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Fest Rio 2007: filmes livres e sem fronteiras.

Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

De Eastwood a Benjamin: coincidências que não são coincidências. Por Léa Maria aarão Reis.

O festival de cinema do Rio de Janeiro 2006.

A resistência do cinema latino-americano: Viva o Sul Nu e Cru, por Léa Maria Aarão Reis.

O Segredo de Brokeback Mountain.

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Léa Maria diz porque valem a pena o teatro de Aderbal Freire Filho e o cinema de Majid Majidi.

Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
Explore esses dois sites:
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FINAL FELIZ PARA O

FESTIVAL DE CINEMA 2006

 

Léa Maria Aarão Reis *

 

Escolher entre quase quatrocentos filmes ofertados ao espectador no espaço de quinze dias, por si só já é uma dificuldade. Se dentre esses quatrocentos filmes, pelo menos dez por cento são bons - os imperdíveis – e talvez não passem em circuito comercial, a empreitada é mais árdua ainda.

 

Acrescente-se que muitas sessões são programadas para os dias de semana, e em horário de expediente de trabalho do tipo “quatro horas da tarde de terça-feira” ou “duas horas da tarde de quinta”. Ou as sessões são programadas para horários noturnos, tardios, em cinemas localizados em zonas inseguras – e ficam às moscas.

 

Some-se a tudo duas semanas políticas - uma de pré e outra de pós eleição de primeiro turno para presidente da republica ; portanto, duas semanas tensas - , e a dificuldade é triplicada. Um número menor de pessoas, em relação aos anos anteriores, podem satisfazer seus desejos cinematográficos – o que é uma pena.

Foi o que ocorreu este ano, na recente versão do Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Um dos resultados do gigantismo da mostra é que muitas sessões acabaram quase vazias, e várias pérolas cinematográficas, filmes clássicos, outros novos (como o filme do Butão, Milarepa) se perderam no pacotão.

 

Tanto que a chamada repescagem de filmes se prolongou durante duas semanas além da mostra, apresentando de novo todos os Luchino Visconti anunciados e diversos filmes ótimos.

 

Qual pode ser a solução para tornar mais fácil seguir os filmes do Festival? Os especialistas devem pensar no assunto. Talvez desmembrando algumas mostras ao longo do ano ou repescando um maior número ainda de filmes exibidos, constituindo um segundo tempo alentado dessa bem sucedida festa cinematográfica. Uma repescagem (Mostra Última Chance) maior ainda da que é organizada.

 

O Festival é um banquete para os que amam o cinema, mas, mesmo antes de se iniciar, o espectador precisa dispor de tempo para fechar o quebra – cabeça de montar um mapa / guia de filmes que pretende assistir com os respectivos locais e horários.

 

Para o próximo Festival, de 2007, asugestão é concentrar a atenção em uma única mostra das inúmeras montadas para o Festival.

 

Filmes gays? Bizarros? Só de terror? Notívagos que gostam das sessões de meia-noite porque no dia seguinte podem acordar ao meio-dia? Uma opção.

 

Os mais ansiosos, e sem interesse definido, exceto o do entertainment, podem se manter no Panorama do Cinema Mundial, onde muitos filmes são apresentados já legendados em português. As legendas, aliás, são o sinal de que esses filmes se encontram comprados para exibição no circuitão comercial. A estréia pode demorar, e às vezes demora um ano ou mais, mas o filme sempre acaba sendo programado.

 

Se o impulso é o de rever alguns dos filmes do mestre italiano Luchino Visconti, cujas cópias não se encontram em vídeos clubes, a escolha, no caso deste ano, recaiu na obra-prima Deuses Malditos (69), um filme que conta a história de uma rica família nazista de aristocratas alemães; em Violência e Paixão (74), com a deslumbrante Silvana Mangano fazendo uma abonada perua burguesa, contracenando com Burt Lancaster, o qual, de modo soberbo, interpreta o velho professor aristocrata.

 

Nessa retrospectiva, foi possível rever outra obra prima de Visconti em preto e branco, Vagas Estrelas da Ursa Maior, com Claudia Cardinale, ainda muito jovem e belíssima. Estes dois e mais alguns clássicos viscontianos, como Belíssima (51), Senso (54), Rocco eseus irmãos (60), O Leopardo(63) e Morte emVeneza (71), o Inocente (76) – seu último filme - foram repetidos em sessões noturnas da repescagem, num mesmo horário, em um só cinema. De um modo geral, com preciosas cópias recuperadas.

 

Outras mostras do Festival atraíram o interesse de platéias novas. Mostras já realizadas em anos anteriores, mas que ganham, com o passar do tempo, uma força e um prestígio maiores. São as seleções de documentários, os docs, e dos filmes semi-documentais, com temas políticos – a política no sentido maior.

