Três Ingleses nas Telas do Rio

 

La Maria Aaro Reis*

Uma das heranças cinematográficas interessantes do mais recente Festival do Rio, neste fim de ano e começo de 2013, é o pacote de três filmes ingleses, Rota Irlandesa (2010), Trishna (2011) e Mais um Ano (2010), um feliz reencontro da plateia brasileira com o cinema britânico que andava ausente na agenda de exibidores concentrados no lucro da bilheteria sem riscos dos filmes medíocres de vampiros, das películas de animação e das comédias americanas idiotizantes.

A austeridade, limpeza, o rigor e a clareza, em geral, das produções do cinema britânico, acabaram, parece, recolocando o cinema de Ken Loach (Route Irish), Michael Winterbottom (Trishna), e Mike Leigh (Another Year) em lugar novamente de destaque e inspirando, também ao que parece, a reprise, nos nossos canais de TV, de filmes ingleses, clássicos, como Traídos pelo Desejo/ The Crying Game (1992), de Neil Jordan, mostrado há poucos dias, com dois dos melhores atores de Londres, em início de carreira no cinema: Stephen Rea e Miranda Richardson**.

O primeiro logo entrou em exibição, depois de encerrado o festival, e se mantém em cartaz desde então, ou seja, há mais de um mês, garantindo uma carreira comercial eficiente. Os outros dois aguardam exibidor.

No seu estilo de costume, documental e preciso, Loach (76 anos) trabalha com elenco irrepreensível - Mark Womack, o principal – mostrando os bastidores sórdidos do negócio transnacional das agências de segurança privada que operam, discretamente, com pelotões de mercenários - muitas vezes jovens desempregados de países europeus atraídos por altos salários que preveem riscos frequentes de vida -, nas regiões “libertadas” (ou em vias de) pelas guerras americanas e de seus aliados, a Grã Bretanha em especial: Afeganistão, Paquistão, Iraque. No caso, neste último é onde se localiza a tal “rota irlandesa”, (12 quilômetros) conhecida como a estrada mais perigosa do mundo de hoje, que liga a Zona Verde de Bagdá ao aeroporto da capital.

Sem concessões, estilo frio e determinado, Loach faz desta sua narrativa dramática sobre a força da amizade, o eixo que sustenta esta que é mais uma das escabrosas histórias da nossa época, e sobre a qual pouco se fala. Para ambas, produz um belo, inesperado e seco final para um filme imperdível, político como é político e engajado, de esquerda, todo o seu cinema. (O extraordinário Ventos da Liberdade, de 2006, sobre a guerra civil espanhola é dele).

Winterbottom, engajado politicamente como os seus colegas, é o mais jovem, mas da mesma cepa dos realizadores ingleses que mesclam com finura e arte ficção e realidade a ponto de, ás vezes, nos perguntarmos, em dúvida: o que será real e o que é criação em seus filmes.

Embora mais jovem que Leigh e Loach, de 51 anos, Winterbottom já realizou mais de quinze filmes dos quais dois dos mais conhecidos, no Brasil, são o ótimo Estrada para Guantánamo e Código 46***. Dirigiu também um bom filme sobre a guerra da Bósnia e outro sobre a execução do jornalista inglês Daniel Pearl, no Paquistão.

Em Trishna ele faz uma releitura do romance Tess d’Uberville de Thomas Hardy, clássico da literatura inglesa, ambientando a trágica história de amor de uma jovem pobre na região (turística, ainda conservadora, e tradicional) do Rajastão e, em contraste, na trepidante Mumbai, polo de tecnologia e modas ocidentais da India. Aproveita para mostrar, analisar e criticar contrastes, vícios e as imensas dificuldades de um país do grupo dos Brics, em radical e acelerada transformação cultural, econômica e social – como o Brasil – atingindo em cheio a sua sociedade lá também tão desigual.

A atriz que conduz a trama e faz Trishna é a lindíssima indiana Freida Pinto, agora mais madura, depois de ter protagonizado, quando era quase ainda adolescente, o sucesso de bilheteria Quem quer ser um Milionário? O filme terá, com certeza, uma carreira de sucesso, inclusive comercial, quando estrear nas nossas telas.

De Mike Leigh pode-se dizer, antes de mais nada, que é um dos maiores cineastas em contínua e rica atividade. Tem 69 anos. Já ganhou a Palma de Cannes, várias nomeações para o Oscar, mais de cinco Bafta, alguns Cesar, o Leão de Ouro de Veneza, o premio máximo do Festival de Locarno, e escreve peças, livros e dirige filmes para a televisão. Muitos destes prêmios tornaram célebres o seu clássico Segredos e Mentiras (1996) e o admirável Vera Drake (2004, sobre as leis do aborto na Grã Bretanha).

Pois agora Leigh retorna com o belo Mais um Ano, seu penúltimo filme. Este ano ele dirigiu A Running Jump.

Filme com nada de espetacular ou espetaculoso. Cada vez mais, Leigh dirige e depura o seu olhar para a vida do cotidiano humano com as suas mumunhas, com os pequenos/imensos dramas, episódios banais que vão transcorrendo, sem alarde, em volta de um casal de profissionais liberais ainda em atividade, de meia idade, vivendo nos arredores de Londres. Sua paixão pela jardinagem demarca as estações do ano que, por sua vez, são os marcos dos “capítulos” cinematográficos de Leigh no filme.

Sem meio nem fim (mas com início: uma mulher da classe operária deprimida sendo atendida pela protagonista, assistente social trabalhando para o estado, e é quem a orienta).

Mais um Ano é de um frescor incomum. Os atores de Mike Leigh sempre trabalham no improviso. Eles criam, no momento das filmagens de suas cenas, as respectivas falas e os diálogos sob a supervisão do diretor. Por isto, a intensidade no desenvolvimento dos roteiros realistas em que atuam.

Neste filme, uma curiosidade, para fechar o círculo do breve e resumido passeio pelo cinema britânico: Jim Broadbent, um dos maiores atores ingleses, faz o marido, um geólogo, e contracena com a atriz Ruth Sheen, os dois, encantadores. É o mesmo Broadbent que faz uma ponta, em início de sua carreira, como o barman , espécie de corifeu, no filme Traídos pelo Desejo.

 

• Jornalista

**Traídos pelo Desejo e outros filmes com Stephen Rea e Miranda Richardson se encontram disponíveis em vídeos clubes. Neil Jordan, 52 anos, é autor dos indispensáveis Michael Collins e de Fim de Caso, este inspirado em Graham Greene.

*** Os dois disponíveis em vídeo.

 

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