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Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Quem quer ser um milionário? Por Maria das Graças Targino.

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A verdade é tudo. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

De Eastwood a Benjamin: coincidências que não são coincidências. Por Léa Maria aarão Reis.

O festival de cinema do Rio de Janeiro 2006.

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O Segredo de Brokeback Mountain.

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Um mapa para o festival.

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Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

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e com arte, tudo mesmo.
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VERDADES PERIGOSAS E INQUIETANTES

 

La Maria Aaro Reis*

O festival internacional de documentários É Tudo Verdade, realizado mês passado, existe há 15 anos e a cada edição atrai platéias interessadas em ver filmes que retratam a realidade do nosso tempo. São produções que na maioria dos casos não chega às telas dos cinemas. Mesmo sendo trabalhos de diretores bastante conhecidos, alguns chegam lançados em DVD, como é o caso do mais recente filme do americano Michael Moore, documentarista americano hoje famoso nos quatro cantos do mundo.

O documentário se chama Capitalismo: Uma História de Amor (Capitalism: a Love Story). Escrito, produzido e dirigido em 2009 por Moore, comemora vinte anos de estrada do cineasta em docs provocadores. O primeiro, de 1990, Roger e Eu seguido de Tiros em Columbine, e Sicko, todos eles sucesso de público onde foi apresentado.

No Brasil, Capitalismo será lançado em DVD dia 22 de junho e só. O que nos deixa pensando. Á medida que o reconhecimento dos filmes de Moore se consolida, ele vai sendo boicotado não apenas nos circuitos de exibição americanos, mas nos do mundo colonizado.

Capitalismo foi um dos dois docs que vimos no É Tudo Verdade. Mostra como a chamada crise econômica americana não foi uma crise, mas um saque bem engendrado aos cofres públicos do governo americano, “um golpe de mestre”, comenta Moore, e como o governo hoje é uma administração corporativa que em nada lembra os tempos de Jimmy Carter na Casa Branca. País governado pelas corporações, onde o sonho se transformou em pesadelo para a maioria da população, este é o tema do doc de Moore desenvolvido no seu estilo habitual. Irreverência, ironia desvairada e escracho escavam em um monte de sujeiras, mentiras, abusos e traições políticas.

Moore bate na mesma tecla há vinte anos: nesse sistema que dá e que tira, a identidade humana não é mais definida pelo que o indivíduo é, mas pelo que possui.

“Houve um golpe de estado financeiro, em 2009, pouco antes das eleições”, sublinha Moore. “Houve manipulação de Wall Street e vendeu-se o medo às pessoas. Um golpe de mestre”.

No filme, ele mostra, por exemplo, o silêncio sobre a transferência de quatrocentos técnicos do FBI os quais, até o 11 de setembro concluíam sérias investigações de crimes de colarinho branco, em Wall Street e no país, de modo geral, mas, sob o pretexto e a égide do terror ao terrorismo foram transferidos imediatamente para combater a nova ameaça. As investigações, arquivadas.

O preço que a “América” paga pelo seu amor ao capitalismo é outro tema do filme, que denuncia a ganância e apresenta os males da desregulação e das concorrências sem licitações, por exemplo, num sistema que há muito, segundo Moore, desviou-se e perdeu-se da doutrina e dos princípios de F.D. Roosevelt.

Capitalismo: Uma História de Amor atua no mesmo registro de mais um livro, recém publicado, da jornalista canadense Naomi Klein – A Doutrina do Choque: a Ascensão do Capitalismo do Desastre, no qual ela mostra a paralisia diante do medo planejado e inculcado e a sensação de impotência dos indivíduos diante da realidade da obtenção do lucro em meio às calamidades – dos desastres extremos da natureza, Katrina, tsunamis, terremotos, enchentes.

“Se o clima fosse um banco ele seria salvo,” conclui Klein. “O sistema é podre desde a sua raiz”, não hesita em fazer coro Moore. E, assim como Klein, ele mostra como grupos de negócios transnacionais criam fortunas investindo em praias asiáticas devastadas por ondas gigantes (spas e resorts de luxo para milionários), nos bairros pobres de habitantes negros, destruídos, de Nova Orleans (construções de condomínios novos para a classe média) e na perpetuação das guerras do Iraque e do Afeganistão (indústrias de armas).

Outro doc inquietante visto no É Tudo Verdade é Quando o Dragão Engoliu o Sol (When the Dragon Swallowed the Sun, 2009), do alemão Dirk Simon, radicado no Canadá e professor da Universidade do Colorado. Este, provavelmente nunca verá a luz do dia no Brasil. Nem em DVD. Trata-se da entrada nas entranhas das estruturas políticas do governo no exílio do Tibet, em Dharamsala, no norte da Índia. A luta permanente dos budistas tibetanos pela liberdade - não mais pela independência da região, como reconhece o próprio Dalai Lama, mas pela sua ampla autonomia de modo a manter vivos a cultura, o idioma e as tradições das populações e, sobretudo o direito dos cidadãos que vivem nas terras ocupadas e anexadas pela China.

Aos 19 anos, Dirk Simon dirigiu seu primeiro filme, em Berlim, Beetween the Lines, depois de fugir do lado oriental da cidade então ainda dividida. Agora, filmou em digital, na pequena Lhasa, a referência usada para denominar Dharamsala. A novidade do documentário de Simon é mostrar a divisão que começa a se esboçar entre adultos tibetanos mais velhos, refugiados, e os jovens, alguns nascidos na Índia, todos educados por lá e poucos já imigrando para trabalhar em outras regiões do país que os acolheu. De um lado, os primeiros, seguidores da política de não violência e de incansáveis tentativas (quase todas infrutíferas) de negociações com a China por parte do legítimo governo tibetano, e do outro os mais moços começando a discutir possibilidades radicais e formas de conseguir os objetivos de modos mais extremos.

Entre Pequim, Delhi, Lhasa e Dharamsala, entre essas quatro linhas – agora Simon navega beetween four lines - a população refugiada vai vivendo seu cotidiano, como apresenta o bonito documentário, mostrando imagens raras. Inclusive as da coroação de um rei de 18 anos, Namayal Wangchuck, dando continuidade a uma linhagem real tibetana que remonta há 1400 anos atrás. Mas são discussões entre os velhos históricos tibetanos e a geração mais jovem o que mais interessa no filme onde o emocionante é ver todos juntos, persistentes e reafirmando: o seu país, mesmo distante, do outro lado dos Himalaias, é e será sempre o Tibet.

* Jornalista

 

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