VERÃO DE UM CINÉFILO FELIZ

 

La Maria Aaro Reis

 

De repente, no inicio do verão, os cinemas lotaram, o que há muito tempo não ocorria. Até algumas das primeiras sessões da tarde onde a plateia em geral é de idosos e aposentados ficaram cheias. Sem contar os filmes de férias, os blockbusters de ação, as comédias idiotas e os animados infantis. Seria só o calor senegalesco do Rio de Janeiro, este ano, levando multidões às salas refrigeradas?

 

A festa do cinema, no verão deste 2013, deixa o cinéfilo feliz. As pistas são várias para entender o fenômeno de começo de ano que, mesmo se for passageiro, significa que ainda há vida nas telonas – não apenas nas telas pequenas da TV, dos Ipad, computador. As causas são várias: uma eventual revitalização do cinema, em toda parte (filme pode ser produto lucrativo); o fascínio das tramas da realidade do mundo de hoje; maior sensibilidade dos exibidores - comprar filmes fora do convencional mercado americano, de diversas nacionalidades, embora negócio arriscado, também pode ser lucrativo, e, é claro, a temporada de filmes indicados para o Oscar dando sequência a uma estação em si já atraente.

 

O verão começou em idioma espanhol, com a simpática comédia peruana 18 Comidas e mais dois filmes excelentes do competente cinema argentino: Infância Clandestina e Elefante Branco. No primeiro, abre-se a discussão sobre a responsabilidade dos pais, dos adultos militantes da resistência política sobre a vida de seus filhos menores; o segundo, uma bela história da ação da igreja progressista e verdadeiramente apostólica, nas favelas de Buenos Aires. Ainda em castelhano, o médio Medianeras e um bom filme com o pano de fundo da ditadura no país – O olhar invisível. Os argentinos não esquecem.

 

Este capítulo hispano termina com o documentário chileno imperdível No, de Paulo Larrain, (mal lançado) mostrando em minúcias os bastidores da campanha para o plebiscito de 1988, no Chile, que marcou o fim da famigerada era Pinochet. Discute o papel da mídia hoje, da propaganda, e o sistema capitalista. Temas distantes anos-luz do cinema brasileiro de auditório colonizado pela linguagem chula, global, vulgar.

 

Uma exceção nacional primorosa e bem-vinda, unanimidade da crítica é o filme O som ao redor, do pernambucano de Recife, Kleber Mendonça Filho, crítico brilhante e historiador do cinema, autor de um trabalho desenvolvido fora do eixo (às vezes viciado) Rio/São Paulo. É um filme referência. Mais uma produção de alta qualidade do grupo de cineastas pernambucanos. Para Caetano Veloso é, “um dos melhores filmes brasileiros de sempre.“ Quer dizer: um clássico. Ele vai mais longe: “ É um dos melhores filmes feitos recentemente no mundo. “ Exagero? Eu diria, um dos melhores filmes que assisti, em muito tempo, e me deixa com vontade de repeti-lo. A trama se passa no mundo da classe média pernambucana da praia da Boa Viagem, um microcosmo da classe média brasileira. Não é cinema regional apelativo. É realista, semi-documental. Surpreende pelo nível de realização, minimalista, com atores fora do padrão TV. A narrativa é adulta, bem amarrada, a montagem, segura, e usa com propriedade, com exceção do som, grave problema do cinema nacional, os recursos técnicos. Caetano tem razão ao dizer que “ raramente um diretor encontra com tanta precisão o tom do filme que deve e quer fazer.” É um filme obrigatório.

 

Poliglota, nossos cinemas de verão mostraram o coreano (chatíssimo) Ha Ha Ha, o chinês O Sacrifício, os europeus Além das Montanhas (produção depressiva romena do premiado Cristian Mungiu) e o ótimo Barbara, de Christian Petzold onde dá gosto admirar uma atriz especial, Nina Hoss, atual musa do cinema alemão. Este filme chegou trazendo credenciais de respeito do Festival de Berlim do ano passado onde ganhou o Urso de Prata. Mesmo sem chegar à qualidade de A Vida dos outros mostra, com precisão cirúrgica, também ele com linguagem de documentário, o nível do estrago da polícia política da Stasi na vida de milhares de jovens adultos alemães da República Democrática, a RDA, não apenas em Berlim mas, no caso do filme, no interior leste do país – Angela Merkel, uma exceção. Barbara confirma que a Guerra Fria e a Alemanha dividida do passado ainda darão bons roteiros ao cinema germânico durante muitos anos.

