UM CINEMA ENVELHECIDO?

 

 

La Maria Aaro Reis*

 

A festa de entrega do Oscar, este ano, confirmou o que se percebe há alguns anos: a decadência e o processo de esclerose do cinema americano – exceção de poucas produções independentes de baixo orçamento que irrompem, de vez em quando nas telas daqui vindas, por exemplo, do Festival de Sundance.

A começar pela própria festa que há cerca de dez, vinte anos, ainda gozava de um prestígio formidável mundo afora. Grupos de amigos se formavam para ver a transmissão em conjunto, programa atraente e obrigatório para amantes do cinema, na noite festiva e nos bolões que se formavam. Cinéfilos - ou não -, faziam apostas e discutiam apaixonadamente defendendo as escolhas.

Hoje, a festa do Oscar está mais para Caras e para show de merchandising do que para a conclusão de um certame exclusivamente cinematográfico onde os grandes filmes, os chamados canhões (ou blockbusters) apareciam resplandecentes.

Não que o Oscar já tenha sido premio de estatura artística. Mas mesmo dentro da sua moldura exclusivamente de cinema comercial houve tempo em que filmes, diretores, atores, fotógrafos e roteiristas da indústria de Los Angeles, se tornaram clássicos e passaram á história da sétima arte.

Este ano, penúria, na festa que segundo os noticiários da noite, precisou ser vigiada e monitorada por cerca de mil agentes policiais. Um sinal dos tempos nos EUA.

Entre os filmes apontados, dois narram pela enésima vez histórias de superação de indivíduos. Elas fazem parte do catálogo básico da cultura americana na qual qualquer um consegue chegar (morto ou vivo) desde que se supere. Ou seja, que engula todos os sapos das circunstâncias e sobreviva à sinistra indigestão. É o sonho americano, o avesso do mito de Sísifo revisitado por Albert Camus (o escritor deve se revirar na cova caso ainda assista filmes) transmutado em ilusão. Mas nem por isso – e talvez até por isso – arraste ainda multidões para assistir essas trajetórias dos (falsos) heróis.

Empresários da indústria, os grandes produtores, agradecem. Mesmo com a crise global das plateias que não superlotam mais nem os grandes nem os pequenos cinemas – os estúdios –(exceção dos cinemas de Paris, paraíso dos cinéfilos, sempre lotados) mesmo assim os filmes são exibidos em tela de TV, de computador, tablets, em equipamentos smart, portáteis, e até em celulares mínimos.

Reunimos algumas considerações sobre os vencedores do Oscar deste ano: a história de magnífica superação vivida pelo físico inglês Stephen Hawking em A Teoria de Tudo. Claro: o ator que vive o gênio britânico martirizado pela esclerose lateral amiotrófica ganhou o premio de melhor ator. Chama-se Eddie Redmayne.

Há o filme que conta a história do garoto que apanha do maestro em Em Busca da Perfeição, mas aguenta firme e se torna ... vencedor.

A história do matador da elite do exército americano, do grupo dos SEALs, na guerra do Iraque, Sniper Americano, que consegue voltar vivo para casa, mas, assassinado perto de onde mora, é consagrado herói depois de morto. Outra história real. Chega lá morto. É muito ruim, o filme do octogenário Clint Eastwood que já fez coisas bem mais dignas.

Para sempre Alice dá um Oscar à bonita Juliane Moore, versão Meryl Streep da sua geração. Ela prometeu bem mais no início da carreira do que mostra agora e é Oscar de melhor atriz da temporada fazendo a mulher que entra no labirinto do Mal de Alzheimer.

Aqui, esta história real não deve ser lida como teoria da conspiração. Mas, como o mundo invisível cada vez mais se mostra palpável, a história é esta: Para Sempre Alice estourou uma ou duas semanas antes da indústria farmacêutica americana anunciar como praticamente certa e segura a descoberta de nova droga para prevenir a doença que atinge e aflige milhões de homens e mulheres no mundo. Se for comercializada, os ricos vão se beneficiar. O medicamento deverá custar rios de dinheiro. Mas laboratórios da indústria farmacêutica e os produtores do filme vão agradecer.

Não chegamos a assistir Boyhood, o experimento de Richard Linklater, um diretor queridinho da garotada. Precisa ser mesmo muito bom. Ele dura três horas e foi filmado durante 12 anos. Aompanha a vida de um garoto da sua infância à maioridade.

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância encheu os bolsos do diretor mexicano Alejandro Iñárritu e da equipe com estatuetas Oscar e muitos dólares.

Aqui, outra história real se superpõe ao filme: Iñárritu foi parceiro do escritor e roteirista também mexicano, Guillermo Arriaga, durante quase dez anos. Juntos, fizeram alguns filmes clássicos do cinema falado em espanhol: 21 gramas, Amores Brutos, Biutiful e Babel. Eles podem ser vistos e devem ser vistos na Internet. São sensacionais. Os dois brigaram, briga feia, disputando os créditos de autoria de Babel, e Iñárritú chegou a proibir o ex – amigo de entrar na sala do Festival de Cannes para assistir o filme.

O fato é que esse Birdman, um filme pretensioso, anunciado como sendo falado em ... metalinguagem e recheado dos clichês de trajetórias que narram a descida aos infernos de atores que envelhecem e são esquecidos, é simplesmente caótico. Iñárritú precisa mesmo de um Arriaga no seu trabalho. Mas entre diversos prêmios que recebeu, ele faturou o de melhor roteiro original. De sua autoria! Durma-se com um barulho desses.

Os dois filmes mais interessantes desta temporada oscarizada foram, um deles O Grande Hotel Budapest, uma delícia de comédia do conhecido Wes Anderson. É um show de desempenhos de grandes atores e boas atrizes, e os figurinos e o desenho de produção são da mitológica italiana Milena Canonero que com ele ganhou seu quarto Oscar e era uma das artistas prediletas de Luchino Visconti.

O outro, O Jogo da Imitação, que embora medíocre e previsível, apresenta uma história impressionante - a do homem que previu a invenção dos computadores, durante a Segunda Guerra, e foi condenado, em seu tempo e no seu país, a Inglaterra, por ser homossexual. Morreu de desgosto, se suicidando.

E há os estrangeiros, uma formação de filmes vivos e interessantes - imperdíveis. Timbuctu, um grito de dor do continente africano. Belíssimo. Foi azarão, mas não levou para casa qualquer estatueta, embora na mesma semana ele tenha ganho seis Cesar, um dos três mais importantes premios europeus. Leviatã, outro filme vigoroso, de autoria do russo siberiano Andrey Zvyaintsev e Relatos Selvagens, argentino, de Damian Szifron. Filme forte, mais um do cinema portenho, mega sucesso de bilheteria no Brasil. Todos merecedores do Oscar estrangeiro.

Mas quem ganhou, como, aliás, era de se esperar, foi Ida, de Pawel Pawlikowski. Uma produção bem feita, às vezes comovente à força da interpretação de uma atriz, Agata Kulesza, (faz a tia da noviça) e característica da escola do austero e preciso cinema polonês. Filme católico, porta voz da profunda alma polonesa, que ainda hoje chora os tempos do comunismo na Polônia. Ida manda um recado covarde: para tempos complexos o melhor é o recolhimento. Se for possível radical - até num convento. Ou: o melhor é omitir-se. A escolha é do espectador. Ontem, hoje, lá ou aqui no Brasil.

 

*Autora dos livros Maturidade. Cada um envelhece como quer e como pode. Além da idade do Lobo (Ed. Record)

 

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