 

Estas platéias estão interessadas em um cinema que não é espetáculo nem entretenimento, mas fonte de informação. É um cinema político, subversivo, com claras tomadas de posição e abordando temas explosivos.

 

O Oriente Médio, a devastação de Bagdá e do Afeganistão, a opressão de Israel sobre a Palestina, a ocupação americana do Iraque, depredação do meio-ambiente, repressão policial em regimes ditatoriais, direitos humanos, sentimentos anti-americanos, guerras localizadas, alimentação saudável, pobreza, nova era, safadezas de grandes corporações, corrupção, desigualdade de renda, episódios que passaram à História moderna de um modo obscuro são alguns desses temas.

 

Neste último caso, o corajoso filme francês A Batalha de Paris, marcando um contraponto ao célebre filme de Gilles Pontecorvo, A Batalhade Argel, no qual se repassa o episódio da matança pela polícia, nas ruas de Paris, em outubro de 1961, com a França governada por um olímpico de Gaulle, de centenas de magrebinos - argelinos e marroquinos - e imigrantes de pele escura (italianos e espanhóis). Uma passagem constrangedora até hoje para os franceses, que, assim como várias outras, não faz parte da “grande” História - a História oficial.

 

Foi surpreendente também observar que o filme com Al Gore pregando sobre preservação do meio ambiente levou quase uma centena de pessoas a assisti-lo. Evidência que, nestes anos 2000, a realidade da vida no planeta vem superando, em muito, a ficção. É compreensível que esses docs ou semi-docs tenham suas sessões lotadas, como na exibição do impressionante Meu País em Ruínas, que mostra a história do cotidiano de um médico iraquiano de origem sunita e de sua família de classe média, em Bagdá, depois da ocupação americana, ou o a revelação do sórdido dia-a-dia das garotas de rua egípcias, em Meninas doCairo.

 

As boas notícias trazidas pelos filmes de língua espanhola, exibidos no Festival são várias. O vigor do cinema argentino, ainda forte – ao contrário do medíocre cinema brasileiro, quase todo ele uma extensão das novelas e dos especiais de TV.

 

A força do cinema mexicano que desponta, com dois excelentes diretores participando da mostra: Arturo Ripstein, de Carnaval em Sodoma, e Alejandro Iñarritú, autor de Babel, considerado um dos melhores do certame, este ano.

 

Para quem não lembra, Iñarritú e o festejado roteirista - mexicano também- , Guillermo Arriaga (autor do roteiro de Três Enterros de Melquíades Estrada) fizeram juntos Amores Brutos e 21 Gramas. Em ambos os filmes há diversos personagens com as histórias se cruzando ao ritmo do que pode não ser o mero acaso – ou existe mesmo o acaso? indaga Iñarritú com seus filmes.

 

Em Babel, os dois usam a mesma fórmula e deste modo, como já declarou o cineasta mexicano, encerram uma trilogia íntegra, consistente, intrigante.

 

Crônica de uma Fuga, premiado em Cannes este ano, revisita os sinistros porões da ditadura Argentina; o chileno Na Cama, embora sob a influência visível do cinema nouveau francês dos anos 60, é dirigido por um jovem diretor de 20 anos, Matias Bize; e Salvador, a história tocante do último homem condenado á morte e executado, na Europa – todos foram comprados para distribuição comercial. O primeiro, aliás, já está sendo apresentado.

 

O Festival Internacional de Cinema do Rio é uma referência, uma baliza para a temporada cinematográfica do ano seguinte. E o que ele sinalizou, desta vez, não é desanimador, para este final de 2006 e para 2007.

 

Se, por um lado, a arte do cinema não é mais aquela dos filmes de Visconti, repleta de referências e citações da alta cultura, e se a enxurrada de filmes ruins e medíocres é imensa, há a novidade dos docs, dos semi docs e do cinema político (até em Hollywood) se contrapondo ao lixo produzido em escala de massas, não apenas através da linguagem cinematográfica, mas em todas as manifestações artísticas.

 

The Wind That Shakes the Barley, de Ken Loach, a história do nascimento do IRA, na Irlanda, no começo do século vinte, contada com intensa vibração – mais um filme extraordinário de Loach; Marcello, uma vida doce (a carinhosa cineautobiografia de Mastroiani) -, Na sombra das palmeiras do Iraque (o cotidiano da população durante ataques americanos); Fora do Jogo (do iraniano Jafar Panahi, o mesmo do celebrado O Balão Branco, Palma de Ouro em Cannes em 95) - todos e mais diversos outros (muitos, orientais) estão com a apresentação garantida no nosso circuito comercial.

 

O que nos faz concluir que, pelo menos no que diz respeito ao cinema que vem de fora, e apesar de vivermos na periferia do mundo culto, estamos relativamente bem. Não temos do que nos queixar.

 

*Jornalista, crítica de cinema, autora dos livros Maturidade, Além da Idade do Lobo,Cada um envelhece como quer.

 

 

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