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Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

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por Léa Maria Aarão Reis.

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e com arte, tudo mesmo.
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AS LUZES DO FESTIVAL DO RIO 2010

 

Lea Maria Aar„o Reis*

Se o Festival do Rio 2010 tivesse apresentado apenas um filme, Nostalgia da Luz (Nostalgia de la Luz), de um dos maiores documentaristas do mundo, o chileno Patrício Guzmán, já teria valido a pena.

Um festival meio caótico, desorganizado, esvaziado por causa das expectativas em torno do primeiro turno das eleições do dia 3 passado e com muito filme, mas com poucas produções boas. Mas ele teve o mérito de mostrar o extraordinário documentário de Guzmán, premiado em Cannes este ano. É a grande novidade cinematográfica, na Europa, onde estréia, no próximo dia 27 em Paris e, por onde vai passando ou será exibido – já está comprado para o Brasil, Canadá e quase todos países europeus - gera uma grande expectativa ou é um extraordinário sucesso

De uma beleza plástica limpa e íntegra, aquela que está sendo corrompida por artifícios de imagem baratos, e sem qualquer maneirismo vulgar próprio do cinema de massa americano, A Nostalgia da Luz reúne, de modo natural, três conteúdos fundamentais do nosso tempo: o retorno a uma qualidade inquestionável do verdadeiro cinema, um questionamento político que faz parte, cada qual ao seu modo, da vida de todos os cidadãos - mesmo os mais alienados da realidade - e a soberana poesia, que torna a existência humana suportável.

Com roteiro enxuto e preciso onde nada é demais nem de menos, o filme se passa no deserto do Atacama, no norte do Chile, o local mais seco do planeta. Lá, astrônomos, arqueólogos e mulheres – no início, elas eram um grupo de cinquenta mulheres, hoje não mais que dez porque envelheceram e, com o tempo, vão morrendo – procuram no espaço, na terra e na areia, rastros de estrelas mortas, vestígios de passados remotos e restos de homens e mulheres assassinados pelo regime de Pinochet que foram enterrados ou simplesmente jogados de helicópteros militares, se não no mar, na imensidão desse deserto desolado.

“Vou procurar o meu noivo até morrer”, diz uma das mulheres espantosamente determinadas, em depoimento a Guzmán. Outra, em sua fala, com infinita tristeza prova como, com o ar seco da região, os ossos e os restos dos mortos se mantêm intactos, inclusive com as roupas usadas pelas pessoas quando foram abatidas : ”Encontrei um pé do meu irmão... reconheci pela meia dele ... levei para casa... quis ficar com o pé durante dois dias...”

Essas mulheres, hoje da geração que chegou aos setenta anos, são “a lepra do Chile”, como elas mesmas se dizem. Estão sós na sua permanente busca. É o único grupo de gente que, até hoje, procura por parentes assassinados, sem o apoio das diversas instâncias de governo nem da própria sociedade. “Elas denunciam um país que as outras pessoas desejam esquecer”, como disse Guzmán em entrevista ao blog Bilhetes de Paris, da jornalista Leneide Duarte-Plon.

Obsessivamente, essas mulheres escavam, com pequenas pás domésticas, e vão encontrando mínimos fragmentos de ossos. Constituem uma imagem impressionante da força da tragédia, raras vezes vista no cinema. O momento mais emocionante do filme é o narrador – o próprio Guzmán -, mostrando, através das lentes poderosas dos telescópios, as chuvas dos flocos de cálcio escorrendo das estrelas como se fossem lágrimas. O narrador lembra: ”Nós, humanos, somos feitos da mesma matéria das estrelas”.

Nostalgia da Luz ganhou entusiasmadas resenhas das mais sérias publicações européias. Le Monde observou: ”É um filme extraordinário”. E L’Humanité: “ De uma beleza de tirar o fôlego”. A revista Première comparou: “Uma fábula kubrickiana”, lembrando a epopéia de Kubrick no espaço.

Sobre um documentário anterior de Patrício, A Batalha do Chil, a revista Cinéaste já observara: ”Trata-se de um dos dez filmes políticos mais importantes já realizados”. Guzmán tem 69 anos e é casado com uma psicanalista francesa - que vem a ser a produtora de Nostalgia da Luz. Já fez dois docs de grande repercussão - Allende e O Caso Pinochet – e ainda vamos ouvir falar muito dos seus filmes futuros.

