Lech Walesa e Andrzej Wajda:

 

 

Dois mitos e um filme benevolente

 

La Maria Aaro Reis*

Na década dos anos 70 o mundo ocidental, que na época não levava ainda muito a sério o outro lado do globo - o mundo oriental -, porque então se encontrava mergulhado na Guerra Fria, o mundo ocidental descobriu e rapidamente se encantou com a figura carismática, fartos bigodes, cara redonda de polaco e discurso fácil do eletricista desempregado transformado rapidamente em líder do sindicato independente Solidariedade, Lech Walesa, da cidade portuária de Gdansk (Danzig, em alemão), na Polônia. Alçado à condição de festejada estrela pop pela sua luta de resistência ao regime comunista, foi um personagem assimilado rapidamente pela mídia da época, “pessoa certa no lugar correto, num instante propício”, como ele próprio Walesa, se referia a si mesmo, era uma personalidade particularmente extrovertida.

Preso diversas vezes pelo regime de Varsóvia, Walesa resistiu ao governo comunista, se arriscando, entrou e saiu da prisão dezenas de vezes. Militou nas praças e em comícios dos portuários dos estaleiros do Vístula até a derrocada do regime de Varsóvia e a queda do muro de Berlim, em 89, e o consequente esfacelamento da União Soviética.

Antes, recebera o Nobel da Paz seis anos antes da derrocada e elegeu-se presidente do seu país em 1990. Em seguida, perdeu a reeleição duas vezes e foi para a casa. Hoje, aos 69 anos, vive separado da mulher Danuta, uma católica fervorosa como ele, mãe de seus seis filhos, e também ela transformada em ícone da luta pela liberdade. Na época, celebrizada por ter recebido, no lugar do marido, o Nobel na Suécia – ele poderia não ser autorizado a retornar á Polônia caso fosse a Estocolmo -, Danuta é autora de um livro de memórias, best seller que rodou o mundo.

Walesa vive, segundo ele mesmo declara, com modesta aposentadoria para os padrões europeus: mil euros. É presidente de um ativo Instituto de estudos políticos e culturais sediado em Varsóvia, que leva o seu nome e estimula políticas de “descentralização do estado”. Estimula políticas liberais. Um dos apoios mais recentes do Instituto Lech Walesa deu-se à polêmica blogueira cubana Yoani Sanchez. Sua irrestrita admiração por Barack Obama é conhecida. Prometeu pedir a ele, quando da sua escala na Polônia, este ano, para a cúpula do G7, para exercer um papel mais ativo na liderança mundial porque “o mundo está desorganizado e a superpotência não assume uma liderança mais ainda efetiva.” (!)

Em entrevista a um jornalista brasileiro afirmou: ”O capitalismo não é um sistema perfeito. Mas ninguém inventou coisa melhor.”

Este ano, o ex-eletricista e ex-presidente polonês volta às luzes do palco da fama no mais recente Festival de Veneza, dois meses atrás, como personagem de filme de Andrzej Wajda, Walesa – man of hope, produção polonesa rodada em 2012 com este título original.

Um dos cineastas vivos (88 anos) e em atividade mais cultuados do século XX e autor de dois filmes belíssimos e clássicos: Kanal e Cinzas e Diamantes nos quais ele denuncia, com impressionante vigor e objetividade a ação dos militantes poloneses aos nazistas, nos esgotos e, meses depois, nos arredores de Varsóvia.

Depois, Wajda fez outros filmes memoráveis, O homem de mármore e O homem de ferro, e há sete anos estreou Katyn, a narrativa do massacre de mais de 15 mil oficiais poloneses fuzilados pelo exército soviético (que responsabilizou, na época, os alemães pelo feito) na floresta de Katyn, nos arredores de Smolesnky, na URSS. Entre eles estava Jakub Wajda, seu pai.

O encontro dos dois mitos neste documentário histórico de agora decepciona. O personagem se apresenta monocórdio, a interpretação do protagonista, tão festejada na Europa, (ator Robert Wieckiewicz), é exagerada e quase caricata, e muitas das perguntas sobre a história da militância de Walesa que se fazem hoje ficam sem resposta. É nessa primeira fase da sua ação política que o filme transcorre. Quando termina, o exército soviético ocupa a Polônia e o líder ainda não se candidatara pela primeira vez às eleições presidenciais.

As sessões de entrevistas que Lech Walesa concedeu - e ficaram famosas - à célebre jornalista italiana Oriana Falacci funcionam como fio condutor da narrativa. Também ela, a italiana, é mostrada quase como uma caricatura. Praticamente sósia da jornalista, a atriz é Maria Rosaria Omaggio.

Não se encontra em Walesa a busca da objetividade dos filmes que fizeram de Wajda um cineasta especial. Não são mostradas as sutilezas específicas das posições assumidas ora para um lado ora para o outro – Berlim, Moscou - pela população extremamente católica e conservadora de um país europeu complexo, estado tampão histórico que primou por governos puppets, país pivô geopolítico agora transformado em parque de guerra do governo dos EUA - prisões americanas secretas, concentração de mísseis da Otan, pistas autorizadas para pouso e escala de vôos de prisioneiros ilegais –, alinhado com a direita dura europeia; país de emigrantes.

Os discursos do líder exortando os trabalhadores às greves soam obscuros, e os caminhos que ele percorre nos intervalos entre as várias detenções, também. Quem o financiava? Quem o auxiliava a sustentar a família numerosa? Como era sua sobrevivência? E as notícias que hoje surgem, de ser informante da polícia? Sem o rigor da criação presente em filmes de colegas seus de geração - alguns deles só um pouco mais moços -, Ettore Scola, Mike Leigh, Ken Loach, Costa Gavras, Scorsese, Clint Eastwood, Polanski, e com certa benevolência política, mesmo assim Wajda merece respeito. O melhor de Walesa dá-se na ênfase à persistência da luta. “ A pessoa tem que ter muita raiva para saber controlar sua raiva”, Lech Walesa costumava dizer, se referindo a um dos recursos para chegar ao sucesso da ação.

A personalidade narcísica exaltada do Walesa histórico ( ele hoje diz: ‘‘eu ajudei a construir este novo mundo.”) ainda fascina pela determinação em acelerar o rompimento com um sistema já deteriorado pelos resquícios da herança stalinista. Com seu filme Wajda quer resgatar esse fascínio para as gerações que vieram depois.

Mais para frente o futuro e provavelmente outros filmes dirão com mais clareza o que valeu a pena no esforço de Lech Walesa para a construção desse mundo.

*Jornalista

 

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