CENA DE SANGUE NA RUA SÃO JOSÉ
                                                                           
Aconteceu em João Pessoa, nos primeiros anos da década de 50 do século passado, eu tinha uns doze ou treze anos.  Estávamos terminando o almoço domingueiro, em nossa casa na rua enladeirada que, àquela altura, já havia mudado de nome para Desembargador Souto Maior, um parente nosso, embora continuasse conhecida do povo como São José.  Ouvimos uma sucessão de estampidos, e um dos meus irmãos perguntou: “O que é isso?”, ao que respondi, despreocupadamente: “Bombinhas de São João!”.  Mas seguiu-se um berro agoniado, e o som das pisadas fortes de alguém que descia a rua correndo.  E meu pai resolveu ir até o portão de casa, no que foi seguido por todos nós.


No alto de nossa rua, onde ela se encontra com a rua de Tambiá, das mais antigas da cidade, naquele tempo ainda revestida com pedras sem argamassa, vimos dois homens ensanguentados, um empunhando uma faca peixeira, em cima do outro, que estava deitado de costas na calçada, segurando desesperadamente a mão do agressor.  Meu pai mexeu-se para intervir, minha mãe agarrou-se a ele – “Não vá, Evandro, não vá!” – mas ele desprendeu-se e subiu a rua gritando: “Não mate o homem!”. Na corrida, os chinelos se soltaram e ele nem percebeu as queimaduras nos pés, causadas pelo pavimento quente. Minha mãe foi atrás.


Chegando lá, meu pai agarrou, com as duas mãos, o pulso do esfaqueador, e o puxou de cima do outro, sem encontrar reação, a não ser o desabafo: “Esse corno desde ontem que me provoca!”.  Dona Marcília, de quem posso dizer que, se não ostentava, entre suas virtudes, a sonhada doçura das mulheres, tampouco tinha a tibieza entre os seus defeitos, dirigiu-se ao homem que permanecia de pé, com a peixeira ensanguentada na mão: “Me dê essa faca!”.  O homem não se moveu, e ela fixou nele aquele olhar que para nós, crianças, era como o da Medusa: ”Me dê a faca!”.  E o homem obedeceu.


Ao ajudar o ferido a levantar-se, meus pais o reconheceram: era Aluísio Franca, boa gente da sociedade local, apreciador da bebida e do jogo, os pecados masculinos mais comuns na época.  O outro, soubemos depois, era Pedro Campos, de Campina Grande, desconhecido na nossa cidade.  Deviam ter tido uma desavença qualquer na véspera, pois, enquanto o primeiro estava a caminho do jogo de futebol, na companhia da filha (a mocinha que desceu a rua correndo), o segundo o procurava para a desforra. 

Encontraram-se, descarregaram os revólveres, e o campinense, embora não fosse assassino profissional, adotou o comportamento padrão dos matadores naquele tempo: atacar a vítima a tiros, e completar o serviço com a peixeira.
(Para quem não tem familiaridade com essa arma terrível, esclareço que é o modelo de faca usado para abrir barriga de peixe: além de ter gume cortante, é amolada também do outro lado, na parte final.  Meu pai comentava sempre: depois que a peixeira substituiu o punhal – portado ostensivamente pelos cangaceiros nos cinturões, e escondido pelo patriciado na cava dos coletes – as lutas de arma branca terminavam, na maioria dos casos, com a morte dos dois contendores).


Nosso conhecido desceu a rua mancando, uma grande ferida no alto da testa, certamente provocada pelo vai-e-vem da faca, a camisa empapada de sangue.  Um corte profundo na altura do tornozelo, provável resultado de algum pontapé contra a mão que empunhava a peixeira, e que, surpreendentemente, não o impediu de caminhar, só foi sabido depois.  Minha mãe, que o acompanhava, perguntou: “Você está muito ferido, Aluísio?”.  E ele, levando as mãos ao peito, como a procurar os buracos das balas: “Aquele desgraçado me matou”.  Virou-se ainda para um último insulto ao inimigo: “Corno safado!”.  Um carro de praça o recolheu quase em frente à nossa casa.  O outro duelista, também ferido, ficara no alto da rua, vigiado por meu pai.  Não sei quem o levou ao hospital.


Passada a excitação geral de familiares e vizinhos, “como foi, como não foi”, alguém teve a ideia de telefonar ao Pronto Socorro, para saber o destino dos feridos.  A resposta foi fria, displicente e imprecisa: “Um já morreu, o outro ainda não”.  O campinense, na verdade, não correu risco de morte, levara apenas dois tiros no braço.  Mas o pessoense, com o pulmão varado de balas, e tendo sido submetido ao esforço sobre-humano de conter um agressor mais corpulento, montado sobre ele, de peixeira em punho, não resistiu à hemorragia.  O corajoso gesto de solidariedade dos meus pais resultou inútil.
O processo foi rumoroso, o júri, dos mais movimentados da cidade.  A questão essencial era saber e provar quem atirara primeiro, pois isso poderia configurar a legítima defesa do outro.  Alguns testemunhos falsos foram tentados, sem grande efeito.  Mas uma testemunha ocular, uma velhinha da nossa rua, foi incisiva.  Quando a defesa de Pedro Campos procurou desqualificá-la, alegando a sua surdez, ela respondeu: “É verdade, meu filho, que eu ouço mal.  Mas não estou falando aqui do que eu ouvi, mas do que vi.  E olhe, eu tenho a vista tão boa, que enfio um linha na agulha no escuro...”  Pedro Campos foi condenado e cumpriu resignadamente a sua pena.


Moral da história?  Nenhuma.  Apenas uma reminiscência, que nos leva a refletir como as emoções, ou simples destemperos, podem levar a tragédias.  E como os gestos de destemor e desprendimento, mesmo infrutíferos, merecem ser lembrados.  Meus heróis já se foram, há algum tempo, aos 97 e 95 anos bem vividos, mas nos deixaram o seu exemplo.

 

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