A HARMONIA DA NATUREZA


Clemente Rosas


É comum ouvirmos que o homem, com seu instinto predador, potencializado pelas conquistas da ciência, está destruindo a harmonia da natureza.  Mas seria a natureza verdadeiramente harmônica?  Desconfio que não.


Sem dúvida, há relações harmoniosas na biosfera: pequenos pássaros livram dos carrapatos os animais herbívoros, árvores protegem outras com sua sombra, orquídeas enfeitam suas hospedeiras, insetos ajudam a polinização das flores, e outros casos bem louvados.  Mas creio que sejam exceções a uma regra geral de hostilidade feroz e mútua destruição, em todos os níveis: entre reinos, classes e gêneros, e até mesmo dentro das espécies.  E não se argumente que tais massacres, como o dos carnívoros sobre os herbívoros, são necessários, para equilibrar as populações.  Os equilíbrios na natureza são casuais e episódicos.  Não fosse assim, não teriam desaparecido tantas espécies, mesmo antes da presença do homem na terra.


Os animais comem os vegetais e os fungos.  E estes também comem representantes do reino animal, como as flores malcheirosas dos pântanos, que canibalizam os insetos, ou os fungos que os envolvem e sufocam – às vezes manipulados pelo homem.  Carnívoros devoram herbívoros, outros animais devoram larvas e insetos, e têm, por estes, as suas carnes rasgadas e o seu sangue sugado.  Vermes invertebrados invadem os corpos dos seres vertebrados e roem suas entranhas.  São apenas alguns exemplos dessa guerra sem tréguas, de todos contra todos.


Mas o horror não se esgota aí.  Há os casos das abelhas-rainhas, que, fecundadas, sacrificam seus zangões, e da fêmea do louva-a-deus, que estraçalha a cabeça do macho durante a cópula. E há, por fim, o caso dos maribondos, muito conhecidos nossos, que fazem casinhas de barro para abrigar seus ovos e proteger suas larvas.  Este, pelo requinte de crueldade que encerra, fez Darwin atribuí-lo, não à criação divina, mas a possível obra de um capelão do diabo. 


E como acontece?  O maribondo-caçador ferroa as aranhas de jardim, aquelas verdinhas, e as leva, entorpecidas, para a casinha de barro, onde já estão depositados os seus ovos.  Mas as aranhas continuam vivas, para serem lentamente devoradas pelas larvas, quando eclodirem dos ovos.  Com mais um detalhe especialmente perverso: instintivamente, as larvas começam a refeição pelas partes menos vitais de suas presas, prolongando-lhes a agonia.  A natureza é indiferente ao sofrimento das suas criaturas.


Se voltamos as vistas para além da nossa residência espacial, o quadro não é menos agônico.  Estrelas explodem, buracos negros tragam o que está à sua volta, cometas vagam errantes, asteroides bombardeiam planetas.  Alguns anos atrás, pudemos ver, pelos nossos telescópios, a colisão de um desses pequenos astros com o planeta Júpiter.  Fosse com o nosso, teríamos sido destruídos.  Choques como esse já nos ocorreram em passado remoto, provocando episódios de destruição em massa, de que a vida terrestre se foi, lentamente, recuperando.  Mas muitas espécies foram extintas, sendo os dinossauros apenas o caso mais recente.  Se hoje, na prática, não corremos risco, é porque o tempo histórico não é mais que uma fração de segundo do tempo cósmico.  A roleta do universo continua girando, sem sabermos quem vai perder ou ganhar, e quando.


Harmonia coisa nenhuma.  Esse suposto atributo da natureza não é mais que um mito conveniente, que ajuda a pregação contra nossos excessos.  Se a figuramos assim, é para satisfazer nossos anseios de justiça e de beleza, perseguir nosso sonho de paz na terra, como homens de boa vontade.  Sobre ela, a mãe natura, para respeitá-la e protegê-la, projetamos valores éticos e estéticos, frutos da nossa função cerebral mais elevada, exclusiva do gênero “homo”: a imaginação.


Pois, se existe na criação algum vivente, que, com todas as suas debilidades, torpezas e pecados, ao menos se esforça para edificar um mundo de “compaixão, felicidade, beleza e solidariedade”, na expressão de Celso Furtado, este é justamente o ser humano.  A dignidade do homem já foi proclamada, há mais de cinco séculos, pelo renascentista Pico della Miràndola.  E o poeta Luís Cernuda afirma, ainda hoje, que o homem é nobre.  Mas parece que andamos esquecidos disso.

 

 

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