CINEMA: DIVERSÃO E CABEÇA

 

La Maria Aaro Reis*

Em fins de inverno e aguardando o começo do Festival do Rio, com seus 400 filmes de mais de 26 países invadindo as telas do Rio de Janeiro, o balanço cinematográfico não é mau para um mercado exibidor como o nosso, que continua priorizando produções medíocres e o lixo do cinema americano. Agora, é esperar a maratona que vem aí com os mais recentes filmes de cineastas consagrados: Coppola (filme de mistério Twixt), sempre independente; o inglês Stephen Frears com Lay the favorite, comédia com Bruce Willis e Cathérine Zeta-Jones; os irmãos italianos Paolo e Vittorio Taviani com Cesar deve morrer; o sempre classudo inglês Mike Leigh com Another Year; e Spike Lee e Oliver Stone que, se não são o creme do cinema sério, pelo menos são diretores de um cinema comercial honesto, e o incensado asiático Kim Ki-Duk, com o coreano Pietá, vencedor do Urso de Ouro de Veneza este ano.

A seguir, os filmes com os quais podemos nos deliciar:

1.A câmera se detém, fixa e insistentemente parada, sobre o rosto deprimido e alegórico do ex-roqueiro Cheyenne – Sean Penn. Aposentado, ele vive em Dublin com a mulher, a excelente atriz Frances McDormand. Ela rouba as cenas em que aparece; e isto não é pouco, já que está trabalhando com Penn. A maquilagem pesada provocante, brincos, pulseiras, peruca de leoa, batom, muito batom decoram o rosto de Cheyenne que nos observa, a nós, espectadores, com seus tristíssimos olhos azuis, como quem diz: Reflitam, por favor; pensem. Pensem.

Impossível deixar de pensar e refletir sobre o que vemos ao redor. Cenário de um mundo triste espreitando, mas que mesmo assim pode ser administrado na modéstia de cada um: é o recado otimista do ex-roqueiro. Vale assistir ao filme, primeira produção em inglês do italiano Paolo Sorrentino, autor de um filme admirável (Il Divo) sobre o primeiro-ministro ícone da Itália pós-guerra, Giulio Andreotti. Aqui é o meu Lugar é um filme imperdível, onde Sean Penn reforça, com sua presença atuante, o talento de um dos maiores atores da sua geração.

2.Outro que provoca, cutuca e é mais contundente é A Tentação, do americano Mark Chapman, marido da atriz brasileira Denise Dumont. Trata da loucura coletiva da metade norte-americana republicana, dos malefícios da obsessiva religião criacionista e da violência puritana obcecada em reconduzir ao “rebanho” os que são “diferentes” – no caso, os homossexuais. Aspecto perigosamente presente hoje, na campanha presidencial dos Estados Unidos, na cultura do país profundamente dividido, é sobre o que fala o filme. A atriz Liv Tyler faz um trabalho precioso, quase muda e se valendo de expressões faciais e corporais. Combinou com o diretor de suprimir as suas falas no filme e deu certo.

3.Cinema diversão, mas cinema cabeça também, estas duas são produções recentes, do ano passado, que antes de estrearem no Brasil foram precedidos por O Deus da Carnificina, a mais recente aventura bem sucedida de Roman Polanski, outro cineasta pensador. Quatro atores dão um show de interpretação nesta filmagem da peça da iraniana radicada em Paris, Yasmina Reza. Os americanos Kate Winslet, Jodie Foster e John C. Reilly e o austríaco Christoph Waltz, lançado no cinema internacional por Tarantino. A partir de um episódio sem maior importância e fechados num huis clos à moda de Sartre com tinturas de Buñuel, os dois casais vão se despindo da boa educação e civilidade, da boa consciência, apenas tênue verniz para encobrir a virulência, a insatisfação e a barbárie que continua hoje igual à de tempos imemoriais.

4.Fechando o roteiro desses excelentes filmes exibidos antes do começo do Festival do Rio que vem com suas mostras diversificadas - documentários, cinemão, cinema latino, filmes gays, de terror, docs sobre meio ambiente – temos Cosmópolis que, surpreendentemente, há três semanas resiste em cartaz. É mais um filme classificado de difícil, do canadense David Cronenberg - o cineasta do corpo, especialista em nossas formações e deformações físicas. Cosmópolis, assim como o filme israelense Líbano, (Urso de Ouro de Veneza em 2009) - que transcorre inteiro dentro do claustrofóbico espaço de um tanque de guerra -, se passa dentro de uma limusina circulando em contínuo movimento pelas ruas de uma Nova Iorque em chamas metafóricas, onde um enlouquecido jovem financista e investidor viciado em dinheiro comanda a sua apavorante existência de bilionário.

5.Quatro produções entendidas como filmes-cabeça que, no entanto, permanecem várias semanas nas telas da cidade. E sem falar no filme de Woody Allen, Para Roma com Amor, há meses em cartaz. Se nos Estados Unidos Allen não rende dinheiro, na França e aqui tem bilheteria.

E vamos aguardar, no Festival, mais surpresas: o novo filme do francês François Ozon, que vem aí com In The House; do cineasta americano subestimado e sumido, agora recém-aparecido, William Friedkin – seu filme é Killer Joe – , o filme Chiri da cineasta-ícone Naomi Kawase, tida como a melhor do atual cinema japonês por muitos críticos, e Magnífica Prezenza do ótimo turco Ferzan Ozpetek. Incluindo no cardápio uma mostra especial deste ano que homenageia o Reino Unido com produções de Mike Leigh, Mike Newell e Michael Winterbottom além das produções de novos cineastas da Europa Central que vão surgindo aos poucos, vemos que o cinema continua uma diversão que não descarta a inteligência.

E mesmo quando vemos O Legado Bourne, o blockbuster que teria os ingredientes certos para dopar e estupidificar o espectador, o cinema se firma como a maior diversão. Não é vantagem: Bourne é baseado em livro do escritor Robert Lundlum. E bem adaptado.

* Jornalista, escritora, crítica de cinema

 

(voltar ao topo)