A PUTA ENEDINA

 

 

Malthus Alberto de Paula

 

Até começo da tarde do dia 6 de agosto de 2015, rodei parte da Fazenda do Menino, no sertão do sertão, em companhia de Antônio das Onças e Didi Passarinho. Saímos cedo da Fazenda de Vicente Caipora, Antônio das Onças em burro ruão, eu e Didi Passarinho em dois outros cor de manteiga. Antônio das Onças é varapau de metro e noventa, olhos azuis, neto de português e de italiana. Muito branco para enfrentar a sol do Vão do Urucuia, onde tanto boi berra, nas palavras de Guimarães Rosa. O enfeite do passeio eram os buritis das veredas que buscam o Ribeirão da Areia. Pegou o nome por ter matado duas pardas, com lista preta no lombo. Uma no dia em que achou poldro comido nas ancas, outra três dias depois, o macho que viera procurar a fêmea. Gosta do apelido, lembra Manuelzão, aquele do Miguilim, tem conversa parecida, só não escapou das ondas sonoras das rádios evangélicas, devia ser mais divertido antes de trocar de religião, depois de cair da moto, quebrar as clavículas e três costelas, perfurar o pulmão e achar que iria morrer. Católico a maior parte da vida, deixou de ir à missa, por causa do pastor que lhe deu apoio no hospital.

 

Como evangélico, disse não ter direito de acreditar na história que aconteceu com ele, mas contava assim mesmo por lhe ter permitido consertar o único malfeito que fez na vida, aos 15 anos, quando ainda morava em Florestal, já crescido e frequentador da casa da Enedina, prostituta loura que viera de Betim. Todos sabem que a especialidade das putas do interior mineiro é a galinhada noturna, para forrar o estômago da rapaziada, antes de desforrarem as camas. De preferência com galinha furtada do quintal das carolas por moços de boa família. As melhores eram as gordas, com ovinhos sem casca na madre, para engrossar e dar sabor ao caldo. Cada um era designado para ser o ladrão do sábado, o troféu fazia o gatuno se sentir o herói da noite, tinha de narrar os lances de sua façanha na casa surrupiada, o nome da religiosa que forneceu a carne para o sacrifício no antro das mulheres, com gravura de São Jorge com luz vermelha. Não só a comida, era o prazer do olhar sarcástico na beata na missa do dia seguinte.

 

Chegou o dia de Manoel das Onças que, não querendo enfrentar os cachorros nos quintais alheios, preferiu levar galinha da casa de sua tia Zuma, onde tratava dos porcos. Propôs comprar uma de pescoço pelado, a parente recusou, dizendo que era a melhor poedeira, e dependia dos ovos para colocar à venda na farmácia do Nil Vieira. O sol caía, hora da último cocho, a ave também chegou na beira da cerca para comer restos do milho pilado. Uma paulada, ela no embornal, duas horas depois na casa das mulheres. A diversão era saber de qual galinheiro fora afanada. Enedina perguntou, Antônio contou que tentou comprar, antes de a pôr na sacola. Aquilo não valia, tinha de ser furtada, para valer o mistério, colocar pulga atrás da orelha de quem fora subtraído. Fez o rapaz prometer que iria pagar. Levou de volta as penas e na manhã do dia seguinte as foi espalhando no caminho do brejo. Perpétua contou para Dona Zulma que o saruê havia comido a galinha que não quisera vender.

 

Sempre que chegava ao bordel, Enedina queria saber se pagara a tia, até que lhe ameaçou vir puxar sua perna quando morresse, no caso de não cumprir a promessa. Fez 18 anos, saiu pelo mundo, trabalhou em fazendas de Goiás, em Curvelo e foi parar em Arinos. Trinta anos depois, voltou a Florestal, perto de Pará de Minas, e encontrou Enedina como cozinheira de sua família e uma memória afiada, a perguntar pela dívida. Meses depois em Arinos, uma noite acordou com puxão na perna, cochilou de novo, novo cutucão, e assim mais duas vezes, até que seu irmão veio se deitar na cama onde também dormia a mulher Maria Helena, para que conseguisse dormir. São gêmeos, dormiram juntos na mesma cama até os 18 anos, por exigência da mãe, no puteiro em camas separadas. De manhã, o celular ligado na antena tocou, era outro dos seus 13 irmãos, para lhe contar a morte de Enedina. Antônio das Onças disse já saber, mesmo tendo ela acabado de morrer. Voltou na mesma semana a Florestal, encontrou a tia Zuma a fazer croché, com mais de 90 anos, e lhe contou que viera só para lhe pagar a galinha. Não quis receber, disse para colocar os 20 reais no altar de nossa Senhora Aparecida, para apaziguar a alma dos dois. O evangélico disse que hoje estava em paz, com a mistura das três religiões, tinha certeza de que Enedina ficou sabendo do pagamento.

 

Durante a cavalgada, Antônio das Onças e Didi Passarinho foram ensinando coisas do mato. Na volta, depois de apear, Vicente Caipora presente, mais o Agnel, perguntei como se chamavam os animais que estávamos desarreando. Aí tiveram certeza que o sujeito da Capital era completo ignorante, como já haviam suspeitado.- É burro, ora pois. Respondi era asno, noventa em cem tem a cor de manteiga, e os homens antigos na Itália, de tanto falar asno burro, acabaram por falar só o adjetivo, assim como falamos alazão, tordilho, sem precisar de falar que é cavalo. Outros também falam muar, a família dos mulos, a raça que não procria, as fêmeas são a mula, de cavalo com jumenta, a besta de jumento com égua, e dos machos tem o mulo ou burro, e o bardoto, de cavalo com jumenta. Não cheguei a dizer que jumento é aquele que subjuga, tal como cônjuge e juiz. Ouviram desconfiados, levamos os burros até o Ribeirão da Areia, antes de entrar na casa para comer arroz, carne de novilha, feijão com farinha de mandioca acabada de fazer. Desforra faz parte. Enedina não queria galinha comprada, tinha de ser furtada das mulheres que a desprezavam, cujos filhos fazia de ladrões. Mas se comprou, tem de pagar. Foi honesta até depois de morrer.

 

 

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