 

Uma produção híbrida, americana, de beleza extraordinária, do diretor Ang Lee, asiático radicado em Los Angeles, atraente para todas as idades, As aventuras de Pi tem uma plástica invulgar. Os efeitos são espetaculares, funcionais, e nos obriga a continuar tentando gostar do cinema 3-D, um processo iniciado com A invenção de Hugo Cabret, de Scorsese. Para os zen, os budistas, induístas e simpatizantes, os símbolos estão todos lá, na história do menino indiano Pi, e não são difíceis de decifrar. Ang Lee criou um final quase ridículo, lacrimogêneo. Deve ter sido obrigado a melodramatizar (comercializar) a história.

 

Em francês, outro filme/bomba: Amor, do brilhante austríaco Michael Haneke, candidato mais forte ao Oscar de melhor filme estrangeiro, este ano. Seco, limpo, racional, a mais recente produção do diretor do enigmático Caché e do cruel A professora de piano perpetua a mesma temática: a ditadura de um dos participantes do jogo da vida a dois (marido-mulher, mãe-filha, pais-crianças ) e a dependência decorrente. O filme, de enorme impacto, é celebrado como uma construção sobre a velhice. Não acho que seja. A velhice torna a história ainda mais cruel, as situações mais lancinantes e traz maior impacto. No mundo, hoje, falar de velhice e de doença, e mostrá-las é de péssimo gosto. Não há lugar para nem uma nem outra no mundo idealizado de beleza etérea e juventude eterna. Muitos se recusam a assistir o filme. Mas Haneke desafia o que se fala em surdina, escondido – a agonia da doença na velhice -, com a ajuda fundamental de dois atores gigantescos, os octogenários Jean Louis Trintignant e Emanuelle Riva que foram, no passado, dois ícones da tal beleza eterna.

 

Amor é dos três: do austríaco e desses dois atores imensos e corajosos. Aliás, Haneke diz, em todas entrevistas que dá sobre o filme, que ele existe por causa da participação fundamental desses verdadeiros artistas. Outro filme imperdível. Grave, mas obrigatório.

 

As estrelas da temporada são os filmes políticos. Até sites de notícias sociais e políticas, como o Carta Maior, abrem páginas especiais (Cinema e Realidade) com análises de intelectuais de vários cantos do mundo que não críticos de filmes. Quase todos são candidatos ao Oscar.

 

Argo é campeão de audiência garantida pela presença do ator e agora diretor Ben Affleck. Mostra o período imediato, em Teerã, que se seguiu à fuga do Xá do Irã, recebido então e abrigado pelo governo Carter. É a história (real e até aqui desconhecida, porque era confidencial) do resgate de um grupo de diplomatas americanos, por um agente de origem cubana, da CIA, na embaixada do Canadá da capital iraniana. Segundo o jornalista inglês Robert Fisk, do The Independent, de Londres, que trabalhava na capital nesse período, o filme não falseia a realidade. Para ele, é uma oportunidade de ouro para estereotipar os iranianos. Cheira a manobra de relações públicas. Está sendo exibido, (o que é pior: como entretenimento), neste momento, no mundo todo, como propaganda anti-Irã. Um bom reforço à política americana de bloqueio ao arsenal nuclear do inimigo número um da vez. Deve ganhar várias estatuetas. É um filme medíocre, mas bem feito, com John Goodman e Alan Arkin magníficos em pequenos papeis.

 

Mas tem um concorrente de peso – Lincoln, de Steven Spielberg - mais uma vez com um Daniel Day-Lewis extraordinário. É um dos dois ou três melhores atores do cinema. Se não for o melhor. Será Lincoln outra encomenda política? Chega numa hora em que bafeja simpatia ao partido republicano americano necessitado dela. Abraham Lincoln era republicano, e próximo do grupo, dentro do partido, dos chamados republicanos vermelhos que bebiam nas ideias de um contemporâneo europeu, Marx. Mas este é um viés da biografia de Lincoln, que, embora importante para o que é mostrado na tela, Spielberg silencia e também nada diz sobre o corolário fundamental do pensamento do então presidente: pertence ao trabalhador o produto do seu trabalho.

