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NOS RASTROS DO OSCAR

 

Léa Maria Aarão Reis*

 

Fora o calor abafado, a epidemia de dengue e o desconforto da estação, o fim do verão é um acontecimento especial para cinéfilos e para quem procura um bom ar condicionado na sala escura.

 

É quando são lançados os filmes, quase todos americanos, (claro), uns candidatos ou ganhadores do Oscar, e outros, mais ou menos de boa qualidade, que pegam carona com o evento máximo de Hollywood.

 

A temporada deste ano está farta. É uma das mais atraentes do cinema comercial dos últimos tempos, e com direito a uma obra prima esnobada pela crítica carioca que, no futuro, ainda será tida como um clássico. Sangue Negro é Cidadão Kane revisitado .

 

Há os filmes bem acabados e elegantes. São um tremendo sucesso de bilheteria e não devem ser desconsiderados. Desejo e Reparação – título apelativo dado à adaptação do romance Atonement, do superestimado escritor inglês Ian McEwan, carro chefe dessa categoria. O diretor é Joe Wright (aquele de Orgulho e Preconceito , baseado em Jane Austen), com a bonita atriz Keira Knigthtley disputando o Oscar de atriz coadjuvante. A direção de arte impecável, ganhou uma outra indicação ao premio, esta incompreensível, de melhor figurino. Mas como, se os personagens passam quase todo o filme usando uniformes?

 

Elizabeth – a era de ouro (Elizabeth, the golden age) , outro filme elegante, é a segunda parte de uma obsessão do diretor anglo-indiano Shekar Khapur pela rainha Elisabeth I da Inglaterra. Ele já fez dois filmes sobre o personagem histórico - sempre com Cate Blanchett - e está em vias de lançar o terceiro!

 

Neste número dois, embora seja uma atriz consistente, Blanchett trabalha num tom acima do desejado, e apresenta sintomas parecidos com os da síndrome/ Meryl Streep: funga e torce os lábios insistentemente, nos ápices dramáticos.

 

O Gangster ( American Gangster ), do experiente Ridley Scott, é um bom filme comercial. Tem a classe de Denzel Washington e o talento do australiano Russell Crowe, um dos melhores atores de língua inglesa da sua geração. É imperdível.

 

Assim como Conduta de Risco (Michael Clayton) , de Tony Gilroy, diretor da ótima série de filmes com o personagem Bourne.

 

É um pequeno filme despretensioso onde George Clooney, mais uma vez, marca atuação no grupo da inteligência de Hollywood. A badalação em torno do filme, aliás, levou os canais de TV a cabo a reprisarem, em bom momento, Boa Noite, Boa Sorte , o belo filme de Clooney sobre a incipiente televisão americana durante o macartismo, com David Strathairn, um ator fascinante.

 

Outro filme independente que esteve na disputa do Oscar é A Família Savage ( The Savages ) de uma diretora, Tamara Jenkis. Roteiro seco, inteligente, e duas atuações tocantes e memoráveis, de Phillip Seymour Hoffman e Laura Linney, como dois irmãos intelectuais e deprimidos que tiveram as vidas destroçadas na infância. Raramente, no cinema, atores constroem de modo tão pungente e real a imagem da depressão quanto esses dois.

 

Laura Linney, inclusive, foi indicada para atriz protagonista. Está espetacular.

 

Senhores do Crime (Eastern Promises ) é o aguardado filme de David Cronenberg - cineasta queridinho da crítica local. Também foi lançado no Brasil aproveitando a indicação do ator Viggo Mortensen como coadjuvante. Frustrante. Promete muito, se perde num roteiro confuso e termina numa seqüência ridícula. Mas tem o ator Armin Mueller-Stahl num papel secundário, o que significa qualidade. O filme vale por Armin, e não por Mortensen.

