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Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

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Madame Satã - O cinema sem gênero, por Clarissa Passos.

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Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
Explore esses dois sites:
http://www.imdb.com
http://www.cinema-sites.com

Viva o Sul Nu e Cru

Léa Maria Aarão Reis*

 

É desanimador ver que o Festival Latino-Americano de Cinema e Vídeo, depois de treze anos consecutivos realizado no Rio de Janeiro, ainda está lutando para sobreviver. Para se ter idéia das dificuldades dos seus produtores, a recém terminada versão 2006 do chamado CineSul levantou menos dinheiro de patrocínio que um ano atrás.

 

E é triste ver o desinteresse e o menosprezo pelo cinema da região, mesmo que a indústria instalada abaixo do Equador – exceção da Argentina e do Brasil - seja frágil e incipiente, e proporcione uma maioria de filmes canhestros, embora esteja, para o bem e para o mal, se desenvolvendo como pode, e até bem, se a compararmos ao panorama do cinema do Sul, trinta anos atrás.

 

Para levantar a cabeça e se impor, respondendo à truculência da colonização cinematográfica norte-americana, é básico conhecer a nossa cara, as realidades regionais, as fantasias, o modo de ser, viver, de rir, de sofrer, trabalhar e de interpretar, no continente e redondezas. Conhecer as produções, mesmo modestas, de língua espanhola e brasileira.

 

Por isto, quisemos participar do júri do CineSul para longas de ficção. Para conhecer mais ainda estas produções.

 

Vimos dez filmes em uma semana. Projeções ruins, na maioria das vezes, em salas desconfortáveis e com baixa freqüência.

 

Mas como foi gratificante conhecer, por exemplo, um filme realizado em San Juan de Porto Rico (Ladrones e Mentirosos, 2005), o primeiro longa de um diretor chamado Ricardo Mendez Matta, que ataca a corrupção na sua terra e o tráfico aberto de drogas para os Estados Unidos, deixando claro o teatro cínico da “repressão” dos americanos nos países andinos.

 

Tem-se tão pouca, ou nenhuma idéia da vida cotidiana dos porto riquenhos na sua própria terra sem identidade nem raiz, um território norte americano onde o modo híbrido de viver não é nem latino nem americano.

 

Alguns filmes fracos, como Las Vueltas del Citrillo (México, 2005, de Felipe Cazals) ou Dí Buen Dia a Papá (co-produção de Bolívia, Argentina e Cuba, 2005), do boliviano Fernando Vargas, ex-estudante de cinema em Los Angeles e na Noruega. Mas sempre curiosos de se ver.

 

Outros, ruins, como Marôa (Venezuela/Espanha, 2005), da documentarista sueca radicada em Caracas, Solveig Hoogestinj, mas insistindo em mostrar a vida miserável das crianças nas imensas comunas da periferia da capital, tão semelhante à existência delas, nas favelas brasileiras.

Ou como Viva Cuba (de Juan Carlos Cremata, 2005), cujo recado político se perde em um roteiro mal concebido, previsível, e numa película tediosa – embora seja um imenso sucesso de bilheteria em Cuba.

 

Uns, comerciais, como o brasileiro Morô? (de 2005, do mineiro Eliseu Ewald, autor do documentário Zico), uma boa montagem de documentários das décadas douradas no Rio de Janeiro de Getúlio Vargas e JK misturados à ficção.

 

Outros, pretensiosos, como o argentino Chiche Bombon (do argentino Fernando Musa, 2004), sem fazer jus à ótima qualidade do cinema que vem de Buenos Aires (de Trapero, Lucrécia e cia), contando a história de uma jovem que engravida de um adolescente de 16 anos. O pano de fundo e as metáforas continuam, no entanto, sendo os de um país que segue conseguindo sair do seu inferno econômico às custas de um esforço prodigioso.

 

Um filme interessante, o chileno La Sagrada Família, (de Sebastián Campos, 2005), embora sem digerir cânones do cinema francês e ser uma espécie de déjà vu cinematográfico, significa um esforço da cinematografia do Chile, ao mostrar uma versão (mesmo aguada) do Teorema de Pasolini.

 

Mas vêm do México e (novamente) de Santiago do Chile dois filmes instigantes do CineSul/2006.

 

Al Outro Lado (2005), de Gustavo Loza, uma coletânea de três contos cinematográficos com um excelente tema comum: crianças que vivem em cidades de países pobres e periféricos – México, Marrocos e Cuba -, filhas de pais que imigraram em busca de melhores condições de vida, vizinhas de países ricos, de primeira classe – Estados Unidos e Espanha. Se a sua realização é tosca, as histórias (e as interpretações de algumas crianças) são comoventes.

 

E, por fim, o longa metragem de ficção vencedor da versão deste ano do festival: En La Cama, que recebeu o premio do júri da Associação Carioca de Críticos Cinematográficos.


Produção chilena de 2005 (em parceria com a Alemanha), dirigida pelo jovem Matías Bizo, de 27 anos, vencedora também do Festival de Valladolid, na Espanha, ano passado, é um filme surpreendente.

 

Passa-se, ele todo, literalmente, em uma cama de motel para onde um rapaz e uma moça que apenas se conheceram, na saída de uma festa, vão, e onde passam uma noite, até o amanhecer. Na cama, os dois - atores bem jovens, mas de uma maturidade inesperada – Bianca Lewin e Gonzalo Valenzuela – riem, choram, comem, transam, brigam, se conhecem e ... se apaixonam sem saberem nada sobre como o outro vive a sua vida.

 

A câmera segura, obstinadamente fechada sobre os dois na cama, tem incrível mobilidade. O trabalho do casal e a qualidade dos diálogos, espertos e despretensiosos, seguram a hora e meia do filme, que flui sem tropeçar nem entediar.

 

Em La Cama, fazendo lembrar o belo filme francês de Patrice Chéreau, Intimidade, já tem distribuição acertada para o Brasil.

 

Quando for apresentado, vá vê-lo. Vale a pena lembrar como nasce o amor entre duas pessoas que se apresentam sem máscaras nem penduricalhos. Nuas, em todos os sentidos.

 

* Jornalista e escritora

 

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