Baseado no livro da historiadora novaiorquina Doris Kearns Goodwin, uma especialista em biografias de presidentes americanos, e lançado no Brasil em edição reduzida, é um fil me bem realizado. Spielberg conhece todos os truques da narrativa cinematográfica com drama. Sempre empolga as grandes plateias. Há uma atriz coadjuvante, Sally Fields, emocionante na pele da sra. Lincoln. Se ela ganhar um Oscar será justo. No final triunfalista, o filme deixa um travo de ironia habilmente preparado pelo criador de ET quando ressoam, na sala escura do cinema, as palavras do extraordinário presidente dos Estados Unidos: que o país viva em paz com todos os povos da terra. E seja bem amado por todos eles.

Django livre é de Quentin Tarantino. Isto nos diz que, este sim, é um filme também livre, de humor negro desconcertante. Pertence à série de Bastardos Inglórios. Quatro atores de gênio valem o ingresso de Django, além do roteiro demolidor de Tarantino. Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo di Caprio e Samuel L. Johnson. Todos, magníficos. Mas di Caprio devia estar com o diable au corps quando filmou as sequências nas quais encarna o cruel fazendeiro sulista escravocrata que derrama terror cru sobre a plateia. Inesquecível. Brincando, Tarantino fala a sério sobre os negros de alma branca. Talvez por isto Spike Lee tenha odiado Django e se sentido insultado.

Longo demais, repetitivo, A Hora mais escura é tão entediante quanto o filme (oscarizado) anterior de Katryn Bigelow, Guerra ao terror. Ex-mulher de James Titanic Cameron, Bigelow priva dos círculos milionários hollywoodianos onde são gestadas as produções (caras) e mais bombásticas do sistema principal. O cáustico crítico e filósofo esloveno Slavoj Zizek resume o filme cuja história (real) é a de uma agente obscura da CIA que, com paranoia obsessiva, trabalhou, durante uma década, para localizar Osama Bin Laden: é um filme que normaliza a tortura. Diríamos: um filme sobre a cadeia infinita de vingança contra vingança., olho por olho, dente por dente - e estamos voltando à idade da pedra.

 

A última cena do filme, da solitária agente que continuará obscura – personagem real, detestada pelos companheiros de CIA e preterida em promoções depois do seu feito - é desalentador.

 

E mais um filme político. Vem da Dinamarca e O amante da rainha é do diretor Nicolaj Arcel. O título em português foi criado sob medida para seduzir plateias. Trata-se da história desconhecida para nós, aqui do sul, do médico de origem alemã, Johann Struensee que, em 1771, antes mesmo da Revolução Francesa, conseguiu implantar no seu país as raízes da abolição da escravidão, da tortura, da censura, a reforma agrária e da educação, e procurou proteger a população miserável da época em que reinava o rei Cristiano VII. As ideias iluministas antes da hora, do médico – aqui reduzido a ... “amante da rainha “ -, por um golpe dos poderosos da corte, o levaram à morte. Mas logo depois germinaram durante o longo reinado do rei Frederick e foram o sal da terra na região, hoje, com uma das melhores qualidades de vida do planeta.

 

O filme de Arcel é indicado também para o Oscar de melhor filme estrangeiro, ganhou Berlim em 2102 com roteiro e com ator – Mads Mikkler que estourou no cinema internacional fazendo um ótimo vilão na mesa de jogo de James Bond em Casino Royale .

 

Há mais: para quem gosta do gênero musical, Os Miseráveis. E, como ainda há um mês de verão pela frente, a estreia, em inglês da Grã-Bretanha, de um novo Ken Loach, de 76 anos, autor do excelente Rota Irlandesa. Filme novo de Loach é sempre um acontecimento cinematográfico. Chama-se The Angels Share e, embora não tenha ganho a Palma do ano passado (seria a segunda), foi recebido com respeito pela crítica. É sobre o desemprego dos jovens ingleses hoje.

 

E mais! Outro acontecimento: um novo Iztvan Szabo, diretor húngaro, um dos melhores cineastas em atividade, vem aí. Estreia dia 6 de março. Chama-se Atrás da Porta, com nada mais nada menos que a legendária atriz Helen Mirren. A crítica internacional define este Szabo como “uma nova sinfonia do mestre . Resumindo: primeiro, a sétima arte revitalizada, está mais viva do que nunca. Segundo: a gama extraordinária de produções de cinema enraizadas em História e histórias reais, confirma que a realidade atual é muito mais emocionante e dramática que a ficção. Que o diga o roteiro impressionante das lutas internas do Vaticano, recém emersas com o anúncio da renúncia de Bento XVI. De matar de inveja Mario Puzo e Coppola.

 

* Jornalista. Autora do livro Novos Velhos (Ed. Record)

 

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