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Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
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ESTE MUNDO NÃO É MAIS UM PANDEIRO

 

Léa Maria Aarão Reis*

 

O título do filme de Oscarito, Este Mundo é Um Pandeiro , com certeza não se referia a um mundo em que os Estados Unidos e Israel ameaçam deflagrar nova guerra ás segundas, quartas e sextas, porque às terças, quintas e sábados são os miolos e as entranhas do planeta que explodem, estourados com o abuso ambiental em que vivemos e expressando-se, com freqüência cada vez maior, em arrotos de erupções, terremotos, furacões, tufões, tsunamis e desastres naturais. Hipocritamente, “naturais”.

 

Este Mundo É Um Pandeiro remonta a um tempo, hoje nos parece assim, de anos que se convencionou chamar de “dourados” – luminosos, perfeitos - em que as pessoas dançavam e cantavam pelas ruas, pelo menos da Zona Sul do Rio de Janeiro, transformadas, na época, em cenários de um imenso filme musical que nunca acabaria!

 

Embora – a gente esquece facilmente – o sofrimento humano, a miséria e o horror econômico fossem tão ou até mais cruéis que os de hoje, com os mais fracos, os insatisfeitos, e os mais pobres calados pela repressão – social e, depois, política.

 

Este Mundo é Um Pandeiro , no entanto, era um título que, pelas vias transversas, em leitura mais sutil, dava a dica para que não nos aborrecêssemos demais, para não nos preocuparmos tanto porque haveria sempre um pandeiro, ou seja, um traseiro, uma bunda maravilhosa desfilando na próxima esquina. Era um tempo em que as esquinas eram seguras e em que a palavra “pandeiro” significava também, nas conversas populares cariocas, nessas mesmas esquinas, uma bunda generosa.

 

No espaço de meio século things change. E, mesmo mudando para pior, na maioria dos aspectos, ainda bem que, em geral, as coisas mudam. Do contrário o tédio nos engoliria definitivamente.

 

Pois esses pensamentos – nem sombrios nem alvissareiros – nos ocorrem depois de lermos depoimentos inimagináveis naquela época “dourada”, na qual o mundo ainda era ... um pandeiro.

 

Relatos de jornalistas, críticos de cinema profissionais, assíduos em festivais, em eventos específicos da área, sessões especiais e pré-estréias de filmes que só depois serão mostrados para os restantes pobres mortais.

 

Vivemos, infelizmente, um mundo com uma realidade “orwelliana”, observa uma colega, depois de, no ano passado, participar do Festival de Cinema de Nova Iorque. Na sala de exibição de Onde os Fracos Não têm Vez, dos irmãos Cohen, era proibido entrar com bolsa, mochila ou celular. Durante a exibição do filme, ela relata, seguranças circulavam o tempo todo, com câmeras infravermelhas, vasculhando a sala, chegando a perturbar a atenção. No meio do filme, quando a jornalista precisou ir ao toalete, uma segurança (embora educada, ela descreve) pede permissão para acompanhá-la e se posta á porta, esperando-a, para depois reconduzi-la à poltrona.

 

Por que esse estado policial que de anos para cá chegou ao mundo dos filmes? Qual o motivo da truculência que também assolou Cannes, este ano?

 

Outro jornalista, mesmo não concordando com o tipo de constrangimento estilo aeroporto–norte-americano, diz que a regra é esta, hoje, em qualquer canto do planeta, para tentar coibir a pirataria – esse aparato policial intimidante tem por objetivo tentar bloquear cópias feitas à revelia, durante as exibições especiais. A pirataria, no entanto, vai continuar e nós, jornalistas, vamos continuar sendo revistados, diz ele.

 

Na sessão para a imprensa de Kung Fu Panda , em um cinema de rua de Cannes, durante o mesmo festival, eram vistos vários seguranças “nada amistosos, patrulhando as fileiras”, conta um terceiro colega. “Em 2006 vi uma jornalista entrar para assistir X-Men, o Confronto Final carregando dentro da bolsa um celular e ser retirada da sala por um segurança brucutu”. Era uma sessão num cinema de rua, alugado pela Fox para o evento.

 

Sucede no planeta todo, na Alemanha, na França, no Japão, atesta outro crítico de filmes, que conta: “Em Cannes, seguranças armados circulavam na sessão do mais recente Indiana Jones , este ano”.

 

E conclui: hoje, é assim, no planeta todo, quando se exibe, em pré-estréia, um filme tipo blockbuster.

 

Mas não são todos que se acomodam. Um crítico de filmes se rebela: “É nunca mais comparecer a cabines de imprensa desse estilo de filme. Não vou mais, e acho que ninguém deveria ir porque me recuso a passar pela humilhação de ter um celular confiscado e assistir ao filme com um segurança em pé, dentro do cinema, nos vigiando como se fossemos bandidos em potencial.”

 

Nessa hipótese, todos se unindo, os produtores de filmes não ficarão satisfeitos: ”Se ninguém fosse a essas sessões e não saísse uma linha sobre o filme, essa postura mudava rapidinho”, conclui o crítico.

 

A esse propósito, no convite para uma sessão especial para a crítica de O Incrível Hulk , em um cinema do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, lia-se a advertência clara, em alto e bom som:

 

“Aviso - Não será permitida a entrada na sala de exibição de pessoas portando telefone celular com câmera, máquina fotográfica, filmadoras ou qualquer outro equipamento eletrônico. Temos chapelaria no local, pois também não será permitida a entrada de bolsas, pastas, mochilas etc”. Assinado, Universal Pictures e Marvel Entertainment.

 

O mundo ingênuo de ontem – hoje o vemos ingênuo -, do adorável filme de Oscarito, no qual ele faz uma imitação antológica de Rita Hayworth, aliás comentada e admirada, na época, até em Hollywood, acabou.

 

Foi-se também a era da delicadeza.

 

No nosso mundo das tropas de elite, de milícias, pirataria, invasões, torturas, dos homens de preto infestando como moscas as ruas, as esquinas, portas e corredores de shoppings dos bairros classe média alta do Rio e de São Paulo, para nos “proteger”, nesse nosso mundo de seqüestros, assaltos, canos de armas à mostra, ás vezes fumegantes, de ARs-5 e balas tracejantes, nele não se sabe mais quem é quem, quem está de qual lado.

 

É o mundo do salve-se quem puder.

 

Pelo andar da carruagem, isto é, do míssil, até numa ida inocente ao cinema, daqui a algum tempo, teremos ao nosso lado um brucutu enchendo o saco. Ameaçador, com certeza ele vai soprar no nosso ouvido, para que a gente não esqueça que o mundo, meu caro, há muito tempo deixou de ser um pandeiro.

 

 

*Jornalista e autora de Maturidade, Além da Idade do Lobo , Cada um envelhece como Quer (Campus/Elsevier) e Saúde e beleza dos Seios (Record).

 

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