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A Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor. Por Clemente Rosas.

As luzes do Festival do Rio 2010. Por Léa Maria Aarão Reis.

Dorian Gray: a busca da eterna juventude. Por Maria das Graças Targino.

Verdades perigosas e inquietantes. Por Léa Maria Aarão Reis.

Preciosa sem amor. Por Maria das Graças Targino.

Para onde vai o cinema? Por Léa Maria Aarão Reis

Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

O Festival de Cinema Rio 2009 sobe o morro. Por Léa Maria Aerão Reis.

Gramado: festival de dois países. Por Léa Maria Aarão Reis

Quem quer ser um milionário? Por Maria das Graças Targino.

O menino do pijama listrado. Por Maria das Graças Targino.

A hora dos documentários. Por Léa Maria Aarão Reis.

Woody Allen, Velho e Lúcido. Por Léa Maria Aarão Reis.

Este mundo não é mais um pandeiro. Por Léa Maria Aarão Reis.

A verdade é tudo. Por Léa Maria Aarão Reis.

Nos rastros do Oscar. Por Léa Maria Aarão Reis.

Sobre Bergman e Antonioni: o que faz valer a pena viver a vida. Por Léa Maria Aarão Reis.

Fest Rio 2007: filmes livres e sem fronteiras.

Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

De Eastwood a Benjamin: coincidências que não são coincidências. Por Léa Maria aarão Reis.

O festival de cinema do Rio de Janeiro 2006.

A resistência do cinema latino-americano: Viva o Sul Nu e Cru, por Léa Maria Aarão Reis.

O Segredo de Brokeback Mountain.

Cinema no outono de Paris. Por Léa Maria Aarão Reis.

Casa de Areia: a imensa solidão feminina. Por Maria das Graças Targino.

Androgenia e o travesti no cinema. Por Eduardo Vivacqua.

Uma crítica por dia. Léa Maria Aarão Reis escreve sobre o livro de Moniz Vianna.

Um mapa para o festival.

O Senhor dos Anéis e o desprezo pelas mulheres. Por Clarissa Passos.

Moacy Cirne aponta os 100 filmes emblemáticos do Sec. XX.

Madame Satã - O cinema sem gênero, por Clarissa Passos.

Léa Maria diz porque valem a pena o teatro de Aderbal Freire Filho e o cinema de Majid Majidi.

Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
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Dziga Vertov

 

A Verdade É Tudo

 

Léa Maria Aarão Reis *

 

O olho da câmera cinematográfica é muito mais fiel à realidade que o próprio olhar humano – dizia o russo Dziga Vertov, pai do cinema-olho e do cinema-verdade.

 

Vertov pertencia àquele grupo da pesada, de cineastas e teóricos eslavos, trabalhando no norte da Europa, e fundou algumas das principais bases da arte do filme que pretende refletir a realidade.

 

Depois de Vertov, dois outros craques, o americano Robert Flaherty, autor do conceito de antropologia visual e, mais tarde, o comunista militante holandês Joris Ivens forneceram os fundamentos do filme documentário no clássico Nanuk, o Esquimó e Os Pescadores de Aran ( de Flaherty) e nos diversos e primorosos trabalhos feitos durante a Guerra Civil espanhola – um filme narrado, inclusive, por Ernest Hemingway -, quando do processo de independência da Indonésia e, depois, da guerra do Vietnã, no caso de Ivens.

Mais tarde, o francês Jean Rouch ficou célebre pelos seus documentários chamados de “puros”, realizados na África, assim como o inglês John Grierson, que batizou as duas vertentes do gênero – documentário “puro” ou cinema direto e “docuficção” - e fechou a questão declarando que “o filme documentário é o tratamento criativo da realidade”.

São histórias da trajetória do filme documentário desde Vertov.

 

Hoje, os docs são cada vez mais populares. Nos bons vídeo clubes já há estantes com uma boa variedade de filmes. Eles ganharam as grandes platéias com a sacudida que Michael Moore deu no gênero, com Roger e Eu, Fahrenheit 11/9 e Tiros em Columbine e, mais recente, com Sicko - $O$ Saúde . Apesar das críticas apaixonadas - de um lado, os que acham Moore sensacionalista, cabotino e simulador de situações, e, do outro, seus adoradores.

