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As luzes do Festival do Rio 2010. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Preciosa sem amor. Por Maria das Graças Targino.

Para onde vai o cinema? Por Léa Maria Aarão Reis

Heranças de Festival. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Quem quer ser um milionário? Por Maria das Graças Targino.

O menino do pijama listrado. Por Maria das Graças Targino.

A hora dos documentários. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Este mundo não é mais um pandeiro. Por Léa Maria Aarão Reis.

A verdade é tudo. Por Léa Maria Aarão Reis.

Nos rastros do Oscar. Por Léa Maria Aarão Reis.

Sobre Bergman e Antonioni: o que faz valer a pena viver a vida. Por Léa Maria Aarão Reis.

Fest Rio 2007: filmes livres e sem fronteiras.

Resenha do excelente cinema argentino. Por Léa Maria aarão reis.

De Eastwood a Benjamin: coincidências que não são coincidências. Por Léa Maria aarão Reis.

O festival de cinema do Rio de Janeiro 2006.

A resistência do cinema latino-americano: Viva o Sul Nu e Cru, por Léa Maria Aarão Reis.

O Segredo de Brokeback Mountain.

Cinema no outono de Paris. Por Léa Maria Aarão Reis.

Casa de Areia: a imensa solidão feminina. Por Maria das Graças Targino.

Androgenia e o travesti no cinema. Por Eduardo Vivacqua.

Uma crítica por dia. Léa Maria Aarão Reis escreve sobre o livro de Moniz Vianna.

Um mapa para o festival.

O Senhor dos Anéis e o desprezo pelas mulheres. Por Clarissa Passos.

Moacy Cirne aponta os 100 filmes emblemáticos do Sec. XX.

Madame Satã - O cinema sem gênero, por Clarissa Passos.

Léa Maria diz porque valem a pena o teatro de Aderbal Freire Filho e o cinema de Majid Majidi.

Irresistíveis Realidades, um pequeno ensaio de Léa Maria Aarão Reis sobre o cinema e a vida .

Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
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O Sabor do Cinema Argentino

 

  Léa Maria Aarão Reis*

 

Está na hora de se organizar aqui um Festival do Cinema Argentino.

 

A produção cinematográfica de Buenos Aires é tão rica, e de tal qualidade, que mesmo com a distribuição razoável dos filmes, ao menos no eixo Rio/ São Paulo, vários bons trabalhos e alguns diretores novos acabam passando em branco.

Os filmes que chegam se mantêm em cartaz durante semanas, sinal de que são bem vindos, e engordam a safra de produções européias, orientais e as chamadas “étnicas”. Mesmo magro, é um lote de filmes que resiste e enfrenta o bloqueio poderoso do cinemão americano – cada vez mais infantilizado.

 

Há tempos, uma resenha registrou que o melhor cinema neo realista italiano, dos anos 70, se fazia, atualmente, na capital portenha.

 

Em que pese o veneno, talvez fruto da secular e boba competição entre brasileiros e argentinos, é fato que o cinema realista dos vizinhos é excelente.

 

A propósito, a observação do famoso crítico do Cahiers de Cinema , Serge Toubiana: ”O cinema argentino é uma forma neo realista reinventada”, diz ele.

 

O cinema argentino é interessantíssimo. Realistas quase sempre, os filmes da chamada buena onda, dos anos 80 , e , depois, da buena buena onda , do fim dos 90, e ainda pouco conhecida no Brasil, são encantadores, mesmo quando melodramas.

 

Sem maneirismos nem maniqueísmo, em geral de baixo orçamento, com ritmo narrativo envolvente e excelentes roteiros, seus personagens são consistentes e criados por competentes atores – muitas vezes brilhantes. São filmes de uma cinematografia com firme identidade, de interesse geral, que faz sucesso nos festivais e, o que importa, atingem em cheio as grandes platéias.

