NA TELA DE PARIS

 

La Maria Aaro Reis*

São cerca de 300 filmes exibidos por semana, em Paris, o que inviabiliza um guia cinematográfico nos jornais diários. Duas revistinhas semanais se encarregam do assunto – Telérama e Pariscope - e oferecem o mapa das estreias e pré-estreias, ciclos, reprises, seminários, retrospectivas e sessões especiais com autor, que são frequentes, e filmes de todas as partes do mundo. Isto ocorre apesar da pressão dos blockbusters globalizados: há sempre pelo menos um deles em cartaz nos cinemas multiplex dos grandes bulevares e do Champs Elysées atraindo turistas em pacotes e as grandes plateias. Mas a festa do cinema acontece mesmo é nos cinemas pequenos, nos studios de Saint Germain e do Quartier Latin, e na periferia da cidade.

Nas noites de fim de semana as filas são imensas e todos os cinemas ficam bem cheios, com raras exceções. Os franceses adoram a sétima arte e há horários para todos. As sessões começam ás 10, 11 da manhã (você pode tomar café e zarpar para ver um filme) e vão até de madrugada. A projeção, em cinemas pequenos, médios e grandes é sempre de primeira qualidade. O som também. As poltronas são confortáveis, sem as frescuras que os americanos inventaram para o espectador ver o filme praticamente deitado, comendo sacos enormes de pipocas e até, às vezes, copiosas refeições. O espectador acaba se transformando no indivíduo corretamente adaptado ao mundo de hoje: um consumidor.

No hall dos cinemas são vendidos apenas água, refrigerantes e um ou outro biscoito. Em Paris, cinema é lugar sagrado para assistir filmes. Uma beleza para os cinéfilos dos quatro cantos do mundo que procuram a cidade com o objetivo de assistir o maior número possível de produções que, muitas vezes, não serão exibidas em seus países de origem.

Em pouco mais de uma semana de fim de outono, quente, véspera de início de inverno vimos:

- Era uma vez na Anatólia, o mais recente filme do turco Nuri Bilge Ceylan, longo, de duas horas e meia, com poucos diálogos e de extraordinária beleza. Um filme inquietante. Ganhou o Grande Premio do Festival de Cannes deste ano onde Ceylan é um nome reconhecido - não só lá, mas em toda Europa. Seu excelente filme Os três macacos foi exibido no Brasil e, volta e meia, é mostrado na TV. O fio de história se passa nas estepes desoladas e paupérrimas da região turca da Anatólia e o filme acompanha um comboio de carros que erra por desertas e intermináveis estradas da região. No grupo, um procurador, um médico legista, um assassino e alguns policiais em busca do local onde um homem morto foi enterrado. Mas o assassino não lembra direito do local em que enterrou o homem e então o grupo segue, durante dois dias, na procura. Através de diálogos lacônicos o espectador acaba conhecendo situações limite do passado da vida destes homens. O belo filme, originado de um romance do escritor Ercan Kezal, termina na longa e corajosa sequência de uma autópsia. O filme é uma autópsia da alma. Nem triste nem dramática. Apenas a alma é, diz Ceylan em seu filme.

- Habemus Papam, de 2011, é do italiano Nani Moretti. Produção deste ano, causou furor no verão e também foi mostrado em Cannes. O Vaticano tentou boicotá-lo junto aos católicos, mas decidiu voltar atrás. Reforçaria a sua publicidade. Como disse Moretti na ocasião: “As pessoas podem boicotá-lo depois de vê-lo”. O filme é uma comédia dramática demolidora, muito louca, na qual o protagonista, certo cardeal Melville, apagado, sem carisma e bastante contrafeito, é eleito Papa. A grata surpresa é assistir Michel Piccoli, com 85 anos, fazendo o personagem do cardeal em crise existencial. Estupendo. A história é do próprio Moretti: violentamente irônica, absurda, às vezes demasiadamente caricatural. Mas é um retrato da fragilidade humana e do homem perplexo diante das imposições. Tem um final excelente.