 

A décima terceira edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade , por sua vez, realizado este ano em diversas cidades do Brasil, contabiliza 45% a mais de público no Rio de Janeiro em relação a 2007; um aumento de 10% de espectadores na sua versão paulista e, no total, mais de 20% - sem contar as versões do certame em Recife, Brasília, Caxias do Sul e Bauru.

 

O evento é destinado a difundir cultura do documentário na América Latina e é um sucesso crescente. Distribui cerca de 130 mil reais de prêmios para docs nacionais e estrangeiros, longas e curtas metragens, e os vencedores são escolhidos por um seleto júri internacional.

Desta vez o vencedor de longa estrangeiro foi o filme O Cosmonauta Polyakov . Um excelente filme com o cosmonauta russo que mais tempo foi mantido em órbita – cerca de um ano –, também médico e cientista.

 

Outras pérolas da categoria, exibidos este ano foram as conversas com Ingmar Bergman, em três filmes diferentes, na ilha de Farö. Numa delas, aos 83 anos de idade, o cineasta comenta como é complicado envelhecer, e diz: “(Mas) a criatividade é um poderoso aliado contra os demônios destrutivos”. Dentre outras coisas, Bergman conta que assistia a cinco filmes por semana, na sua casa.

E mais: um curioso documentário, Phyllis e Harold , rodado por uma cineasta americana, Cindy Kleine, sobre os seus pais, no qual sua mãe fala da frustração amorosa dela e dos relacionamentos extra conjugais que teve, sem o conhecimento do marido – o pai de Cindy.

 

Os docs brasileiros brilharam, no festival. A escola de documentários, hoje conhecida internacionalmente, (e o seu conseqüente faturamento de bilheteria, no Brasil ), criada com os filmes/referências de Eduardo Coutinho ( Babilônia, Santo Forte , Edifício Máster, Jogo de Cena ) e de João Moreira Salles ( Entreatos e o mais recente, Santiago ) estimulou o aparecimento de uma safra de documentaristas talentosos.

Alguns dos filmes exibidos mostraram as impressionantes cidades fantasmas do Vale do Paraíba, histórias de mulheres que tiveram os abortos autorizados pela justiça brasileira e apresentaram as guerrilheiras do movimento tupamaro que sobreviveram à prisão e à tortura, na década de 70, no Uruguai.

 

Na categoria de filmes Vidas Brasileiras foi grande a variedade. Houve biografias do escritor Antonio Callado, de Caetano Veloso, João Saldanha, de um militante do Movimento dos Sem Terra (MST), até de Simonal.

 

Numa retrospectiva internacional preciosa, a exibição de dez docs clássicos. Dentre eles, O Triunfo da Vontade , de Leny Riefenstahl e Le Chagrin et La Pitié , de Marcel Ophüls, com quatro horas de duração, célebre por mostrar a empenhada colaboração dos franceses – principalmente da elite econômica do país, na época - aos quatro anos do governo de Vichy, com Pétain à frente, durante a ocupação da França pelos nazistas. O filme causou grande comoção, quando estreou, porque mostra que o movimento de resistência francesa aos alemães foi a exceção e não a regra, como rezava a lenda. Ficou proibido na França durante tempos.

 

Na seção O Estado das Coisas entramos no filé mignon dos documentários. Filmes que mostram, em imagens fortes e quase sempre inéditas, ou em entrevistas hoje já históricas o estado atual do mundo em que vivemos.

São filmes políticos que vêm saciar a sede de informação independente. Ocupam o vazio criado pela mídia, de um modo geral em todos os países, que cultiva a informação superficial e comprometida com os negócios dos proprietários dos jornais, das editoras e das Tvs, buscando manter o leitor infantilizado. Mídia que nega a informação mais profunda porque é elaborada de modo a fazer com que o leitor não pense.

 

Por isto, o sucesso de Uma Verdade Inconveniente , (Al Gore) por exemplo, ou dos docs de Moore.

 

Nesta categoria, O Sistema Putin é revelador. Tirando o Capuz – Viagem ao Mundo da Tortura também.