Mas houve outras luzes no festival do Rio 2010. Route Irish (Route Irish), um thriller, o que é uma novidade no elenco de filmes do inglês Ken Loach. Mostra como os empresários de segurança privada constituem uma máfia superpoderosa. São os verdadeiros senhores das guerras de hoje. No caso do filme de Loach trata-se da guerra do Iraque. Embora o final seja piegas, Loach tem valor. O filme estreou há pouco tempo, no mais recente festival de Cannes.

Houve também o lindo filme Filho da Babilônia (Son of Babylon) de Mohamed Al-Daradij, premiado no Festival de Berlim deste ano. Conta a comovente história do menino curdo que, acompanhando a avó, atravessa o país, três semanas depois da queda de Saddam Hussein em busca do pai preso. É tocante o trabalho do menino e da avó – atores de origem curda – nessa coprodução do Iraque com a França, Inglaterra, Canadá e Emirados Árabes Unidos. Espera-se que seja comprado para exibição no Brasil.

Outro grande filme, que levou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em agosto passado, é Líbano (Lebanon), coprodução da Alemanha com Israel. De autoria de Samuel Maoz, foi feito em 2009. Aqui, a história é de um punhado de soldados israelenses, durante a primeira guerra do Líbano, em 1982, quando o tanque que pilotam invade terras e aldeias do sul do Líbano. Mostra a luta contra o Hezbollah e as forças sírias, o massacre de aldeias libaneses com mortes de civis e o apoio dúbio e traiçoeiro das milícias falangistas – os cristão libaneses. O filme inteiro se passa dentro do tanque e a história vai sendo desvendada através do ponto de vista dos soldados confinados no carro de guerra e através da pequena janela frontal dele. Uma impressionante sensação de claustrofobia é transmitida ao espectador. “Sentimos até os cheiros do interior do tanque”, dizia um espectador, na saída da sessão de Líbano.

Terminando o nosso cardápio, alguns bons filmes argentinos. Dois Irmãos (Dos Hermanos), do conhecido Daniel Burmàn, é um deles. Um exercício brilhante de roteiro. Excelente comédia dramática, com a narrativa flúida característica do cinema portenho, fará sucesso no Brasil onde Burmàn (Abraço Partido e Leis de Família) conta com um público numeroso e fiel. A curiosidade de Dois Irmãos é a presença da atriz Graciela Borges. Ela foi uma das musas de Torre Nilsson, o primeiro cineasta argentino a fazer sucesso fora do seu país. Na década de 60, Graciela e Torre Nilsson – cujos filmes a crítica brasileira de então adorava – freqüentavam o Rio de Janeiro com regularidade.

E finalmente, a heróica produção de um punhado de jornalistas e cameramen palestinos intitulada Gaza Explode na Tela (Gaza Crève l’Ecran), de Samir Abdallah. São cenas filmadas clandestinamente, durante 22 dias, em dezembro de 2008, em Gaza, sob o bombardeio imposto por Israel. As imagens foram recolhidas pelo pessoal da agência de informação palestina independente Media Group e entregues ao documentarista também palestino Samir Abdallah. As imagens são violentíssimas. Algumas do momento em que bombas de fósforo são despejadas contra a escola da ONU que abrigava centenas de crianças e mulheres, e no exato instante em que era distribuída uma sopa para os refugiados. Neste doc, os câmeras e jornalistas discutem entre si se devem mostrar essas imagens ao mundo, por mais chocantes que sejam. Sem dúvida, elas são chocantes.

Para encerrar nossa excursão pelo Festival do Rio de 2010, vimos Film Socialism (Film Socialism), precedido de entusiasmados elogios não apenas pelo público, mas também de grande parte da crítica francesa. Isto justificou assistir a mais um filme de Godard, hoje quase um cult. Decididamente, Godard e nossa cabeça não se comunicam bem. Embora a produção do mito do cinema francês constitua um indignado réquiem à Europa atual.

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*Jornalista. Autora dos livros Maturidade, Além da Idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer (Ed. Campus/Elsevier)

 

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