CALA-SE UM DOS ECOS DO MUNDO

 

Maria das Grašas Targino *

 

Não se trata de mera retórica. De fato, sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016, em seu país natal, na cidade de Milão, cala-se um dos “ecos” do mundo contemporâneo. Isto porque, Umberto Eco, ao longo de sua longa trajetória de 84 anos intensamente vividos, circulou por áreas as mais distintas, sem temor de errar e com bastante vontade de acertar. Escritor, crítico literário, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo de alcance internacional, marcou a vida de gerações e gerações. Acadêmicos de nossa geração ingressaram, quase sempre, no universo da pesquisa, por obra clássica de sua autoria, “Como se faz uma tese”, 1995. Em nosso caso particular, seu distanciamento de qualquer tipo de casulo sempre encantou. Nada mais chato do que aqueles acadêmicos que desfilam por aí afora, e que só sabem falar de sua especialidade cada vez mais diminuta e irreconhecível, distanciando-se da beleza que há em seu entorno, incapazes de discutir sobre algo mais, além do tal “objeto de estudo.”

 

Umberto, ao contrário, representava, de fato, o “eco” da realidade. Por exemplo, enquanto todos se sentem compelidos a enaltecer as potencialidades das tecnologias, ele vem a público, em diferentes ocasiões, incluindo entrevista à revista brasileira Veja, relativamente recente, intitulada “A conspiração dos imbecis”, 1º de julho de 2015, e diz o que muitos pensam e poucos têm coragem de confessar. Para ele, ao lado de todas as benesses das inovações tecnológicas, está o malefício imensurável de a internet “dar voz a uma multidão de imbecis [...] Multidões de imbecis têm agora como divulgar suas opiniões [...] Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas. O sujeito pode ser excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende.”

 

Declarações deste tipo sempre o colocaram no “olho do furacão” das intrigas dos bastidores científicos e acadêmicos. Para calar os desafetos, uma obra gigantesca. Como carro-chefe, seu maior sucesso, “O nome da rosa”, romance lançado em 1980, traduzido em diferentes idiomas, como alemão, francês, inglês e português, e que chega ao cinema, 1986, dirigido por Jean-Jacques Annaud, protagonizado por Sean Connery e transformado em sucesso mundial. E o que dizer do encantamento de outras obras literárias, como “O pêndulo de Foucault” (1988) e “O cemitério de Praga”, 2011?

 

Coincidentemente, há alguns dias, produzi resenha técnica para uma revista especializada sobre seu último livro, lançado no Brasil, em 2015, “Numero zero” (título original em italiano), traduzido para o português por Ivone Benedetti e editado pela Record como “Número zero.” Sem deixar de lado críticas permanentes ao hermetismo acadêmico, Eco monta sua trama conspiratória exatamente na redação de um jornal da capital da região da Lombardia, a bela Milão, ano de 1992. Resistente à ideia de que aquele que cultiva esperanças impossíveis já é um perdedor, Colonna, um revisor de manuscritos em editoras de quinta categoria, eventual tradutor, mas, sobretudo, eterno candidato a escritor e a jornalista de sucesso, persiste a alimentar o sonho de que todos os fracassados nutrem de algum dia conseguir escrever um livro que lhes assegure glória e fama. E por aí vai o enredo do “Número zero...”

 

Coerente com seus ideais de que é preciso lutar para manter a qualidade do jornalismo, Eco partiu, acreditando que cabe aos profissionais jornalistas atuarem como um “filtro” para o que se lê na Grande Rede, distante da aura de encantamento que paira sobre as redes sociais e o que elas carregam consigo, o que requer coerência e parcimônia. Mas vem mais. Incansável, deixa um manuscrito pronto a ser lançado na Itália, por sua editora La Nave di Teseo. Com o título “Pape satan aleppe”, trata da personalidade do papa Francisco por quem Eco mantinha profundo respeito. Lançamento antecipado para 27 de fevereiro, ao que tudo indica, chegará ao Brasil por volta de maio.

 

Por sua capacidade de abarcar o mundo, por sua curiosidade aguçada frente à vida, por sua compreensão da contemporaneidade além do que se espera de um “homem comum”, esse italiano nascido em Alexandria, no ano de 1932, permite que se diga com sua partida: que pena! De verdade, longe de qualquer jogo de palavras, cala-se um dos “ecos” do mundo!

 

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

 

 

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