Sofia Coppola e o cinema da vulgaridade

 

La Maria Aaro Reis *

 

A primeira ideia foi escrever sobre o mais recente filme de Sofia Coppola exibido no Brasil, Bling Ring: a gangue de Hollywood. O cinema da filha do chefão Francis Coppola sempre nos interessou. Desde As virgens suicidas, uma história trágica da repressão, provincianismo e ignorância ao estilo tea party, e da hipocrisia e puritanismo vindos dos Estados Unidos “profundos”, na qual todas as cinco lindas e louras filhas de uma família de Michigan se matam, uma a uma, suavemente.

 

Depois, foi a vez do excelente Encontros e desencontros, filme desconcertante, de tempos mortos, reticências, frases inacabadas, uma passividade deprimida e a desconexão dos fusos (horários). A história se passa em Tóquio, com dois americanos hospedados no mesmo hotel e recém chegados ao Japão. O jet lag permanente, um certo mal estar, e, novamente, o tédio da vida e dos dias que escorrem sem sentido. O telefonema do ator/celebridade para a mulher, que está em Los Angeles, do outro lado do mundo, no qual o casal discute a cor que a ser usada num tapete novo da sua sala é a medida da vulgaridade do que, no passado, tinha o nome de american way of life.

 

Tema semelhante, Sofia Coppola retomou em Maria Antonieta, uma cinebiografia livre da última rainha da França. Ali, ela escaneia inteligentes detalhes de época mesclados aos do tempo de agora: frivolidade, sapatos Louboutin, bufês gastronômicos de grife. O filme foi odiado pelos franceses. Não gostaram que a americana abusada esquadrinhasse ao seu modo os sagrados salões de Versailles. Luxo? Ou vulgaridade?

 

Um lugar qualquer é dos filmes de Sofia Coppola que mais apreciamos. Passa-se no lendário Château Marmont, apart hotel refúgio temporário de celebridades, em Los Angeles. O protagonista é um jovem ator de grande sucesso, uma das tais celebridades, imerso na melancolia chic em que vive. Sempre o tédio e o vazio. Recebe como hóspede temporária a filha adolescente e a vida começa a mudar a partir daí. No final aberto deste filme, Sofia usa um recurso batido, mas que nem por isso perde a força (desde que bem utilizado, como é o caso), visto diversas outras vezes. Aqui, me fez lembrar o final de Teorema, de Pasolini, não fosse ela uma cineasta americana com cabeça europeia. O ator Massimo Girotti, que faz o protagonista, Giorgio, caminhando nu pelo deserto na busca vã do sentido da existência.

 

Um lugar qualquer estourou no circuito internacional, três anos atrás, quando ganhou o Leão de Ouro de Veneza.

 

Então, como dissemos no inicio, comentaríamos Bling Ring. A vulgaridade da nossa época vista pelo cinema. Mas me cai nas mãos um artigo de recente exemplar do Cahiers de Cinéma justamente com o título De La vulgarité, de Dork Zabunyan. Nele, o autor se refere a qual filme? Justamente ao mais recente de Sofia Coppola.

 

E a outros também: A grande beleza, de Paolo Sorrentino, exibido no Festival de Cinema do Rio deste ano, com lançamento programado para dezembro próximo. Spring breaks e Clip – não exibidos nos cinemas e ainda sem título em português – e vai até Ginger e Fred e o cinema de Fellini.

 

