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ANDROGENIA E O TRAVESTI NO CINEMA

 

Eduardo Vivacqua

 

Mulheres com toques masculinos tônicos, homens com um quê feminino. Desde os primeiros dias do cinema, estas evidências foram e são indicativas da androgenia existente até hoje. No auge dos anos 20, Rudolph Valentino, o grande macho da tela na época, usava um sedutor olhar de mormaço, talvez tirado de Pola Negri ou Theda Bara, expoentes do cinema mudo. E que dizer das estrelas daquele tempo, com os cabelos à la garçon e boquinhas de coração. Haja Louise Brooks, haja Clara Bow!

 

A feminilidade fria de Marlene Dietrich sempre se deixou sublinhar por toques masculinos nos guarda-roupas - os trajes de gala de homem que ela usava - e ate mesmo tonalidade vocal nos filmes que fez a partir de Marrocos, em 1932, quando beija uma mulher, apesar da presença máscula de Gary Cooper. O cineasta Josef Von Sternberg, seu mentor, soube aproveitar esse aspecto. Ninguém, contudo, se revelou mais masculina do que Greta Garbo, angulosa, desajeitada, mesmo que a Metro forçasse uma suposta elegância com peças de vestuário criadas por Adrian, o então mago da indumentária do estúdio. Filmes como Rainha Cristina, Madame Valeska e mesmo passagens de Ninotchka comprovam o masculino e a falta de aplomb de Garbo.

 

Quem olha Joan Crawford nas produções dos anos 30, 40 e, mais evidente, dos anos 50 se impressiona com a androgenia do seu corpo. Ombros largos de atleta, gestos às vezes bruscos, olhar penetrante. Mesmo atuando com Clark Gable, a quintessência do macho dos anos 30, o algo masculino de Crawford nunca desaparece. A comprovação reside num dos seus melhores filmes – também um dos melhores westerns realizados – o inesquecível Johnny Guitar, no qual o lado homem crawfordiano emparelha com o de Mercedes McCambridge, uma mulher sempre máscula, desde a sua estréia em A Grande Ilusão, em 1949.

 

A beleza de Tyrone Power, apontado como o homem mais bonito da tela em todos os tempos, também tinha qualquer indício feminino, fato a ser notado em James Dean, dono de um tom delicado no rosto, algo longiquamente feminino e cruel, que o tornava atraente a todos, homens e mulheres indiferentemente das opções sexuais dos atraídos. Há em Dean, nos três filmes que fez, aquele ar desprotegido, frágil, que atinge, por vezes, a fronteira entre os sexos.

 

Na década de 40, algumas atrizes marcaram época por terem uma forte acentuação exótica, diferente, masculina mesmo, tal como Lizabeth Scott, loura estrela da Paramount de dramas e filmes noir e mesmo Bárbara Stanwyck. Ambas excelentes atrizes, extravazaram masculinidade numa comunicação que vinha de dentro e que se fazia notar principalmente na voz.

 

Na série James Bond, ninguém foi mais homem do que a grande Lotte Lenya no papel da vilã, representante da organização Spectre, que enfrenta Sean Connery em Moscou Contra 007. Impossível, aos jovens dos anos 60, esquecer as botinas com facas mortais usadas por Miss Lenya no confronto com o agente inglês. Foi uma chance rara.de se ver na tela a grande atriz alemã, mais de teatro que de cinema,. viúva de Kurt Weill, o parceiro musical de Bertold Brecht.

 

Jovens galãs surgidos entre os anos 40 e 60 também apresentavam um ar meio adolescente, meio feminino, como Tab Hunter, mesmo ao interpretar heróis de guerra ou em bangue-bangues sem grande importância, ou Anthony Perkins, que nunca convenceu como galã de mulheres mais fortes, entre elas Melina Mercouri e Ingrid Bergman. Havia em Richard Beymer uma certa fragilidade adolescente e meio feminina em Amor Sublime Amor, que, no entanto, não empanavam a masculinidade do personagem. O travestismo de Jack Lemmon e Tony Curtis em Quanto Mais Quente Melhor, de James Fox, em Positivamente Millie e Robin Williams, em Uma Babá Quase Perfeita não levaram estes atores a se travestir em outros filmes, embora os personagens disfarçados de mulheres indiquem androgenia.

 

Inúmeros são casos de travestis e androgenia: Merle Oberon como George Sand em A Noite Sonhamos, Doris Day em Ardida Como Pimenta, ao interpretar Calamity Jane, Shirley MacLaine em Infâmia, como a professora lésbica apaixonada por Audrey Hepburn. Existe androgenia maior do que no Mestre de Cerimônias interpretado por Joel Grey em Cabaret? Outro exemplo fica mesmo na premiada Hilary Swank em Meninos Não Choram. Ou Michele Yeaoh em O Tigre e o Dragão. Andrógenos e travestis estão de mãos dadas nos deliciosos Priscilla, a Rainha do Deserto e Para Wong Fu, Muito Obrigada, Julie Newmar. Impossível, na abordagem deste tema, deixar de lado uma figura essencial: Uma Thurman, que explorou ao extremo a duplicidade homem-mulher no personagem em Kil lBill - tanto o primeiro quanto o segundo. O diretor Tarantino soube utilizar nela – bem como nas coadjuvantes - os componentes de androgenia. Os grandes cineastas de Hollywood - Billy Wilder, George Sidney, Bob Fosse, Robert Wise, Kazan, Minnelli entre tantos outros – tiveram a mestria de lançar mão da androgenia para o sucesso das suas obras.

 

Atores de aparência frágil, traços suaves, rostos quase imberbes podem indicar algum grau de feminilidade. Leonardo DiCaprio, Johnny Depp, John Cusak ou Toby Maguire valem como exemplos de delicadeza fisionômica e, em alguns casos, corporal que nunca lhes comprometeria a masculinidade. Chega somente no limite entre o masculino e o feminino.

 

A androgenia e o travesti no cinema não significam que os atores e atrizes sejam, na vida real, homo ou bissexuais. Uma coisa é a aparência, a indumentária, o gesto na tela, na atuação; outra coisa, a vida pessoal de cada um, que não interessa a ninguém. E a androgenia não se aplica apenas a Hollywood. Está no cinema europeu, desde o início assim como no nosso tupiniquim, agora de boa safra. Porém estas são outras histórias. Depois eu conto, se desejarem.

 

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