Karajan, um símbolo para sempre polêmico

 

La Maria Aaro Reis*

 

E se um estuprador, por exemplo, que grasna, late, ruge, bufa e urra de modo a envergonhar até alguns nobres bichos dos quais nada mais é que um pastiche deformado; e se esse deliquente tivesse sido agraciado com o lampejo do gênio da arte e fosse capaz de compor música celestial, de criar a mais fina literatura ou o mais fascinante filme de todos os tempos? Como seria julgado? Seria execrado, expulso do convívio humano e cassado como inimigo público dos semelhantes? Ou seria reconhecido como um dos mais profícuos artistas do seu tempo, perdoado e respeitado por causa do seu extraordinário talento?

 

Claro que o maestro Herbert von Karajan, nascido em Salzburgo, filho de uma rica família burguesa de gregos macedônios (Karajánnis), considerado um dos mais magníficos regentes da segunda metade do século passado, não era, nem por um absurdo, similar ao estuprador congressista. A relação entre um e outro personagem se dá, aqui, como exercício de imaginação e perplexidade.

 

Um dos primeiros pop stars globalizados, o regente alemão até hoje, 25 anos depois de sua morte, é venerado pelos melômanos. Entre as muitas celebrações da data, uma delas se destaca: o lançamento mundial, meses atrás, pela Deutsche Gramophone (no Brasil produzido com ótima qualidade pela Universal), do álbum duplo remasterizado, Classic Karajan que vem enriquecer a famosa The Essential Collection da DG. Constitui um dos grandes lançamentos de 2014 e é prioridade no catálogo da gravadora à qual ele pertenceu durante 50 anos.

 

Mas então qual o problema com Karajan? O maestro foi diretor artístico vitalício da Filarmônica de Berlim, diretor da Ópera de Paris, regente titular da Filarmônica de Viena e da Orquestra do Teatro Scala de Milão e da Staatskapelle dez anos depois de a Segunda Grande Guerra terminar. A mística de Karajan, cujo legado de gravações memoráveis é notável, contribuiu para alimentar o símbolo em que ele se tornou.

 

O problema é que Karajan foi nazista de carteirinha. Seu antecessor na Filarmônica de Berlim, Wilhelm Furtwängler, outro regente/mito do século vinte*, odiava-o e mais que isso: o desprezava. O austríaco pertenceu ao partido nazi de Salzburgo, onde se inscreveu em 1933, depois se apresentou como candidato a piloto da Luftwaffe no fim do conflito e era um protegido de Goering, seu incondicional admirador. Depois da derrota de Hitler Karajan foi marginalizado e só a partir da segunda metade dos anos 50 resgatou a carreira impressionante. Isaac Stern e Arthur Rubinstein foram dois dos muitos que se recusaram a tocar com ele. E só após sua morte, em 89, a Filarmônica de Berlim se apresentou em Tel-Aviv.

 

Amostra excepcional da qualidade do seu trabalho, a coletânea dupla de agora vem com um repertório impecável. São 32 peças, algumas delas pilares da tradição sinfônica - como a Primavera das Quatro estações, de Vivaldi -, o coro de Madame Butterfly e o Prelúdio da La Traviata, de Verdi, trechos de óperas como a ária Nessun Dorma, da Turandot, de Puccini, cantada por Plácido Domingo, inesquecível. Como abertura, a clássica Also sprach Zarathustra. A grande novidade é a primeira gravação, em CD, da legendária Ingemisco, do Requiém, de Verdi, interpretação de José Carreras, regência de Karajan em 67.

 

Há também uma lancinante interpretação do maestro do célebre Adagietto, da Sinfonia nº 5 de Mahler; o Allegro con brio, da Sinfonia nº 7 de Beethoven; a primeira cena do balé O lago dos cisnes, de Tchaikovsky; o Allegretto ma non troppo, do Concerto para violino de Mendelssohn, com Anne-Sophie Mutter como solista, e trechos sinfônicos de Cavalleria rusticana e A flauta mágica, de Mozart. E por aí vai: Strauss, Wagner (Cavalgada das walquírias), Pachelbel, Prokofiev, Mussorgsky, Mozart (Uma pequena noite de música). Um cardápio muito especial para 150 minutos de puro deleite.

 

No formidável legado deixado por Karajan há 300 discos registrados e mais de 200 milhões de cópias. E além da música, uma impressionante coleção de carros esporte Porsche, que ele adorava, hoje abrigada no museu da marca, em Stuttgart.

 

Curiosidade: tal era sua paixão por essas máquinas que o maestro/ícone certa vez declarou que a mais bela sinfonia, para o prazer dos seus ouvidos, era o ronco de um carro esporte de 12 cilindradas. Seria mais uma boutade de marketing – no qual Karajan era um especialista - de alguém que produziu sons que, acredita-se, são os celestiais? Vá saber.

 

*Belo e contundente filme do húngaro István Szabó, de 2001, baseado na peça inglesa Taking Sides, mostra os interrogatórios de um oficial americano, na Berlim ocupada pelos aliados, ao regente que permaneceu na Alemanha nazista, mesmo resistindo às políticas de Hitler - ao contrário de Karajan. No Brasil o filme se chamou O maestro, e foi lançado quase que em segredo.

 

 

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