Oscar safra 2011. Por Léa Maria Aarão Reis.

A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor. Por Clemente Rosas.

As luzes do Festival do Rio 2010. Por Léa Maria Aarão Reis.

Dorian Gray: a busca da eterna juventude. Por Maria das Graças Targino.

Verdades perigosas e inquietantes. Por Léa Maria Aarão Reis.

Preciosa sem amor. Por Maria das Graças Targino.

Para onde vai o cinema? Por Léa Maria Aarão Reis

Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

O Festival de Cinema Rio 2009 sobe o morro. Por Léa Maria Aerão Reis.

Gramado: festival de dois países. Por Léa Maria Aarão Reis

O menino do pijama listrado. Por Maria das Graças Targino.

A hora dos documentários. Por Léa Maria Aarão Reis.

Woody Allen, Velho e Lúcido. Por Léa Maria Aarão Reis.

Este mundo não é mais um pandeiro. Por Léa Maria Aarão Reis.

A verdade é tudo. Por Léa Maria Aarão Reis.

Nos rastros do Oscar. Por Léa Maria Aarão Reis.

Sobre Bergman e Antonioni: o que faz valer a pena viver a vida. Por Léa Maria Aarão Reis.

Fest Rio 2007: filmes livres e sem fronteiras.

Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

De Eastwood a Benjamin: coincidências que não são coincidências. Por Léa Maria aarão Reis.

O festival de cinema do Rio de Janeiro 2006.

A resistência do cinema latino-americano: Viva o Sul Nu e Cru, por Léa Maria Aarão Reis.

O Segredo de Brokeback Mountain.

Cinema no outono de Paris. Por Léa Maria Aarão Reis.

O bom cinema vem do Oriente. Por Léa Maria Aarão Reis.

Casa de Areia: a imensa solidão feminina. Por Maria das Graças Targino.

Androgenia e o travesti no cinema. Por Eduardo Vivacqua.

Uma crítica por dia. Léa Maria Aarão Reis escreve sobre o livro de Moniz Vianna.

Um mapa para o festival.

O Senhor dos Anéis e o desprezo pelas mulheres. Por Clarissa Passos.

Moacy Cirne aponta os 100 filmes emblemáticos do Sec. XX.

Madame Satã - O cinema sem gênero, por Clarissa Passos.

Léa Maria diz porque valem a pena o teatro de Aderbal Freire Filho e o cinema de Majid Majidi.

Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
Explore esses dois sites:
http://www.imdb.com
http://www.cinema-sites.com

IRRESISTÍVEIS REALIDADES

Léa Maria Aarão Reis

 

Perversamente fascinante, e atraentemente perigosa e insegura, as nossas realidades hoje. Nelas, parece haver pouco espaço para a fantasia e para a imaginação, artigos que daqui a muito pouco podem vir a cair em desuso, como um luxo que, fora de época e de lugar, não chega mais a mostrar a força escapista de antes e agora sabe mais a mofo que às suaves alfazemas de um passado cada vez mais anacrônico.


No rastro do vórtex das notícias cuspidas atropeladamente, de manhã e à noite, pelas mesmas vozes e pelos mesmos rostos dos talking heads clonados (iguais na entonação, atitude e trejeitos), nas rádios e nas telas de TV, fica a depressão permanente e resta a ansiedade tratada a generosas doses de lexotan.


O que consumimos _ no caso, filmes _ é nossa própria realidade reciclada, a História revista e remexida, na tentativa esforçada de procurar entender o que começou a ocorrer, depois da ruptura de 11 de setembro e do que está ainda vindo depois. Quais os monstros que escaparam da caixa de Pandora dos fundamentalistas, como diz o escritor paquistanês Tarik Ali _ dos que vêm do Islã, do lado de lá, e os do império americano, daqui, bem sobre a nossa cabeça, acima da grande fazenda sul-americana.


