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Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Uma crítica por dia. Léa Maria Aarão Reis escreve sobre o livro de Moniz Vianna.

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Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
Explore esses dois sites:
http://www.imdb.com
http://www.cinema-sites.com

 

UMA CRÍTICA POR DIA

 

Léa Maria Aarão Reis

 

Uma das regras de ouro de cinéfilo que se preza é assistir um filme por dia, ao menos, embora para os mais radicais nada melhor que sair de uma sessão para , em seguida , entrar em outra .

 

Pois foi se referindo não apenas ao seu passado de crítico de cinema do extinto jornal Correio da Manhã - ele assistiu a um filme , diariamente, durante 27 anos -, e também lembrando o hábito dos apaixonados por cinema , que Antonio Moniz Vianna batizou o seu livro de Um Filme Por Dia .

 

O volume contém um bônus especial : o pequeno ensaio , à guisa de introdução , de Ruy Castro, ele também cinéfilo e um dos distintos discípulos de mestre Moniz. Não é à toa que a introdução de Ruy se chama Trailer - Moniz, Wagonmaster.

 

Um Filme Por Dia / Crítica de Choque (1946/1973 ), editado pela Companhia das Letras , é leitura obrigatória para quem curte cinema .

 

Moniz Vianna e o seu neto, Eduardo, também ele crítico de filmes, selecionaram 66 críticas escritas durante quatro décadas e publicadas em jornal. Elas são só um aperitivo para as mais de duas mil outras, publicadas a seu tempo, no Correio da Manhã. Isto torna Moniz o mais profícuo crítico de cinema do mundo.

 

Incrível também é que nessa viagem pelo cinema, através desse livro, ficam evidentes algumas coisas fundamentais. Falamos delas sem nostalgia – mas com alguma tristeza.

A primeira: décadas atrás, a crítica cinematográfica apresentava uma consistência que hoje não tem mais. E nem por isso era chata, pretensiosa nem vinha com ranço acadêmico. Ao contrário. Aprofundava a análise e era bem mais divertida que a de hoje – exceção de bons artigos sobre filmes publicados, sem regularidade, no caderno Mais, da Folha de São Paulo.

 

Segundo: o crítico – como no caso de Moniz – , em geral, era um intelectual, pessoa realmente erudita, que transitava, desenvolto, pela cultura greco-romana, pela mitologia, pelas artes, música, literatura, psicanálise, sociologia. Deste modo, as resenhas eram instigantes, informavam, provocavam e estimulavam o leitor. Não buscavam gracinhas sem graça nem efeitos especiais de texto embora, às vezes, fossem pinceladas com fina e inteligente ironia – o que hoje também acabou.

 

Assim, as críticas informavam e formavam o leitor do jornal. Na verdade, elas fizeram a cabeça de uma geração inteira de espectadores. A qualidade das platéias, hoje, infelizmente é inferior.

 

Já os filmes, em particular os americanos, tinham uma estatura agora inexistente – e por isto, Moniz Vianna, há muitos anos, deixou de assistir a um filme por dia, embora saia de casa para ir ao cinema ver os filmes de Woody Allen.

 

O seu filme diário passou a ser um vídeo por dia.

 

Lendo o livro, imperdível para quem se interessa por cinema, surpreende a modernidade dos textos. O poder descritivo das críticas é tal que o impulso do leitor é sair, procurando o filme no vídeo clube mais próximo, para conferir o que leu - até para discordar. É que o filme “lido” não sai da cabeça da gente.

 

Dentre as críticas que receitamos, dispostas, estrategicamente, na metade do volume, se encontram em seqüência, as de Vidas Amargas (Kazan), Moby Dick, de Huston, Rastros de Ódio , de Ford, e O Homem Errado , de Hitchcock. Filmes de gigantes, pérolas de análise cinematográfica.

 

Uma das mais famosas resenhas de autoria de Moniz Vianna, clássica e sempre relembrada, é sobre o filme de Huston – a história do capitão Ahab.

 

Escreve o autor: “... fiel ao livro, é a alegoria da luta do homem contra as forças malignas e imponderáveis que o atormentam e aterrorizam. Ahab está no centro de uma revolta mística contra o universo absurdo e uma divindade demoníaca – e, para Ahab, essa divindade é Moby Dick”.

 

Na resenha de Vidas Amargas , cujo título original é East of Eden, ele observa: “ O Mal existe em Abel como o Bem em Caim – é o que nos sugere East of Eden . Retomando o tema bíblico em toda a sua complexidade, inclusive a mais inaparente, para nela inserir uma moral ambígua, Elia Kazan promove, não só através da diminuição gradativa de Aron, a afirmação de Cal – ou seja, uma verdadeira reabilitação de Caim.”

 

Em Rastros de Ódio , de John Ford, considerado por Moniz Vianna como “o primeiro entre todos os cineastas”, como registra, no seu emocionado artigo publicado no Correio da Manhã, em 1973 – ano da morte de John Ford -, vale a pena prestar atenção a como ele descreve o começo do filme, em seus mínimos detalhes:

 

“ É o início por excelência do western clássico – com o cavaleiro solitário que emerge do horizonte. Ao aproximar-se, emoldurado pela porta aberta do rancho, é examinado, antes de ser reconhecido pela família: o irmão, a cunhada, o sobrinho, as duas sobrinhas, uma de dezoito e outra de nove; o cachorro.”

 

No final da crítica de O Homem Errado , se referindo à genial e última seqüência do filme de Hitchcok, encontramos este precioso registro, comentando o calvário do casal Balestero (ele, um músico acusado de um crime que não cometeu, e por fim inocentado; ela, sua mulher, que enlouquece com o drama):

 

“ ... Por excesso de pudor, talvez, Hitchcock não quis levar sua câmera até o que seria, de certo modo, um happy ending convencional. Na concessão à verdade dos fatos, preferiu um letreiro final, superposto a uma cena de rua, a cena mais clara de toda a narrativa, toda sombria. O letreiro: “Dois anos mais tarde, Rosa Balestero deixou a casa de saúde. Hoje, a família vive feliz, e de tudo o que sucedeu resta-lhe apenas a lembrança de um pesadelo.

“Mas, sucedeu!”

 

“A força das últimas palavras”, finaliza o crítico. “O impacto do verbo é a última impressão digital deixada em The Wrong man pelo mestre .”

 

Não dá vontade de, em seguida, rever, mais uma vez, a obra-prima?

 

E assim seguem as críticas de Um Filme Por Dia .

 

A Embriaguez do Sucesso , de Mackendrick, Doze Homens e Uma Sentença, de Lumet - investindo, tanto os dois filmes como as críticas, contra o jornalismo inferior do colunismo social e observando o confronto entre a estupidez e a ignorância e a inteligência e o refinamento.

“... “ 12 angry men pode não ser um grande filme – como não é -, “ escreve Moniz Vianna, “ mas poucas vezes o cinema opôs com tanto vigor o intelectual ao homem médio, dando razão e liderança ao primeiro”.

 

Comentando a graça de Jacques Tati investindo contra um mundo em que, segundo o francês, “as pessoas se divertem menos”, Moniz, de certo modo e assim como o cineasta francês, foi profeta. Sua crítica, de 1958, termina assim: “... em Mon Oncle Tati procura explicar e corrigir essa perda de substância (se não de consciência) da civilização moderna.”

 

O que, dali para cá, só fez piorar. Ou não?

 

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