O tema é quente: a vulgaridade. Antes, era predicado dos então chamados novos ricos, que hoje instituídos perderam a classificação irônica de novos. São os ricos. Das celebridades que continuam fazendo do mundo um cada vez maior e espantoso espetáculo – o maior espetáculo da terra, protagonistas do célebre livro A sociedade do espetáculo, de 1968, do francês do chienlit Guy Débord. A vulgaridade se insinua por todas as frestas das estruturas das classes médias. No modo de comer. Na gastronomia pretensiosa dos restaurantes procurados para ver-e-ser-visto e nos cursos de vinho promovidos pelas enotecas. Nos shoppings de luxe, nas grifes, nos carros dourados dos jogadores de futebol e dos empresários da Forbes. Nos salões de cabeleireiro, academias de ginástica, spas e congêneres que não param de anunciar novos métodos para embelezar e rejuvenescer a embalagem. No vocabulário de algumas dezenas de palavras, restrito e precário. No modo de falar aos berros, de se dirigir aos demais (principalmente se são menos ricos ou pobres) com arrogância. Na exibição. Nas discotecas, no modo de vestir salpicado de brilhos, penduricalhos e espalhafato. Nas atitudes grotescas dos turistas brasileiros em viagem – guardanapos na cabeça, um capítulo à parte. E muita champanha, de preferência rosé.

 

O cinema está atento ao grande guinhol.

 

Bling Ring é um pouco documentário. A gangue de Hollywood existiu. A história é real. Coppola comprou os direitos da reportagem publicada na Vanity Fair e fez o filme: um grupo de garotos de Los Angeles, loucos pelo mundo das celebridades – e da vulgaridade – que assaltam suas mansões para roubar acessórios de marcas milionárias.

 

A herdeira dos hotéis Hilton aparece de relance numa sequência. Seu narcisismo é patológico, o seu modo de cultivar-se a si mesma e afagar-se. Penduradas nas paredes da escada da casa de Hilton, invadida pelo bando, uma inacreditável coleção de suas fotos publicadas na capa de revistas ocas, cuidadosamente dispostas e emolduradas. O closet das celebridades, apresentado, é um elogio exasperado da frivolidade, desperdício e mau gosto. Vulgaridade. O significado etimológico da palavra, vulgus, relacionado à multidão e ao homem comum (os pobres) foi desviado. “O cinema,” diz Zabunyan, “confirma um estado de coisas que vai além do que vulgaridade significa – o comportamento das classes populares. Hoje ela cristaliza a arrogância dos ricos ou daqueles que aspiram a sê-lo.”

A Grande beleza está indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Compete com o brasileiro (excelente) O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. Não assistimos, mas a imprensa romana e toda crítica italiana recebeu-o como uma ode ao avesso a uma doce vida romana dos primeiros anos da década de sessenta. Parece ser outra ode. Triste e crítica à mediocridade e à Itália vulgar de Berlusconi. Sorrentino fala da centralização e da concentração das riquezas na Europa.

Lá atrás, a vulgaridade já era mostrada por Fellini, em especial em Ginger e Fred, com o mundo barato da tevê visto por dentro, dos bastidores: “O olhar vazio dos espectadores, a interrupção contínua da publicidade, o exercício do zapping – tudo que horrorizava o cineasta”, lembra Zabunyan.

 

Clip e, sobretudo Spring Breakers fazem parte também desse cinema da vulgaridade. O primeiro, de uma cineasta sérvia, Maja Milos, rodado nos subúrbios de Belgrado. O segundo, do americano Harmony Korine (diretor de um filme brutal, Kids, sobre garotos drogados de Nova Iorque), feito nas praias da Florida. Em ambos é tratada a vulgaridade já inoculada nas novas gerações de jovens de todos os quadrantes. Além da vulgaridade ambiente, a vida rasa com celulares, tablets, facebook, tweets e fotos, muitas fotos de si mesmos - até urinando, transando, até se masturbando.

 

Pouco mais de um mês José Mujica, o presidente do Uruguai, fez um discurso surpreendente na 68a. Assembleia Geral da ONU. O que ele disse está rodando o mundo, até agora, na Internet. Alguns trechos:

“Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até auto-exclusão”... “A humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade.”

 

No mesmo tom, comentaram os sites, sublinhou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “O certo hoje é que para a sociedade consumir igual a um americano médio seriam necessários três planetas. A nossa civilização montou um desafio mentiroso”.

E concluiu: “Precisamos cultivar mais a sobriedade de vida e aliviarmo-nos das bagagens que carregamos”.

É isto aí: mais simplicidade, mais estilo e menos vulgaridade. Tarde demais ou ainda dá tempo?

 

* Jornalista

 

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