Os filmes mais vistos nos recentes festivais de cinema do Rio e de São Paulo mostram isto: como as realidades de agora são irresistíveis. Platéias superlotadas, estudantes sentados no chão, algumas sessões seguidas de mesas redondas e de debates sobre os temas apresentados. Doses cavalares de realidade.
Ou seja: Um Casamento à Indiana e O Caminho para Kandahar, Promessas de um Novo Mundo, Édem, Terra de Ninguém, Que Vivam As Mulheres, Timor Lorosae _ o Massacre que o Mundo não Viu, ABC África, Crianças (Kosovo 2 000), o brasileiro A Vida em Cana _ e , lembrando de outro filme brasileiro, Os Nordestinos, em cartaz há uma boa dúzia de semanas no Rio.


Estes são os novíssimos filmes blockbusters, quem diria, os que arrasam quarteirão.


São documentários, semidocumentários e filmes documentais, e procuram mostrar as dolorosas, absurdas, ás vezes indecifráveis realidades da Índia, do Afeganistão, de Israel, da Palestina, da Bósnia, do Timor Leste.


Correndo paralelamente, a recriação das realidades: o amoroso italiano Ettore Scola chega com Concorrência Desleal; o americano sem piedade Daren Aronofosky apresenta-se com o terrível (e temível) Réquiem Para Um Sonho, _ este, um must, mas para estômagos blindados e para viciados de toda espécie _ e Stephan Frears revisita mais uma vez a sua amada Irlanda, em Liam.


Sintomaticamente, as mostras retrospectivas dos dois festivais agendaram os magníficos filmes políticos, o cinema ideológico de Francesco Rossi (novo em folha; O Caso Mattei, por exemplo, aula clara de introdução ao curso para os que procuram entender como e porquê o planeta desembocou na atual enrascada), e do cineasta feliniano, o iugoslavo Emir Kusturica, cujo documentário Memórias em Super-8, trajetória da fascinante banda de rock cigano a que ele pertence, ainda não veio para o Rio _ ficou por enquanto apenas em São Paulo.


Como curiosidades, duas vinhetas: em Édem, do israelense Amos Gitai, vemos Arthur Miller como ator, fazendo o pai. O filme foi inspirado na sua novela The Homeless Girl.


E no emocionante O Caminho para Kandahar, do festejado iraniano Monhsen Makhmalbaf, quem foi hippie ou para-hippie nos fim dos anos 60/início dos 70 e por algum motivo se encontrava na Europa, com certeza vai lembrar que uma das mecas das viagens feitas na época, que partiam de Istambul, era, além de Katmandu, Mahzar-el-Sharif (de onde vinha o melhor haxixe produzido no Oriente) e Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão. Nomes familiares que atiçam recordações. Tênues lembranças de um mundo que desapareceu diante dos nossos olhos abismados.
Mas aí chega o cineasta Luiz Fernando Carvalho, maduro, grande poeta da imagem, com um primeiro filme, e inscreve seu trabalho na pedra dos maiores brasileiros de todos os tempos. Lavoura Arcaica, inspirado em outro poeta escritor, Raduan Nassar, este agora sendo, através do cinema, redescoberto _ ótimo que seja assim.


Luiz Fernando, com um cinema zen e tão teimosamente brasileiro, força a passagem para a fantasia, a imaginação, a beleza lírica sem pudor. E elas desfilam, no seu magnífico filme, por entre os destroços das nossas miseráveis e irresistíveis realidades. É bom prestar atenção no que diz Carvalho, apresentando o seu Lavoura Arcaica: "No mundo de hoje, decreta-se diariamente a morte da imaginação, como se imaginar fosse o mesmo que agredir a realidade. Imaginar causa medo, pois é em si mesmo um ato de liberdade, de transgressão, de cidadania, ato perigoso".


Numa direção ou noutra, sejam a da realidade ou da ficção, não deixem de ver pelo menos alguns destes títulos sobre os quais costuramos estas modestas anotações.


Em qualquer cidade do mundo, em algum cinema, estes filmes estarão sendo exibidos. Mas é prudente, se o caso for viajar, e vê-los logo. Ninguém garante o dia de amanhã.

 

(voltar ao topo)