OBRIGADA, MARÍLIA MARZULLO PÊRA!

Maria das Grašas Targino *

Anônimos morrem a cada dia. Celebridades, idem. Alguns voos nos tocam. Outros passam despercebidos. Marília partiu há menos de uma semana, dia cinco de dezembro. Pelo noticiário, naquele dia ou, talvez, exatamente na hora de sua morte, às seis da manhã, pensávamos em trajetória de vida. Quem pensa em trajetória de vida, pensa, inevitavelmente, em voo, morte, passagem, fim, partida ou qualquer outro termo preferido, a depender do fórum íntimo ou da crença religiosa professada.


Naquele despertar sombrio, lembrávamo-nos de palavras ardorosas em prol da velhice pronunciadas em locais distintos. Palestras, conversas informais, palavras de conforto aos que envelheciam. Tudo isto quando a senhora velhice não nos pegara pelo pé, ou melhor, pelo coração, que é exatamente, onde suas garras repousam e a força de Marília Pêra mostra bem isto. Ao que parece, ela nunca deu trela para as tais unhas aguçadas e curvas de feras e / ou aves de rapina. Sempre as enganou com travessuras e tagarelices de senhora-menina

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Ao contrário da grandiosa Marília, há muito tempo, percebemos, pouco a pouco, a paisagem em volta se desmoronar. Filhos e netos seguem ao nosso lado, mas não os queremos roubados de seus sonhos, empunhando-nos como “peso pesado” às costas. Meus irmãos queridos não economizam telefonemas ou minutos de conversas jogadas ao vento. Os amores estes não contam. Afinal, seguiram o refrão para lá de poético do grande Vinicius de Moraes, cujo “Soneto de fidelidade” diz mais ou menos assim: “[...] possa dizer do amor que tive. Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”


Mas, nos sentimos – e não negamos – roubadas de uma grande paixão – a sala de aula. Não uma sala de aula qualquer – a UFPB que nos perdoe e não nos ouça. Enxotaram-nos de uma instituição a qual dedicamos juventude e vida. Sem qualquer lamento. Hoje, precisamos de autorização para entrar em determinados recintos, onde imperam reis de papelão que causam riso e piedade.  É preciso reconstruir o mundo em volta a cada dia, até porque, mais do que qualquer coisa tão superficial e tola, assistimos “de camarote” a partida de muitos a quem queremos bem, com regularidade crescente. São pais, irmãos, tios, primos, amigos, etc. etc. É como fôssemos forçados a aprender a desaprender. Naquele dia 5, quando Marília partiu, refletíamos exatamente sobre tantas perdas, que nada têm de imaginárias.


Nesse momento de aprendizagem ao reverso – o que é em si uma forma real e dolente de aprendizagem – um dos primeiros elementos que pusemos no chão foi a ilusão de que há um encantamento dourado no envelhecer. Pura mentira. Por tudo isso, e, principalmente, pelo fato de vermos, a cada dia, a esperança escoar por nossos dedos envelhecidos, somos, hoje, uma mulher profundamente triste. Perder a esperança é o que mais pesa e sentir que as amizades são, em sua grande maioria, vinculadas à posição que cada um ocupa em momentos pontuais de vida, idem. Estas são grandes dores e grandes perdas.


Por tudo isso, agradecemos a MARÍLIA MARZULLO PÊRA que trabalhou – deram a ela esta chance – até seus últimos dias, em meio a profundas dores físicas, a oportunidade única de traçar esta reflexão. Podemos / devemos alimentar a crença tola e pueril de que a vela apagada é melhor do que aquela que se deixa consumir e alegrar festas ou sessões solitárias de filmes na TV? Por que não mais nos arriscamos a cada dia? Por que a coragem de prosseguir a nos aventurar diante das batalhas da vida decresce a olhos vistos? O fato de os anos passarem e de o homem que nos viu envelhecer nos deixar para trás nos dá mesmo o direito de não mais ousar? Seremos nós uma velha covarde? Estamos nos transformando numa mulher desleal aos princípios de uma vida inteira? A velhice nos dá o direito infame de perder o viço da pior maneira possível? Mesmo reconhecendo que estamos a cem anos-luz de sua grandiosidade de guerreira e mulher, por que não pedir um pouquinho da bravura de Marília para prosseguir adiante? Ela nos dará! Certeza!

 


* Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

 

 

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