- Um dos cartazes mais interessantes é o documentário Khodorkovski do jovem alemão Cyril Tuschi, de 42 anos. Retrata a trajetória do oligarca russo Miklail Khodorkovski, uma das maiores fortunas de seu país, ex-dono da Yukos, a poderosa petroleira russa e o mais famoso preso político do governo Putin. Atualmente ele cumpre uma segunda pena na Sibéria por mais sete anos.Aproximando-se as eleições no país, avolumando-se denúncias de fraudes nas eleições primárias e com o anúncio de novamente Putin disputar a presidência (no total por mais 12 anos), o que provoca gigantescas manifestações de protesto, nas ruas, este filme de Tuschi ganha uma nova dimensão. Khodorkovski tenta responder ao enigma que representa este magnata que se diz socialista: vivia em Londres, sentado sobre um patrimônio de dois bilhões de dólares, e por que teria voltado à Rússia sabendo que seria preso? O filme é bem construído e antecede o próximo trabalho de Tuschi, o drama de Julian Assange e a história do Wikileaks. Outro tema fantástico.

- La femme du Vème acaba de sair do forno e ainda não tem título em português. É o quarto filme do polonês radicado na Grã Bretanha, Pawel Pawlikowski, um darling dos ingleses, baseado no romance de Douglas Kennedy. Tem um Ethan Hawke admirável fazendo um escritor paranoico, uma Kristin Scott-Tomas poderosa no papel de mulher fatal, e apresenta uma Paris estranha, hostil, ameaçadora e raras vezes vista no cinema. O oposto da cidade luz cintilante e amigável de Woody Allen. O filme, um thriller psicológico absolutamente enigmático, como diz um crítico francês “poderia ser um dos primeiros filmes de Polanski”, antes do diretor de O Bebê de Rosemary se tornar mais comercial por lembrar o cinema do leste da Europa. A crítica se divide em torno dele. Mas vale uma conferida.

- As Neves do Kilimandjaro, clara alusão ao filme de Henry King, é do franco-armênio de Marselha Robert Guédiguian, conhecido no Brasil por A cidade está tranquila e Viagem à Armênia. Um diretor sui generis que merece sempre ser visitado. Militante comunista durante algum tempo, cineasta engajado, costuma filmar com sua mulher como protagonista, a conhecida atriz também franco-armênia, Ariane Ascaride. Este é o mais recente filme de Guédiguian que mais uma vez mostra o universo dos trabalhadores em Marselha – esta é, aliás, a origem da sua família. Discute a organização dos sindicatos, o engajamento político da classe operária e o desemprego crescente nas docas de Marselha. Aqui, a reflexão é sobre a atual jovem geração de operários que aos poucos vai sendo demitida de seus empregos, no bojo da crise econômica que varre a Europa. Sem trabalho á vista e sem perspectivas, na batalha pela sua sobrevivência e da família, esses jovens podem ultrapassar os limites da honestidade para mergulhar no crime, alerta Guédiguian que se inspirou num poema de Victor Hugo para fazer seu filme.

- Les Intouchables, produção francesa, é um filme bem feito, emocionante, um fenômeno que arrasta multidões aos cinemas franceses. Um mês atrás sua bilheteria era de 10 mil espectadores e as filas, intermináveis. Quem comemora é a dupla de diretores, Eric Toledano e Olivier Nakache e uma dupla formidável de atores franceses - François Cluzet faz o aristocrata tetraplégico depois de sofrer um acidente de parapente, e Omar Sy, ator de TV vindo da periferia de Paris, faz Driss, seu enfermeiro, um egresso da prisão. Uma história tocante e verdadeira protagonizada pelo milionário e principal ex-dono do champanha Pommery, o corso Philippe Pozo di Borgo, hoje vivendo no Marrocos, em Essaouira, e pelo seu enfermeiro e acompanhante, Abdel, também vivo. O filme é consequência de um livro escrito por di Borgo e com certeza fará estrondoso sucesso de bilheteria em todos os cantos.

No próximo ano, quem sabe teremos estes e outros tantos filmes nas nossas telas abrindo brechas na avalanche do lixo de produções embrutecedoras americanas e globalizadas. Que são tudo menos cinema.

*Jornalista

 

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