IGNORAMUS OU IGNORABIMUS?


                                                                               Clemente Rosas


Por volta de 1874, o fisiologista Emil Du Bois Reymond, alemão de origem francesa, encerrou uma conferência sobre os limites do conhecimento da natureza afirmando: “Com relação aos enigmas do mundo dos corpos, os naturalistas se acostumaram, há muito tempo, a declarar com uma corajosa modéstia: ignoramus.  Mas em relação aos enigmas concernentes à natureza da força e da matéria, e à maneira como podem elas pensar, devem resignar-se uma vez por todas a uma confissão muito mais dura, exprimindo-se: ignorabimus (ignoraremos)”.   E com tal afirmação, de certo modo, estabeleceu a base da reflexão dos agnósticos, aqueles pensadores que Marx chamava de “materialistas envergonhados”.


Du Bois Reymond estava certo?  Ivan Pavlov, bem conhecido de todos pelo seu estudo dos “reflexos condicionados”, e Ernest Haeckel, evolucionista demonizado pela Igreja, foram dos muitos a contestá-lo, com o argumento de que não havia por que alguém estabelecer limites ao avanço da ciência, nem acomodar-se no ceticismo, abrindo a porta para a opção mística.  E hoje, quase um século e meio após a prescrição de Du Bois Reymond, o estado do conhecimento científico confere razão aos seus contestadores.
Mas vejamos a que enigmas referia-se nosso “materialista envergonhado”.  Eram sete.  Dois relacionados com a física: a natureza da energia e da matéria, e a origem do movimento.  Dois com a biologia: a origem da vida e o finalismo da natureza.  E três com a psicologia: a gênese das sensações e da consciência, a formação do pensamento e da linguagem, e o livre arbítrio.  Mas, no entender deste modesto escriba, podem ser reduzidas a quatro.


Considerando que o “finalismo da natureza” e o “livre arbítrio” são questões filosóficas, acima do campo da ciência como a entendemos hoje, e, por outro lado, que sensações, consciência, pensamento e linguagem são funções interligadas, ficaremos reduzidos aos temas: matéria/energia, movimento, vida e consciência.


E o que dizer deles?  O conhecimento das propriedades da matéria, da energia e do movimento é hoje muito mais profundo, envolvendo os modernos conceitos de termodinâmica e entropia, embora não seja ainda definitivo.  Aliás, em ciência temos um horizonte sempre aberto: tudo é provisório e perfectível.  Quanto à vida, fenômeno da natureza, podemos defini-la como “uma propriedade da matéria, um padrão altamente complexo, altamente especial e altamente improvável de processos físicos e químicos”.  E a consciência é função da memória, faculdade do nosso cérebro.  Extinga-se a memória, e o ser humano estará nivelado às formas mais primitivas de vida, como os protozoários e as bactérias.


Se quisermos ir além, indagando sobre o porquê, ou para que, da matéria ou da vida, estaremos fora do ministério da ciência.  Entraremos na atmosfera rarefeita da metafísica, núcleo duro da filosofia, ou, se quisermos, no campo ainda mais etéreo da fé.  Pois a nossa razão tem limites, como já nos ensinou o filósofo Immanuel Kant.
Mesmo assim, a melhor escolha me parece ser a de não temer servir-nos dela, e recusar a comodidade, “os confortos da desrazão”.  Rejeitemos, pois, a abdicação intelectual implícita no postulado de Du Bois Reymond, e acolhamos o preceito do Iluminismo, que nos manda ousar saber.  SAPERE AUDE!

 

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