Uma carta de saudade da mulher (coruja) silenciosa

 

Maria das Grašas Targino

 

Décadas se escoaram com velocidade inacreditável. Anos voaram. Dias correram em passos de gigante ou em passes de mágica. Eu, como uma coruja circunspecta e de olhos grandes e tristes, em vez de reinar soberana na noite, me mantive envolvida em mistério e tenebroso silêncio, acompanhando, em meio à escuridão do dia (que se fazia sempre crepúsculo para mim) e da noite, teus voos, cada vez mais, para longe de mim. A exemplo do que diz a mitologia grega, Athena, a deusa da sabedoria, mantinha a coruja como símbolo, justamente por considerar a noite o momento que mais favorece a reflexão e a busca do conhecimento. E eu não quis ver a verdade que se impunha sorrateira e poderosa nem à luz do dia nem à obscuridade da noite...

 

Nesse percurso, em vez de chirriar / crocitar / piar, encantando ou assustando as crianças com meu intermitente Uuuu – u – uhuhuhuhu, envelhecemos. Eu, particularmente, nunca entendi o que se rompeu entre nós. A paixão avassaladora, o amor extravasado de várias formas, derrubando estigmas e padrões sociais, nos deram forças. Demos as costas ao mundo para viver nossa história de vida e de amor. Mais adiante, porém, foste tu quem me deste as costas, sem um adeus, sem beijos molhados e ardentes, sem qualquer sentimento da decantada sofrência (sofrimento + carência) dos dias de hoje.

 

Anos transcorridos. Tornamo-nos anciãos ou, no mínimo, embalamos a velhice instalada em nossas vidas. Mesmo assim, não tardiamente – é sempre tempo – te digo que não havia necessidade alguma de teres decretado o fim, de forma tão abrupta, de um amor que se prenunciava eterno. A distância se impôs. A distância me cala a cada dia. Meu Uuuu – u – uhuhuhuhu rareia. Tornei-me uma mulher-coruja-silenciosa. Se antes, olhos aguçados e movimentos rápidos, hoje, olhos cada vez mais arregalados e que choram tristeza, a qual escoa lágrimas invisíveis e permanentes.

 

Mas, confesso de “cara limpa”: continuo corujando os rumos de tua vida! Depois que tu partiste sorrateiramente, passei a alimentar um medo estranho de ser feliz. Buscar opções de felicidade soaria como traição ao que sonhamos em uníssono. Não falo de traição no sentido corriqueiro do termo: a traição da confiança. Falo da traição do descompromisso. Falo do simplesmente ignorar a existência do outro. Falo de deixar tu ires, sem seguir ao relento teu caminho entre flores e/ou pedras, com olhos vigilantes e atentos em meus voos crepusculares, noturnos e silenciosos (mas nunca lúgubres). Acompanhar tua vida na surdina e sem qualquer alarde para preservar o vínculo que estabelecemos num março qualquer num ano qualquer.  

 

Deixei que seguiste em paz! Sem alardeio! Sem gestos invasivos! Muitas vezes, em sonho ou acordada, revivi nossos abraços e nossos corpos desavergonhadamente entrelaçados. Andei até me apaixonando, algumas vezes, ao longo dos anos de mulher-coruja-silenciosa. Em vão. Sempre despertei. Nunca fui de meios-amores. Recuso a quase amar. Quero tudo, na íntegra. Sem meios-termos. Prefiro ir deixando, pelo meio do caminho, os quase amigos, os quase inimigos, os quase amores.

 

Afinal, digo sempre: prefiro o sim ou o não em vez do quase ou do talvez. É exatamente o talvez que me entristece. A certeza de que, dessa vez, quase amei, quase fui amada...  Em outras palavras, um dia, em meio ao meu primeiro e louco amor, pensei que tudo era para sempre. Tudo, imutável. Tudo, eterno. Tudo, próximo à comunhão de corpos e de alma. Só ali. Nunca mais. Cedo, muito cedo, aprendi que nada é para sempre. Em oposição, tudo pode ser de verdade. Mas, é fundamental que saibas: só queria saber de ti. O que andas fazendo diante dos risos soltos e da irreverência dos netos ao redor? O que alcançaste em tua vida? De que gostas, agora? A quem amas, agora?

 

De qualquer forma, embora soe como hábito não saudável o mirar a “vida pelo retrovisor”, como alguém me alertou um dia, só quero saber de ti. Nada mais do que isto. Quero, sim, saber de ti e te dizer que prossegues em mim. Não há mágoas. Não há jogos de culpa ou de mea-culpa. Aliás, a cada dia, a dor da separação pesa um pouco menos. Sigo me libertando. Como as corujas, num dia qualquer, num março qualquer, num ano qualquer, seguirei os hábitos dessas aves soberanas da noite: alimentam-se de pequenos mamíferos, insetos e aranhas. Engolem as presas por inteiro. Logo adiante, vomitam pelotas com pelos e fragmentos de ossos. Um dia, conseguirei te vomitar.
Só queria saber de ti... Nada mais nada menos. Só queria saber de ti...

 

 

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