 

A comédia dramática Juno , de Jason Reitman, é outro sucesso de bilheteria. Vai levar ainda muitas semanas em cartaz. A autora do premiado roteiro, Colby Diablo, é uma americana da costa oeste dos Estados Unidos, uma ex- stripper muito inteligente, até aqui desconhecida, ela mesma um personagem imprevisto e atraente. A garota protagonista, Ellen Page, disputou o Oscar de melhor atriz, mas perdeu para a francesa Marion Cottillard que, em transe impressionante, incorporou Edith Piaf no filme sobre a cantora francesa. Para quem gosta de cinebiografias e da Piaf...

 

Há outros dois bons filmes comerciais, importantes não só pela sua qualidade acima da média, mas, sobretudo, pelos temas: seqüestros aleatórios de suspeitos de terrorismo em aeroportos americanos, interrogatórios com tortura, tráfico e seqüestro de crianças e adolescentes, descaso na repressão da pedofilia – chagas deste século.

 

Não são entretenimento. São filmes quase documentais.

Um, Desaparecidos ( Trade), de Marco Kreuzpainter, tem um Kevin Klein surpreendente, sem glamour, gordo, meio careca, suado e sem maquilagem, impecável como de hábito. Está inesquecível no papel do detetive particular, em busca da menina seqüestrada na Cidade do México.

É um filme imperdível inspirado em terríveis fatos relatados num artigo publicado no New York Times, três anos atrás, pelo jornalista Peter Landesman. Mostra o contrabando de crianças e de jovens de países pobres que entram ilegalmente nos Estados Unidos, em geral pela fronteira mexicana e com a conivência das duas polícias, para serem vendidos em milionários leilões virtuais.

 

Impossível não lembrar do mercado da prostituição infantil, do contrabando e da venda e compra de meninas e meninos do nordeste do Brasil.

 

O segundo filme chama-se O Suspeito ( Rendition) , de um diretor desconhecido, Gavin Hood, com dois jovens atores excelentes no elenco – Reese Whiterspoon e Jake Gyllenhaal ( de Brokeback Mountain ) – e com direito a Alan Arkin, como de hábito tomando conta de todas as seqüências em que aparece. Tem ainda Meryl Streep (fungando) em pequeno papel.

 

É sobre a lei Extreme Rendition, da doutrina de segurança do governo americano, que legaliza o seqüestro de passageiros suspeitos embarcando ou chegando em aeroportos dos Estados Unidos. Hoje, então, se o pobre cidadão tiver nome árabe no passaporte pode desaparecer nos braços truculentos do FBI sem deixar pistas. É o caso dessa história angustiante.

 

Outros merecem atenção, embora estejam fora dos padrões da bilheteria do grande público. Exceção de Ratatouille, premiado com a estatueta de melhor filme de animação e um sucesso da público: ficou meses em cartaz, no Brasil. É uma produção da Pixar.

 

Persépolis - , o delicado diário do cotidiano de uma garota de Teerã contado em animação, do francês Vincent Paronnaud e de uma jovem iraniana, Marjane Satrapi, que, incompreensivelmente, logo saiu de cartaz, no Rio.

 

Sicko - $0$ Saúde (Sicko), o mais recente documentário de Michael Moore, que promete cumprir longa e compreensível carreira comercial. É demolidor. Mostra o elitismo, a frieza, a injustiça e o cinismo da indústria dos planos de saúde nos EUA. Um assunto que atinge a todos nós - cá, lá e acolá. (A platéia aplaude, no fim das sessões).

 

Um Táxi para a Escuridão ( Taxi to the Dark Side ), de Alex Gibney, competiu com Sicko e ganhou o Oscar de melhor documentário. Não foi ainda exibido por aqui - será, um dia? - mas, surpreendentemente, foi apresentado, no começo do ano, sem qualquer recomendação especial, no Canal Futura!

É o trágico destino de um jovem motorista de táxi afegão, inocente, que morre, depois de preso sem qualquer justificativa, torturado pelo exército americano em prisão militar no próprio país. São impressionantes os depoimentos dos soldados torturadores, nesse doc.

