Relatos de um mundo selvagem

 

 

La Maria Aaro Reis*

 

 

Relatos selvagens, magnífico filme de seis episódios – ou contos- é como se chama, no Brasil, o filme argentino 'Relatos Salvajes', de 2014. Seria mais justo se a obra de Damián Szifron traduzida tivesse ganhado o título de Relatos de um mundo selvagem. O universo que se insiste em ser definido, com hipocrisia, de civilizado, e no qual estamos mergulhados hoje, antes já não era um mar de rosas. Agora, cada vez mais ele se mostra brutal, bárbaro e grosseiro na política, na economia, nas finanças, nas escolas e universidades, nas relações afetivas e sexuais, em todas as atividades individuais do dia-a-dia do cidadão, e na intimidade da casa e família.

 

É disto que o filme trata. Do momento de fúria em que os indivíduos ‘perdem a cabeça’ ou ‘perdem o controle’ e reagem à sopa sem fim de violência, arbitrariedade, indiferença, de pequenas ou imensas traições e ao caos em que se vive.

 

A atriz Erica Rivas, protagonista de um dos mais emblemáticos episódios ou contos morais deste filme - que ganhou lugar em quase todas as relações da crítica de melhores do ano-, a história da festa de casamento, quando esteve no Brasil há um mês para divulgar o filme aqui, disse que é raro um longa-metragem fazer tanto sucesso em seu país como ocorre também no Brasil onde ele está em cartaz há mais de mês com boas bilheterias.

 

É mais uma prova, com outro filme igualmente em cartaz, Sétimo, do diretor e roteirista Patxi Amezcua, co-produção espano/argentina com Ricardo Darín, que reforça a trajetória brilhante de excelência do cinema argentino – no caso, do cinema falado em espanhol.

 

Relatos foi o único latino-americano a disputar a Palma de Ouro em Cannes neste ano e tentou uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro. Não conseguiu. Mas nem o diretor nem a atriz parecem dar muita importância ao grande prêmio de Hollywood. Houve alguma frustração de não ganhar alguma gratificação oficial em Cannes, mas concorrer à Palma de Ouro já foi vitória e reconhecimento para a equipe do filme. "Sabíamos que era pouco provável ganhar algum premio. Latino-americanos que não falam de pobreza e ainda fazem comédia? Difícil ocupar esse lugar", frisou Erica.

 

Szifron, diretor de 39 anos, escreve para o cinema e para a televisão argentina. Outra prova que a TV pode ser criadouro de roteiristas versáteis, inteligentes e talentosos transitando pelas duas linguagens, por ambas dramaturgias de audiovisual com qualidade artística. Ele também foi indagado nas entrevistas que concedeu em São Paulo sobre o segundo tema de Relatos - a vingança. Na verdade, o primeiro, o básico, é a fúria humana.

 

“O tema é universal e está muito presente no filme. A vingança está ligada à imaginação de maneira bastante natural,” disse. “É algo que poucos concretizam. Mas com que todos sonham." Na sessão em que assistimos ao filme, ouviram-se vários ‘bravo!’ catárticos de espectadores no final do episódio em que o engenheiro se vinga e ‘chuta o balde’ com grande estrondo diante da burocracia, da injustiça e da indiferença a que o cidadão (no caso, ele próprio) é submetido no labirinto kafkaniano das ruas da grande metrópole.

 

O humor cáustico e amargo destes tragicômicos relatos começa, no filme, num tom superior, em uma introdução de narrativa redonda, com ritmo cinematográfico notável: a historieta de um aspirante a músico – cujo rosto o espectador não conhecerá nunca; mas um personagem que certamente é bem familiar - reunindo todos os seus desafetos em um só lugar, confinados na cabina de um avião em voo, para deles se vingar pelas pequenas grandes safadezas das quais foi vítima de todos, desde que nasceu. Incluindo os pais, os únicos em terra, lendo jornal em uma amena manhã talvez de domingo. Narrativa extraordinária.

 

Segundo relato de Szifron: um dia, uma garçonete tem a chance perfeita de se vingar do homem brutal que arruinou a sua família, no passado, misturando veneno de rato na sua comida sem deixar pistas.

 

O seu terceiro conto narra uma briga de trânsito numa rodovia deserta que termina irracional, em luta de morte, com dois esqueletos entrelaçados que se enfrentaram, sem trégua, até o último minuto.

 

Em seguida, a narrativa de um engenheiro (o ator Ricardo Darín, como de hábito, perfeito) indignado com uma multa indevida que deve pagar, e a burocracia sem limites do detran de Buenos Aires, arriscando tudo – emprego, família, a vida inteira - para que a justiça se cumpra. Ela, é claro, não se cumprirá, porém o vingador termina realizado.

 

Num crescendo, e com ritmo empolgante, o penúltimo conto moral apresenta a sordidez do milionário que tenta livrar o filho da cadeia após um atropelamento em que o rapaz atinge uma mulher grávida e foge sem socorrê-la. Mas o custo do dinheiro que ele gastará para comprar polícia, advogado, testemunhas e, o pior, que acontece tão freqüente, de comprar e transformar o velho caseiro num laranja bêbado e culpado pelo acidente vai ficando alto demais, na sua tabela de valores. Quanto valerá, afinal, a vida do filho? O milionário perde a paciência; manda a família se virar sozinha. Moral: de qualquer modo quem paga o pato é o caseiro pobre.

 

O último conto é pequena obra prima: uma noiva (a fascinante atriz Erica Rivas) descobre a traição amorosa do seu recentíssimo marido em plena grande celebração burguesa do casamento há pouco oficializado. A moça ‘perde o controle’ e com ele perde também a cabeça, o penteado, a compostura, o vestido, os sapatos, o bolo de casamento e arruína a custosa encenação da festa. Termina sendo consolada por um jovem chef contratado para o banquete e transando com ele. Aqui, as coisas terminam em pizza regada à champanha da festa.

 

Os toques de absurdo e de humor negro de Relatos selvagens são uma homenagem ao cinema de Pedro Almodóvar. Ele, com seu irmão, Augustin, não por acaso é produtor do filme de Szifron. Mas este não é tão caricato quanto o trabalho do espanhol e por isto atinge fundo o espectador indo mais além na crítica psicossocial. Para o argentino, os ricos se transformam em monstros quando precisam meter a mão no bolso até quando se trata de salvar a pele de um filho; não hesitam em usar e manipular os mais pobres. Para ele, os controles sociais, por mais azeitados que sejam não conseguem extirpar da alma humana o sentimento imperioso de fúria e o desejo incontrolável de vingança que afloram em momentos decisivos.

 

Mas o perturbador da moral, aqui, remete a Albert Camus. É a insinuação que Szifron deixa no ar para o espectador resolver – ou não.

 

Ao se enfurecer para satisfazer o desejo incontrolável de vingança o indivíduo experimenta o (único?) genuíno sentimento de ser absolutamente livre. Mesmo que o preço a pagar por essa liberdade autêntica e sincera seja a clausura e o cárcere.

 

 

*Jornalista e autora de Novos velhos, Maturidade e Além da idade do lobo.

 

 

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