 

Há mais de treze anos, o Instituto Nacional del Cine e Artes Audiovisuales, de Buenos Aires, vem trabalhando com recursos provenientes das taxas cobradas sobre a renda de ingressos às salas de cinema, sobre o aluguel e venda de filmes nas locadoras e arrecadação de direitos de filmes exibidos nas emissoras de televisão. A infra-estrutura é bem organizada e permite que 56 produções sejam lançadas, por ano, subvencionadas pelo estado ou resultado de parcerias com outros países.

 

Desde os anos 40 o cinema argentino é tido como vigoroso, pela crítica latino-americana e européia. É uma cinematografia com “narrativas enrijecidas”, como já foi registrado. Roteiristas como Juan Jose Campanella, Fernando Castets e Juan Pablo Domenech têm reconhecimento internacional e pertencem a uma geração com sólida formação em escolas e cursos de cinema do próprio país e de fora. São autores de diversos curtas, anteriores à produção dos seus longas-metragens.

 

Um breve roteiro de filmes exibidos em salas das principais cidades brasileiras – apesar do número minguado de cinemas no país - e à disposição em locadoras menos comerciais, mas com cardápios mais ecléticos, pode funcionar como um mapa para o espectador.

 

•  Um dos filmes argentinos mais recentes, O Guardião ( El Custódio , 2006), primeiro longa de Rodrigo Moreno, 35 anos, é uma co-produção da Argentina/França/Alemanha/Uruguai. Tem um ator marcante, Julio Chavez, como um dos seus trunfos. Foi premiado no Festival de Berlim de 2006 e não recebeu a atenção devida por parte da crítica brasileira. É um filme imperdível que focaliza os tempos mortos da vida vazia de um guarda-costas de um político

 

•  Em 2004/ 2005 estrearam O Método , O Clube da Lua e Conversando com Mamãe (Conversaciones com Mamá) – este último de Santiago Carlos Oves, também seu roteirista, e com uma atriz idosa, fascinante, a uruguaia China Zorrilla, premiada no Festival de Cinema daquele ano, em Moscou. O Clube da Lua é uma linda história com tratamento felliniano que remete à dramática crise econômica do país. O título original é Luna de Avellaneda, o nome de um clube de danças ameaçado de falir e se transformar em um cassino. O autor é Juan Jose Campanella e tem como protagonista Ricardo Darín, um dos melhores atores argentinos. Família Rodante , de Pablo Trapero, foi feito no mesmo ano, mas só exibido no Brasil há meses. Foi um grande sucesso de público no Rio, é um filme gêmeo de Miss Sunshine, é leve e descompromissado embora muito melhor que o americano. E O Que Você Faria?, o título português de El Método , interessante estudo sobre o desumano mercado de trabalho de hoje e sobre a apregoada empregabilidade. Tem um ótimo fecho.

 

•  Produzidos em 2002, vale a pena assistir a Kamchatka e a Do outro lado da Lei ( El Bonarense) , este, mais um filme de Trapero, co-produção Argentina/França/Chile/Holanda, no qual a fotografia é exemplar (“Quis uma Buenos Aires iluminada, mas sem o brilho dos cartazes da publicidade”, disse Trapero, na ocasião do lançamento). Kamchatka é de Marcelo Pyñero e tem como pano de fundo os reflexos dramáticos da ditadura militar e da repressão policial na classe média argentina. Uma beleza de filme. A história é vista através os olhos de um menino cujos pais precisam fugir da perseguição do regime militar.Outro filme comovente do mesmo ano é Lugares Comuns (Lugares Comunes ), do veterano Adolfo Aristarain, ex-assistente de Sergio Leone, nos anos 70, na Itália. É a melancólica história de um velho professor universitário forçado pela ditadura a se aposentar. Sem condições financeiras para continuar se sustentando com a mulher, em Buenos Aires, vende o apartamento e vai viver no campo, como pequeno fazendeiro. É um filme contido, enxuto, decepcionado.

 

•  O Filho da Noiva ( El Hijo de la Novia ), de J. J. Campanella e o ótimo O Pântano ( La Cienaga ), premio no Festival de Berlim, da cineasta Lucrecia Martel, a mesma diretora de Niña Santa, o qual seria premiado depois, em Cannes, em 2004 - são de 2001 e vale assisti-los. Martel é da tropa de choque do cinema portenho e respeitada cineasta na Europa.

