2021: o ano que não começou  

Maria das Grašas TARGINO

Ao longo de todo este período da Covid-19, início de 2020, registramos incontável número de publicações nos mais diferentes suportes divulgados na esfera radiofônica, televisiva, digital e eletrônica acerca de variadas facetas da realidade nacional e mundial que vêm à tona em meio ao caos provocado pela pandemia. Em nosso caso, por exemplo, elaboramos textos veiculados em jornais impressos e eletrônicos, em páginas eletrônicas, em revistas técnicas e generalistas e, ainda, como capítulos de livros. São escritos com diferentes focos.


Ora, os efeitos físicos e psicológicos que afetam parte significativa da população, denunciando os impactos do isolamento social, a solidão exacerbada, o vazio das salas de aula e dos locais de trabalho, o confronto de 24 horas no ambiente familiar, aproximando ou afastando as pessoas mediante revelações nem sempre bem-recebidas.  Ora, a imposição de novas formas de letramento em tempos de pandemia. Ora, surpreendentemente, a corrupção presente nos meandros do combate à Covid. Ora, o baque na economia mundial e a invasão vertiginosa de fake news no universo informacional.


Diante da enxurrada de dados e informações em circulação, que incorporam aspectos científicos envolvidos na expansão da pandemia, incluindo cepas e variantes, como também, exaustivas discussões sobre a vacinação, ainda cercada de mistério, indefinição, questionamento, aceitação e temor, vantagens e  possíveis efeitos colaterais, sem contar as crendices populares, chama atenção o recente documentário, mês de junho, intitulado “2021: o ano que não começou”. Produzido pelo apresentador brasileiro Luciano Huck, está à disposição gratuitamente para qualquer interessado no Globoplay TV Globo.


No decorrer de 43:40 min., L. Huck expõe as particularidades de um novo mundo totalmente conectado, haja vista que nenhum organismo mundial, incluindo a Organização Mundial da Saúde, nenhuma nação, nenhum sistema de saúde, nenhum médico, nenhum economista, nenhuma equipe de medicina legal, nenhum agente funerário, nenhum empresário, nenhum cidadão, enfim, ninguém estava preparado para o rastro de horror ora vivenciado. Nesse sentido, todos nos unimos em torno de novas expressões, integradas com rapidez ao vocabulário dos diferentes povos – lives, home office, curva de contaminação, quarentena parcial ou total, distanciamento/isolamento social, e, sobretudo, “I lost you” para expressar o lamento ante tantas e dolorosas mortes, afetando as mais distintas faixas etárias e segmentos sociais.


O documentário evidencia questões, às vezes, negligenciadas propositadamente por governantes e sociedade civil. Eis a desigualdade em suas diferentes naturezas. O fosso entre ensino público e privado em todos os níveis mostra-se inquestionável. O deus-nos-acuda da saúde brada por melhorias do Sistema Único de Saúde, na esfera nacional. Por toda parte, as tendências desumanas do racismo, as lutas antirracistas, os vieses da política e os desmandos de governos sem leme e sem rumo, os males do capitalismo, o descalabro advindo do crescente aquecimento global, o fantasma da fome, da pobreza e da miséria em seu ápice, a violência urbana atingindo, sobretudo, pobres, jovens, negros e imigrantes, as inovações tecnológicas e sua inacessibilidade a muitos e a complexidade que caracteriza o núcleo familiar ganham espaço.


Para tanto, com sua perspicácia peculiar, o documentarista recorre a uma série de especialistas brasileiros e internacionais de áreas e visões distintas. Dentre eles, destaque para o norte-americano Scott Galloway, professor da New York University; a franco-americana Esther Duflo, economista e ganhadora do Prêmio Nobel de Economia em 2019 por sua luta contra a pobreza; o economista francês Thomas Piketty, autor do renomado livro “O capital no século XXI”; e Graça Simbine Machel Mandela, política e ativista dos direitos humanos moçambicana. Entre os brasileiros, eis Preto Zezé, presidente da Central Única das Favelas (CUFA) e Luana Genota, fundadora do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), organização sem fins lucrativos voltada para a promoção da igualdade racial.


A diversidade de depoentes garante a L. Huck, se não o esgotamento da realidade brasileira e mundial frente à Covid, no mínimo, um panorama bem construído, que desnuda a desigualdade frente à pandemia, reiterando o entrevistado Rutger C. Bregman, historiador holandês, quando diz: “A desigualdade é um veneno para a sociedade. Ela separa as pessoas. Ela envenena democracias. Destrói a sociedade civil. E esse é o caso específico do Brasil [...]”, onde se faz urgente uma redistribuição de renda massiva e equânime.


É óbvio que os cidadãos por aí afora clamam pelo controle do coronavírus, o que exige disciplina, planejamento e um governo comprometido com o bem-estar da população, a exemplo da Nova Zelândia, país de cinco milhões de habitantes, que registrou desde o início da pandemia tão somente 26 mortes e 2,6 mil ocorrências, graças à atuação exemplar da Primeira Ministra, Jacinda Ardern. No Brasil, ficamos para trás desde o início, quando o vírus foi batizado como “gripezinha” pelo governo Bolsonaro. muita hesitação e idas e vindas na compra de vacinas. A seguir, distribuição desencontrada dos lotes de vacinas. Tudo em meio a factoides governamentais contra o distanciamento social e até contra o uso de máscaras, o que acelera festas clandestinas, aglomerações e dúvidas, que, de uma forma ou de outra, impedem o ano 2021 de começar, tudo indiferente ao total estarrecedor de mais de meio milhão de brasileiros que já partiram dentre o total aproximado de 17 822 655 cidadãos mundo afora!

 

 

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