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Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
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De Eastwood a Benjamin:

Coincidências que não são coincidências

 

Léa Maria Aarão Reis *

 

 Na semana de estréia do filme de Clint Eastwood, A Conquista da Honra , estava conversando com uma amiga e nem sei por que Walter Benjamim entrou no nosso papo . Falamos sobre o seu famoso ensaio , A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica , quando , de repente , percebi que estava pensando naquela foto dos soldados americanos plantando a bandeira dos Estados Unidos no topete do morro Suribachi, na ilha de Iwo Jima.

 

A batalha de Iwo Jima e a foto permearam a minha infância . Foram motivos de incontáveis pesadelos meus , sendo a foto reproduzida à exaustão , em todos os jornais e revistas dos países aliados , naquele ano de 1945. Agora , me fez lembrar das brincadeiras de guerra que meu irmão e eu fazíamos, no chão do jardim da nossa casa , com soldadinhos de chumbo , inspiradas em fantasias heróicas e nas observações diárias do meu pai , um professor de geografia e de história atormentado, diariamente, com a encarniçada e prolongada batalha .

 

No fim da segunda guerra mundial, o alvo imediato era a conquista de Iwo Jima e do monte Suribachi, ponto estratégico fundamental para os americanos renderem Tóquio e onde os japoneses se encontravam, entrincheirados em túneis e cavernas , e, corajosamente , resistiam aos americanos .

 

A foto feitiche, desencavada por Eastwood, além de ser o assunto central de A Conquista da Honra , é o pretexto , no filme , para uma discussão ( sem muita novidade , nesta época sem heroísmo ) sobre a fabricação de heróis mistificados.

 

Mas ela é, exatamente , o que Benjamim diz, no seu antológico ensaio sobre o cinema e a fotografia : “No momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística , toda a função social da arte se transforma. Ao invés de fundar-se no ritual , ela passa a fundar-se em outra práxis : a política ”.

 

A foto encenada, feita ao acaso , sob encomenda , e anti - natural , agora , volta a ser reproduzida, no cinema clintiniano, servindo ainda hoje de instrumento político , mas uma ferramenta com uso inverso.

 

Lá atrás , serviu para a venda , aos cidadãos americanos , de milhões de dólares de bônus de guerra , dinheirama com a qual se produziu também as bombas de Hiroxima e Nagasaki - embora naquele fevereiro de 1945 a guerra já estivesse praticamente ganha pelos Estados Unidos.

 

Hoje , a foto serve para reviver o horror das guerras preventivas bushianas, a invasão do Afeganistão e do Iraque e, neste começo de ano , a ameaça de uma guerra contra o Irã.

 

Como “o olho apreende mais depressa do que a mão desenha ”, dizia Benjamin, e para quem “o processo da reprodução das imagens mostra tal aceleração que começou a se situar no mesmo nível da palavra oral ”, a foto segue o seu destino monumental – servindo de ícone ora a um lado ora a outro .

 

Como nada vem ao acaso – ou será que vem, como mostra o brilhante diretor de cinema , o mexicano Iñárritu, ( assim como Eastwood, concorrente ao Oscar), em seus filmes extraordinários , Amores Brutos ,21 gramas e, mais recente , Babel - , é claro que o artigo sobre a reprodução da obra de arte , do cinema e da fotografia , de Benjamim , tem tudo a ver com A Conquista da Honra , inspirado no livro do mesmo nome , de James Bradley, filho de um dos soldados / personagens , e recém lançado no Brasil.

 

Nas semanas que antecedem a premiação do Oscar já se falou e se escreveu quase tudo sobre o filme . A maioria dos críticos o trata como um filme de guerra . Não o vejo assim . Vejo nele a força esmagadora da reprodutibilidade, no caso, da fotografia .

 

Entendido por outro prisma , o centro do filme fala do que é a integridade do homem . É o que Eastwood enfatiza, novamente , em mais uma obra prima sua , coisa que já fizera em Os Imperdoáveis (1992), em Sobre Meninos e Lobos (93), Menina de Ouro (2005) e no filme gêmeo , Cartas de Iwo Jima, sobre o qual também já se escreveu quase tudo - no aspecto formal e estético .

 

Em Cartas de Iwo Jima , outro filme inspirado em um livro , este do autor japonês Tadamichi Kuribayashi, o ponto de vista muda , se desloca para o lado do “ inimigo ” e serve para reforçar a idéia de que , com generosidade e com o conhecimento honesto do Outro pode não existir “ inimigo ” - mas uma única raça , a humana , Oriente e Ocidente , muçulmanos e cristãos , metades do mesmo todo e dando sentido à aventura de viver .

 

O general japonês Kuribayashi ( composto pelo espetacular ator Ken Watanabe) de Cartas , e Munny, personagem inesquecível de Eastwood em Os Imperdoáveis , são metáforas da conquista da honra .

 

Como escreveu um crítico de cinema do jornal Estado de São Paulo, a luz pétrea , azulada e sombria usada na fotografia dos dois filmes de Clint Eastwood, misto de cineasta e historiador, nas suas seqüências de campo , nas batalhas , faz parecer que as imagens já se encontram gravadas em medalhas de bronze .

 

Vida , para ele , é o homem buscando, mesmo em desespero , a coerência e a integridade , dilacerado pelas contradições .

 

No final , quem resume, de modo tão poético os dois filmes , é o historiador de arte paulista Jorge Coli.

 

A última cena de A Conquista da Honra , com os americanos , apenas “ jovens soldados felizes que brincam na àgua” do mar , na praia da ilha de Iwo Jima, diz ele , é uma cena que está está “ fora da História ”.

* Jornalista e autora de Maturidade , Além da Idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer .