O Cinema ou o Festival Está Mudando?

 

La Maria Aaro Reis*

 

Eram tendências cinematográficas já observadas no Festival do Rio do ano passado: o gigantismo do evento, o enfraquecimento do cinemão americano e uma avalanche de documentários étnico-políticos e de cinebiografias, desde as filmadas por Martin Scorsese até as limitadas histórias de vida de costureiros, chefs de cozinhas globalizadas e jornalistas de moda do passado.

 

Este ano, estas tendências se ampliaram com a mega exibição, em duas semanas, de 420 filmes de 60 países em nada menos que 1 200 sessões.

 

Mas há o que retirar desta conta. Considere-se a legião de espectadores que não se interessaram pelo cinema de terrir – e, portanto não foram aos filmes de um dos homenageados, o diretor italiano Dario Argento com o seu “mundo de horror”. Outros fugiram do cinema da miséria e da depressão do húngaro Bela Tarr, uma segunda homenagem do festival. E há os que não se interessam pelas sessões da meia noite do mundo gay, e os espectadores que não morrem de amor pelo cinema nacional. Aliás, na onda vigorosa das produções brasileiras algumas dão sinais de originalidade com filmes realizados fora da cartilha da linguagem superficial e do conteúdo vulgar da televisão.

 

Aspectos positivos do Festival do Rio 2011: a crescente disposição de mostrar filmes em sessões populares; de continuar abrindo e prestigiando curtas e longas brasileiros; de apresentar novas gerações de cineastas embora não haja qualquer revelação surpreendente; e manter a apresentação do consistente cinema argentino confirmando o sucesso (merecido) que faz no Brasil.

 

No rame rame habitual, os cineastas ícones de sempre. Almodóvar (Na pele que habito), Gus van Sant (Inquietos), Scorsese, atualmente envolvido com documentários - enquanto não começa a filmar Sinatra, doc de sua autoria e em fase de pré-produção, mandou para o festival do Rio duas cinebiografias, George Harrison e Fran Leibowitz. David Cronenberg, desta vez careta, com Um método perigoso, um filme desonesto sobre Carl Jung, e Abel Ferrara (‘4:44 last day on Earth).

 

Alguns deles, em fase pós-festival, mostrados em sessões mais confortáveis e menos disputadas. Outros, prestes a entrar em exibição. Mas nada de mais especial.

 

E o filme do austríaco Markus Schleinzer, Michael, autor do excelente e premiado A fita branca. Trata-se de outra terrível história calcada em perversas realidades que volta e meia emerge: a história do homem que aprisiona um menino de 10 anos na sua casa, durante anos, e abusa sexualmente dele.

 

Outra tendência de 2010 agora confirmada é uma diluição da promessa fascinante dos filmes asiáticos, aqueles que alguns anos atrás prometeram uma revitalização brilhante para o cinema. Poucos filmes, mais ou menos significativos, vieram desta vez. O de Chen Kaige (Sacrifício), o do super esteta Ymou, A árvore do amor, (ele, diretor do lindo Lanternas Vermelhas, veio este ano com um melodrama brabo mas de uma delicadeza extraordinária), e o recente filme de Takashi Miike, Ninja Kids!!!

 

E só.

 

Em compensação, vieram para o Rio filmes de ficção da Rússia - aos borbotões -, do Irã (aquele cinema em que nada acontece, mas que não deixa de ter seu charme principalmente quando se trata do diretor Farhadi, presente no festival com A Separação), do Egito, África – Quênia, Gana -, Austrália, e coproduções da Tunísia, Albânia com a Grécia, Canadá com Camarões -, da África do Sul com a França. Filmes da India, Espanha, Noruega, da América Latina além da Argentina – Peru, Colômbia – e Bélgica, Dinamarca, Noruega, Espanha, fora os países produtores do circuito Elisabeth Arden ampliado: Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França, e, de carona, Itália.

 

A globalização cinematográfica é um dos fortes do Festival e é bem-vinda a uma cidade colonizada ainda pelo cinema americano.

 

A verdadeira festa do festival, no entanto, foi destinada aos espectadores interessados na observação do mundo de hoje pelo cinema, trazendo temas mais interessantes que os filmes de ficção, em crise. Faltam histórias e faltam bons roteiros, e a realidade continua à frente da fantasia cinematográfica.

 

Quase uma dúzia de filmes trouxeram situações e personagens-chave do cenário mundial. São filmes baratos porque produzidos apenas com entrevistas e imagens de arquivo e, no entanto, tão atraentes. Exemplos: Conversando com juiz Garzon, - aquele responsável pela prisão de Pinochet, em Londres, e hoje no ostracismo; Salvador Allende, O caso Pinochet e A batalha do Chile (a luta contra a ditadura) do excepcional cineasta chileno Patrício Guzmán. Os descaminhos da política italiana encarnados na figura patética de Berlusconi em Para sempre Silvio. Outros: Nem Alá nem mestre, sobre a derrubada do primeiro ditador da primavera árabe, Ben Ali, da Tunísia e Tunísia: o fim do medo. Dezoito dias no Egito sobre a revolução popular no Cairo e assim por diante.

 

Filmes perfeitos para integrarem uma boa programação de TV caso ela, aqui, tivesse uma vida mais inteligente, mais cosmopolita e menos obcecada e contaminada com uma pequena política provinciana de oposição política. Em um encontro rápido entre uma sessão e outra, um crítico de cinema experiente comentou comigo: “Não é Festival do Rio que está fraco; é a produção mundial que está ruim.”

 

* Jornalista. Autora de Maturidade, Além da Idade do Lobo e Cada um envelhece como quer (e como pode).

 

 

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