A RODA DA FORTUNA EM TONS DE CINZA

* Maria das Grašas TARGINO*

Referência do livro: JAMES, E. L. Cinquenta tons de cinza. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012. 480 p.

Há uma lenda bastante conhecida entre gerações mais antigas, advinda da mitologia grega, reconhecidamente rica em contos, mitos e crendices sobre deuses e seres humanos em caminhos tortos e nunca retilíneos. Segundo dizem, três irmãs moiras determinavam o destino dos deuses e dos homens. Sua força é (ou era) tamanha que, hoje, nos dicionários generalistas brasileiros, o termo – moira – aparece como sinônimo de “personificação do destino imperioso e inflexível, e que conduz tudo a seu fim”, ou seja, corresponde ao “destino de cada indivíduo”.

As três mulheres se dedicavam a fabricar lentamente o fio da vida, recorrendo para tanto à chamada roda da fortuna, designação dada ao tear utilizado exatamente para trançar os fios da existência. As voltas da roda colocam a linha do indivíduo ora em partes mais privilegiadas (topo = períodos benéficos da existência), ora em partes mais lúgubres (fundo = períodos sombrios). Assim, as senhoras decidem, sem pudor e sem parcimônia, as fases de boa ou má sorte de deuses e homens. Lembramos que sorte é uma palavra repetida à direita e à esquerda. Falamos: “fulano tem uma sorte incrível!” ou “que má sorte a de sicrano!”, num temor desmedido de pronunciar a palavra – azar. Usamos sorte em diferentes acepções: destino; sina; força que determina tudo que ocorre e cuja causa se atribui à predestinação; fado; casualidade; acaso; ventura; boa estrela, etc.etc. Os dicionários são pródigos na explicação sobre tal verbete.

E é sorte a palavra-chave ou palavra mágica que nos faz recordar o best seller instantâneo da londrina Erika L. James, 49, intitulado Fifth shades of grey. Lançado a princípio na internet, quando a autora adota o pseudônimo Snowoqueen’s Icedragon, James já tem seu original publicado em vários idiomas. A depender do site informativo, em 42, 44 e / ou 46 línguas, como alemão, chinês, coreano, espanhol, francês, italiano, japonês. Para se ter ideia do êxito, desde o lançamento nos Estados Unidos, março 2012, em apenas seis semanas, o livro vendeu mais de 10 milhões de exemplares. No Brasil, está editado como “Cinquenta tons de cinza”, sob responsabilidade da casa editorial Intrínseca, Rio de Janeiro, ano 2012. No lastro do sucesso inesperado e surpreendente, E. L. James, ex-executiva de TV, casada e mãe de dois filhos, é estreante na literatura, mas bastante ágil e bem assessorada. No lastro do sucesso “miojo”, escreve de imediato outros dois títulos, “Cinquenta tons mais escuros” e “Cinquenta tons de liberdade”, completando a trilogia anunciada como o maior fenômeno editorial dos últimos anos. E mais, há indícios de versão da trilogia para o cinema, uma vez que a Universal e a Focus Features já adquiriram os direitos de produção.

A princípio, nada de estranho: mais um sucesso de vendas. O problema é que se trata de obra que nada acrescenta ao leitor. Impossível ou difícil entender o êxito entre as mulheres de nacionalidades distintas. A história assim se resume: a jovem universitária Anastasia Steele, 21 anos, entrevista um também jovem empresário de quase 30 anos, Christian Grey. Paixão fulminante os une desde então. Eis o descompasso: uma virgem inexperiente e sonhadora ao lado de um homem que, após uma infância difícil e sofrida, mantém face tremendamente obscura. Apesar de sua fortuna, do amor incondicional da família de adoção, Grey é, essencialmente, um sádico. Dedica-se a colecionar um arsenal de tortura guardado a sete chaves no «quarto da dor» para as possíveis companheiras. Nenhuma censura contra os praticantes do sadomasoquismo, até porque relações pautadas na dominação e na submissão não são recentes. Acreditamos que resultam do ambiente familiar, do nível de afetividade dos envolvidos, das desilusões amorosas, dos sofrimentos e das agressões vivenciadas por cada um. Ademais, quando nomeamos a perversão como tudo o que excede a normalidade sexual, resta definir o que é “normalidade” e a dificuldade aparece com força total.

Então, sem tentar discutir o sadismo e masoquismo, isoladamente ou em separado, o que nos chama a atenção é, sobremaneira, a roda da fortuna em tons de cinza que as três irmãs moiras teceram a favor da medíocre E. L. James. O enredo é bastante previsível. As evidências são jogadas via recursos que carecem de linguagem e construção expressivas. Penso em escritores, atores e atrizes, e tantos outros profissionais, anônimos, perdidos na tecelagem da vida e não agraciados pela roda da fortuna. O que dizer de compositores sensacionais, como o mineiro Paulinho Pedra Azul, praticamente relegado ao esquecimento? O que dizer dos sortudos João Lucas & Marcelo na divulgação do hit “Eu quero tchu. Eu quero tcha”, composição do paraibano Shylton Fernandes? Um adendo: há poucos dias, num casamento bastante chique, eis o tchu e o tcha tocados à exaustão. Escutamos e sorrimos, recordando a roda da fortuna das moiras...

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

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