 

E, por fim, os dois grandes deste ano, Oscars de melhor filme e melhor direção e tantas outras estatuetas.

Onde os Fracos Não Têm vez (No Country for Old Men), nova obra prima dos badalados irmãos Ethan e Joel Cohen. Abocanhou os prêmios de melhor filme, diretor, ator coadjuvante e roteiro adaptado. Injusto, o Oscar de roteiro, mais que justo os demais – principalmente para Javier Bardem, o espanhol do momento, fazendo o facínora psicopata que ficará nos anais do cinema.

 

Injusto, o Oscar de melhor roteiro. Vários espectadores precisam rever o filme para ter a resposta à pergunta, clássica: e com quem acabou ficando o dinheiro?

Mas vale a pena vê-lo duas vezes. É tocante, o extraordinário Tommy Lee Jones, no fim do filme, num belo monólogo, contando à mulher o sonho que tivera - um mundo sem lugar para os velhos.

 

Sangue Negro (There will be blood ) é do jovem diretor Paul Thomas Anderson, de 38 anos, um típico filho de Hollywood, autor também de Boogie Nights e Magnólia. Nasceu e cresceu em San Fernando Valley, com a família trabalhando para o cinema. Desde criança assistiu aos filmes clássicos do cinema americano. É cineclubista, auto didata e pertence à tribo de Tarantino, Seymour Hoffman, Juliane Moore, Kevin Smith, George Clooney. O seu grande guru foi nada menos que Robert Altman, com quem aprendeu quase tudo sobre filmes e de quem foi assistente no último trabalho do mestre, A Última Noite.

 

Não surpreende Anderson ter convidado o muito especial Daniel Day-Lewis, outro outsider, para fazer o papel principal da sua ópera. Não espanta Day Lewis aceitá-lo e ganhar, com ele, o Oscar de melhor ator protagonista – o segundo que levou para casa. Ele mostra, com uma garra raras vezes vista no cinema, como à ambição e à voracidade se misturam violência, ação sem qualquer limite, uma energia desgovernada e a dor embutida que quando aflora vem também sem controle.

 

O personagem de Day-Lewis foi criado pelo escritor americano Upton Sinclair na sua novela Oil!, na qual o filme foi baseado. É o símbolo da saga cruel e sangrenta na qual foi forjada a alma americana e de um dos pilares da riqueza do país, o petróleo.

 

Algum crítico carioca escreveu que assistir a Sangue Negro é uma “experiência”. Concordo por vários motivos.

 

A ferocidade de Day-Lewis, num crescendo impressionante.

A extraordinária beleza plástica das imagens (ganhou o Oscar de melhor fotografia). A riqueza e a multiplicidade dos símbolos. O prólogo, o homem escavando a terra, com fúria - escavando o próprio inconsciente buscando ouro, e nos arrastando, a nós, espectadores, na sua própria grande aventura.

 

A imensidão da culpa bíblica.

 

O epílogo impressionante - “ já acabei” , diz o personagem Daniel Plainview -, com o seu embate decisivo contra o embuste da fé religiosa (cujo símbolo é o personagem criado pelo jovem ator Paul Dano, um talento luminoso).

 

Um fim que, entretanto, não termina.

 

E o uso muito pessoal da trilha musical, uma das marcas de todos os filmes de Thomas Anderson, (como, por sinal, ocorre também nos filmes de Altman) com direito a uma bela apresentação de um movimento completo do Concerto para Violino, de Brahms, no final dos finais, com a tela branca e terminada a apresentação dos créditos.

 

Sangue Negro é um filme extraordinário. É o carro chefe desta temporada cinematográfica gorda, mergulhada no calor do Rio de Janeiro e povoada de mosquitos.

 

* Jornalista, escritora, autora de Maturidade, Além da Idade do Lobo e Cada Um Envelhece como Quer ( Ed . Campus Elsevier)

 

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