CELSO FURTADO NÃO ERROU!

 

Clemente Rosas

Cumprimento o jovem economista Alexandre Rands pelo seu livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, em lançamento por estes dias. Chamar a atenção para o problema educacional como condicionante de peso dos desníveis de renda entre as nossas regiões geográficas, como ele faz no trabalho, é atitude justa e meritória. E vem somar-se à campanha incansável, obstinada, quase heróica do Senador Cristovam Buarque pela educação nacional, cruzada que ainda não teve o efeito almejado pelos brasileiros de boa fé.

Sua entrevista ao Jornal do Commercio em 27.08.2011, no entanto, merece algumas glosas. Poderia dizer também, recorrendo a jargão jurídico eufemístico, que suas declarações “comportam temperamentos”. Pois o Dr. Rands, referindo-se à política de desenvolvimento aplicada no Nordeste, a partir dos anos 1960, afirma, sem meias palavras, que “Celso Furtado errou, o diagnóstico dele foi errado”. E isso por não ter dado a devida ênfase à educação – é o que resulta implícito pelo contexto – priorizando apenas a atividade industrial.

Atacar “medalhões”, polemizar com emoção, sacudir conceitos estabelecidos são fórmula segura para a notoriedade. Mas, pelo estofo de “scholar” do Professor Rands, não creio ser este o seu caso. Certamente com ele se deu o que acontece com os intelectuais em entrevistas, sobretudo à televisão: a insistência dos entrevistadores e as limitações de tempo forçam o entrevistado a simplificar. E a simplificação é perigosa, pode levar a omissões de aspectos essenciais, comprometendo a integralidade da mensagem. Ocorre então, ocasionalmente, aquilo que o saudoso Professor Milton Santos chamou de “corrupção do saber”.

Para repor as coisas nos seus lugares, podemos começar lembrando que a industrialização era uma das linhas do documento do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste – GTDN, bem como dos Planos Diretores de Desenvolvimento do Nordeste. Simplesmente pelo fato de que não há perspectiva de melhoria socioeconômica para uma região extensa, densamente povoada e com relativa escassez de recursos naturais sem a presença da indústria. Mas havia outras linhas: a adaptação da agricultura no Semiárido, a sua modernização e diversificação na Zona da Mata, a abertura de nova fronteira agrícola na Pré-Amazônia e o aperfeiçoamento do fator humano, através, entre outras medidas, da promoção da educação de base. Não foi por outra razão que um dos departamentos mais importantes da SUDENE era o Departamento de Assistência Técnica e Formação de Pessoal – DATF, depois rebatizado para Departamento de Recursos Humanos – DRH. E até a expressão “recursos humanos”, desconhecida ou incomum àquela época, foi cunhada pela Autarquia.

Convém considerar, em seguida, que, com o afastamento e o exílio de Celso Furtado, o plano de desenvolvimento para o Nordeste foi mutilado pelos Governos Militares, não se podendo atribuir a erro de seu formulador as lacunas e insuficiências que se foram revelando, ao longo do tempo.

É certo que a ilusão “cepalina”, de resolver o problema do emprego nos países subdesenvolvidos com a indústria, se desfez. Mas ela continua indispensável, como indutora de transformações e aperfeiçoamentos nos outros setores, seja pela força de sua demanda, seja pelos bens e equipamentos que disponibiliza para a agricultura e os serviços.

Em qualquer plano de desenvolvimento há um princípio a ser observado, e o Professor Rands o conhece muito bem: a complementaridade dos programas. Se só investirmos na educação, não promovendo a atividade econômica, a mão-de-obra qualificada emigrará, à procura de condições mais adequadas de emprego. No início dos anos 1970, como executivo de uma empresa industrial, na tarefa de recrutar operários especializados, ainda vivi tal experiência. Em contactos com o SENAI, na busca de apoio, fiquei sabendo que boa parte dos formados em suas escolas técnicas deixava a região, por melhores oportunidades no Sudeste.

Naturalmente, este esclarecimento nada retira da importância do trabalho em foco, cuja ênfase na questão educacional é oportuna. Sobretudo no momento em que a atividade fabril nordestina, longamente estimulada, adquire dinamismo próprio, e depende cada vez menos dos incentivos tradicionais. Aprimorar a educação é também uma forma de respaldar a indústria, além do seu objetivo mais nobre, ético-político, de promover a cidadania. Minha intenção é apenas não deixar que o enfoque parcial de um problema complexo manche a imagem do primeiro grande pensador do desenvolvimento nordestino, cuja herança intelectual todos reconhecemos. Atitude compreensível para quem viveu com ele a “fase heróica” do planejamento econômico regional, e ainda hoje, onde e como pode, procura servir à sua grande causa.

* Clemente Rosas é consultor de empresas

 

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