.


Não vou adiante. Quem quiser que leia e estarei aqui para indicar.


Quando os papeleiros de então dirigindo seus carrões Ford saíram de cena, constrangidos pela cagada provocada na economia, sem querer abriram espaço para um homem competente que começou aos poucos a reconstruir a América, partindo da verdade econômica. Roosevelt, com sua política do New Deal, atacou a região mais miserável dos Estados Unidos, o Vale do Tenessee.


Juntando tecnologia e planejamento, represas foram planejadas para, a partir dos afluentes, regular o fluxo do rio principal. Cada represa era uma fonte de empregos, cada represa era uma geradora de energia, cada nova vila operária era um centro de consumo, principalmente para aparelhos elétricos.


O que os papeleiros tinham destruído com sua ganância exacerbada, Roosevelt começou a reconstruir passo a passo, tratando de garantir emprego para o americano mais despreparado.


Temos que pensar nisso, já que estamos mergulhando numa situação muito parecida e não há sinal de vida inteligente no horizonte.

 

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