 

•  O celebrado Nove Rainhas (Nueve Reinas, 2000), de Fabian Bielinksy, foi exibido aqui em 2001. É um filme em que o “salve-se quem puder” ético e moral, uma alegoria da situação política e econômica do país, na época, vem através de um roteiro policial inteligente e muito bem engendrado. O diretor sueco radicado nos Estados Unidos, Steve Sondenberg, quer refilmar a história. Um dos protagonistas é Ricardo Darín. Plata Quemada , de Pyñero, é do mesmo ano - 2000. Excelente história extraída do livro de Ficardo Piglia, de inusitada violência, com um ritmo impressionante, se passa, em grande parte, em Montevidéo. As duas últimas seqüências, quando o aparelho dos protagonistas é estourado, são conduzidas com uma segurança surpreendente. Tem mão de mestre.

 

Antes, os grandes sucessos populares nas telas do cinema argentino eram as cinebiografias de Gardel. Depois, um marco do bom cinema portenho ficou sendo Pizza, Bira, Faso , de 1997, de Adrián Caetano e Bruno Stagnaro, e também os documentários de Birri.

 

No boom dos anos 60, Miguel Perez e Fernando Solanas se distingüiram como as estrelas do cinema militante. Nos anos 80, A História Oficial , de Puenzo, estourou em Cannes, e Sur , de Solanas, seguiu o mesmo caminho. São os filmes que marcaram a volta do país à democracia.

 

Praticamente dez anos depois, perdura o vigor da cinematografia portenha. Lugares Comuns ( La Insignia ), dirigido por Adolfo Aristarain, antigo e cultuado diretor argentino, da geração que hoje chega aos 60 anos, ex-assistente de direção do italiano Sergio Leone ainda está inédito aqui.

 

As Leis de Família (Derecho de família, 2006) , de Daniel Burman, outra co-produção envolvendo vários países - Argentina, Itália, Espanha e França – se encontra em cartaz . Mostra as relações entre pais e filhos, o novo e o antigo se contrapondo, procurando conviver apesar das mágoas e do desprezo. É o mesmo assunto de O Abraço Partido , também de Burman, interessado em investigar como se desenrola a paternidade dentro da estrutura familiar.

 

Não há como deixar de comparar as duas cinematografias, a argentina e a brasileira. Os filmes dos vizinhos mostram a competência de diretores, roteiristas e técnicos e a desenvoltura dos atores bem formados. O domínio de uma linguagem cinematográfica enxuta. O respeito para com os temas – mesmo nas comédias ligeiras e nos pequenos filmes melodramáticos; e a preocupação com as amargas e profundas mudanças sociais.

 

A família - como ela fica agora? Ela é a grande protagonista assim como os personagens dos velhos e dos moços que se entrecruzam buscando entender as regras da nova realidade ainda em progresso.

 

Há aqueles que emigram. Os que emigraram e voltaram. Há os nostálgicos, os que não se adaptam, há sempre um fundo de tango da alma portenha e os personagens de velhos e de velhas sem amargura e sem rostos plastificados.

 

No Brasil, é pena. Poderia ser um imenso celeiro de atores neo - realistas, mesmo espontaneistas, dirigidos por uma geração de cineastas realmente senhores da linguagem do cinema.

A atual safra de filmes nacionais – com exceções como Cão Sem Dono , por exemplo - é fruto do que parece ser a invencível força da televisão no país. Neles, trabalham, na maioria, atores preparados para o naturalismo da tela pequena, os planos americanos se sucedendo, as marcações duras e artificiais. O cinema, assim, se torna outra coisa –é um misto de videoclipe e teatro.

 

No Brasil, país com um imaginário delirante, e também, como o vizinho, passando por violentas transformações sociais e econômicas, o paradoxo é o fato de que o significativo, na produção de filmes, são ... os documentários.

 

 

*Jornalista e escritora. Autora de Maturidade, Além da Idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer (Ed. Campus / Elsevier).

 

 

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