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por Léa Maria Aarão Reis.

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PRECIOSA SEM AMOR

 

Maria das Grašas TARGINO*

Negra. Obesa. Pobre. Feia sem pudor. Sem presente. Sem futuro. Eis a história de Claireece Precious Jones, interpretada pela estreante Gabourey Sidibe, protagonista do filme norte-americano Precious ou Preciosa, em português (2009), com 110 minutos de duração, baseado no romance Push (ano 1996), da poeta Sapphire, pseudônimo de Ramona Lofton.

Sob a direção de Lee Daniels, a história se passa em 1987, no romance e no filme. Nascida e criada no Harlem, a vida de Preciosa parece sem valor e sem cor. Tudo é cinza. A violação do pai (Rodney Jackson), sob o olhar complacente da mãe (a comediante Mo'Nique), desde seus três anos, a gravidez da primeira filha com síndrome de Down, e, pior, do próprio pai, aos 16 anos. Com dificuldades de aprendizagem, nova gravidez é determinante para seu encaminhamento a uma escola alternativa para jovens com problemas.

A mãe sem coração de mãe vai muito além... Desenvolve intenso rancor contra a própria filha, a quem acusa de roubar seu homem e disputar sua atenção, leia-se, sexo carnal e infame. Agride seu corpo com golpes freqüentes e intensos. Fere sua alma com injúrias, palavrões e ofensas incontáveis. Escraviza a filha, encarregada de todos os serviços domésticos, enquanto dormita por todo o dia no sofá sujo, em companhia do gato, da TV, do cigarro e da bebida. Explora a filha, mantendo-se com a pensão destinada à neta (cruelmente apelidada de Mongo), entregue, na verdade, à avó de Preciosa. Esgota o amor próprio da filha a cada hora, taxando-a de incompetente para aprender o que quer que seja, e, ao mesmo tempo, negando a importância da educação para o que quer que seja.

Mas, a adolescente negra, obesa, pobre, feia sem pudor, sem presente e sem futuro desenvolve estratégia de sobrevivência nas horas mais intensas de dor e humilhação. Vê-se como bela – quase sempre, branca e magra. Sonha com o amor do professor de matemática. Reconhece-se em palcos como pop star, cercada de aplausos de uma audiência encantada por sua magia. Visualiza a mãe como mulher terna e doce. Estes momentos de belo espetáculo onírico amenizam a aridez e a tristeza do relato. Transportam-nos a um mundo de sonhos, de magia e até de humor.

Sem opção, sua ida ao colégio de “escórias”, surpreendentemente, representa uma luz no túnel escuro. Pouco a pouco, a professora Rain (Paula Patton) desvenda sua alma.

Transcorridos os primeiros momentos de tensão – apesar de passiva à violência da mãe, Preciosa revida às provocações fora de casa com furor –, as colegas se aproximam e a aceitam. Aliás, este é o retrato fiel do que se dá na vida. Em geral, quem é ultrajado, quando posto em qualquer situação de pretensa superioridade, maltrata com vigor. E em vez da imundície da cozinha de sua casa, com a mãe a agredi-la a pontapés, o parto do segundo filho se dá num hospital com as colegas e Rain ao seu lado.

Sem opções onde colocá-la com o bebê, a professora a deixa em casa de sua companheira. Este é um dos momentos de maior beleza do filme: o homossexualismo da mestra (com coração de mestra) é insinuado, com respeito e sutileza, evidenciando que as pessoas são a essência e não sua condição sexual.

Com a morte do pai, sempre ausente, vítima de AIDS, Preciosa descobre ser portadora do vírus HIV. No entanto, depois do primeiro momento de desespero, deixa aflorar sua força interior e sentimento intenso de maternidade. A assistente social, interpretada, com esmero, por Mariah Carey, consegue revelar as profundezas de seu sofrimento e a livra, por fim, da crueldade da mãe. E eis, então, Preciosa a carregar seus filhos pelo caminho da vida... Não há redenção total, uma vez que dificilmente um ser humano se livra das marcas indeléveis de tanta dor... De qualquer forma, é evidente que Precious, de forma inédita, recorrendo a imagens, algumas vezes, perturbadoras, e à iluminação sombria (como a vida da protagonista), termina por denunciar, com honestidade e intensidade extremas, a situação dramática dos negros americanos, sitiados em guetos. Consensualmente, índice significativo, em torno de 25%, vive em estado de miséria, com uma rotina que clama pela melhoria do sistema educacional, habitacional, ocupacional e de saúde. Prosseguem com salários aquém da população branca, mas estão bem além, quando o tema é a criminalidade, ocupando espaço significativo nos presídios.

Por sua denúncia nada silenciosa, Preciosa se transforma na grande surpresa cinematográfica do ano de 2009. Apesar de não ter alcançado qualquer Oscar, o segundo filme de Lee Daniels (o primeiro cineasta de cor negra indicado para o grande prêmio) recebeu quatro indicações: melhor diretor, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante (Mo'Nique), melhor montagem. Na linha da premiação, foi o grande vencedor do último Festival de Sundance, além de ganhar o Prêmio do Público do Festival de San Sebastián e vencer no Toronto International Film Festival – People's Choice Award.

O sucesso advém do realismo surpreendente e sem recortes, e um pouco, talvez, do envolvimento de Oprah Winfrey e do cineasta Tyler Perry, seus produtores executivos. Sua participação mostra que, de uma forma ou de outra, a vida da menina negra, obesa, pobre, feia sem pudor, sem presente e sem futuro é a vida de muitos outros seres, perdidos nos desvãos da vida: ambos padeceram as penúrias da pobreza e sofreram abuso sexual. Aliás, o próprio diretor admite conhecer de perto grande parte das penúrias de sua protagonista, uma vez que, sem sofrer abuso sexual, foi vítima de freqüentes maus-tratos físicos. Fica então a pergunta: “[...] por que nos custa tanto acreditar em histórias tão impactantes, quando as notícias nos mostram, a cada dia, situações ainda mais inacreditáveis?”

(PRECIOUS, 2010, p. 3). FONTE: PRECIOUS. [3 nominaciones Globos de Oro…]. Salamanca: Cines Van Dyck, 2010. 4 f. f. 3

FICHA TÉCNICA Direção Lee Daniels

Atores Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Rodney Jackson, Paula Patton, Mariah Carey Roteiro Geoffrey Fletcher

Produção Lee Daniels, Gary Magness e Sarah Siegel-Magness

Música Mario Grigorov

Fotografia Andrew Dunn

Direção de arte Matteo de Cosmo

Figurino Marina Draghici

Edição Joe Klotz Efeitos especiais LOOK! Effects

 

*Jornalista e pós-doutora em jornalismo, Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

 

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