 

E Minha Palestina , um filme tosco, mas igualmente revelador porque recolhe depoimentos, observações, impressões, expectativas, críticas e sonhos dos moços palestinos recém saídos da adolescência, nascidos nos campos de refugiados do Líbano – a próxima geração que será protagonista da tragédia de sua nacionalidade e irá interferir ( ou não) no esforço de sobrevivência do seu povo.

 

Outro bom trabalho é Os Últimos Dias de Yasser Arafat , da palestina-australiana Sherine Salama. Filme produzido no entorno de um núcleo de alguns poucos minutos de entrevista conseguida por ela, a duras penas, depois de mais de um ano de perseverança, com o carismático líder palestino, ele já doente, e poucos dias antes de ser transferido para um hospital, em Paris, onde morreu.

 

A rotina e o cotidiano da mukata , a entourage de Arafat, e, no fim, emocionantes seqüências da multidão envolvida por ondas de poeira levantada da terra, quando da aterrissagem, em Ramallah, do helicóptero trazendo o corpo do líder. Imagens que lembram o mítico filme, quase um doc, do italino Pontecorvo - A Batalha de Argel - hoje, por sinal, uma figurinha fácil na programação dos canais de filmes da TV.

 

Outro sinal da nova tendência de interesse do espectador é que já existe uma programação exclusiva de documentários exibidos na televisão a cabo, às quartas-feiras e em horário nobre, no Telecine, no GNT, no Canal Brasil.

 

No momento também em que fazemos estas observações, três novos docs estão em cartaz: Juízo, de Maria Augusta Ramos, Serras da Desordem , de Andréa Tonacci, uma mistura de cenas de documentários e encenação, e o Scorsese, The Rolling Stones – Shine a Light, Condor e O Longo Amanhecer - a vida de Celso Furtado, de José Mariani, acabou de deixar as telas.

 

E nem chegamos a falar sobre os filmes documentais, aqueles que enfeitam com a liberdade da ficção episódios e eventos reais. Nem de documentários pedagógicos, de qualidade, como Soldado de Deus , de Sergio Sanz, sobre o integralismo no Brasil, destinado não só ás grandes platéias, mas também á exibição em escolas públicas.

 

Hoje, um dos temas que mais se discute, quando se fala de filme documentário, é até que ponto ele pode ser estritamente objetivo ao mostrar determinado assunto. Isto é possível? O olho da câmera pode conseguir ter aquela objetividade que para o olho humano é impossível? Pode ser um olho/verdade?

 

Mas se o olho da câmera é o olho do diretor do filme.

E onde está a verdade de um determinado evento ou de uma pessoa retratada (entrevistada)? Onde se encontra o ponto de vista do autor que dirige a câmera para ali e não para acolá? Para aquela imagem e não para a outra, bem do lado dela – e que pode mudar todo o sentido que o diretor/ autor quer imprimir ao seu trabalho ?

 

Mesmas discussões infindáveis, que vão longe e não chegam a qualquer lugar e ocupam (inutilmente) o tempo dos teóricos da comunicação.

 

O que é realidade, o que é ilusão. O que é real, o que é encenação. Coutinho, aliás, se exercita com essas duas “verdades” no seu admirável Jogo de Cena.

 

Certo é que o drama humano, nesta época globalizada, adquire, de tempos em tempos e com freqüência cada vez maior, tintas de tragédia.

 

Vive -se com medo vinte quatro horas por dia, mesmo sem a consciência desse medo e com a ilusão de que não, não estamos assustados. O mais recente livro de Zygmunth Bauman, Medo Líquido, mostra esta idéia transparente.

Medo de tsunamis, de aquecimento global, do apocalipse, de vírus conhecidos e desconhecidos, de adoecer, de perder o emprego, de empobrecer, de envelhecer, de perder o amor, de ser excluído socialmente, de uma bomba nuclear suja que pode explodir a qualquer momento, em qualquer lugar.

 

Ora, nada melhor, para um bom roteiro de cinema do que uma tragédia - de preferência, anunciada.

Onde se aninha a tragédia nestes nossos tempos de aparência tão banal?

 

*Jornalista e escritora autora dos livros Maturidade , Além da Idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer ( Ed. Campus Elsevier)

 

 

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