O Botão de Pérola: A memória necessária e o silêncio dos midiotas

Pode ser lido também em Carta Maior


La Maria Aaro Reis*

Quatro anos atrás, numa entrevista a Carta Maior, o documentarista chileno Patricio Guzmán, um dos mais brilhantes cineastas vivos em atividade, falava sobre temas que ganham vida no Brasil de hoje.
 
Guzmán enfatizava a importância e a necessidade da memória “como instrumento político de identidade de um país e de seus indivíduos.” Comentou o papel vital ocupado pelo filme documentário na história de uma nação: “Um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotografias.” E lancetou a chaga da comunicação de massa no nosso continente: ”A televisão nasceu como o meio mais importante e pedagógico do século XX, e foi convertido em um terrorismo áudio-visual espantoso; a nossa televisão latino-americana é imoral e insuportável.”
 
Na travessia dramática vivida atualmente pelo Brasil, com uma parcela expressiva da população, os midiotas, vivendo a  “cultura de sofá”, como diz Guzmán,  - “gente que está sentada no divã, assistindo a televisão” -, não só a palavra poética do documentarista, mas também o seu cinema leva à reflexão, convida à ação, e, no caso das imagens dos filmes, deslumbram pela extraordinária beleza. A beleza triste e trágica, importante de ser mostrada e relembrada, da América Latina. 
 
El botón de nácar, Urso de Prata de Melhor Roteiro do Festival de Cinema de Berlim do ano passado, é o doc mais recente do diretor chileno que vive em Paris. Acaba de estrear em um único (!) cinema do Rio de Janeiro. É o duplo, o contraponto do memorável A Nostalgia da Luz, (2010) lançado aqui em 2015, e prolongamento da célebre trilogia de seus filmes políticos. A Batalha do Chile, (1974/1979) considerado pela critica francesa um dos dez mais importantes docs políticos já realizados, O Caso Pinochet (2001) e Salvador Allende, de 2004. 
 
No seu trabalho, Guzmán procura revolver a memória coletiva e individual. “Os países sem memória são anêmicos, conformistas e não se movem. A minha obra é permeada pela tensão entre memória e esquecimento,” ele diz.
 
Esta tensão está viva e mais aguda no Brasil de hoje. De um lado, ela é revelada na memória dos que continuam lutando pelo restabelecimento da democracia plena e a denúncia formal de fatos ocultos durante a ditadura civil-militar há mais de trinta anos. São os mesmos, mais velhos, e os descendentes, que procuram, agora, resistir ao golpe de estado em curso, a reprise maquilada de 64. 
 
Do outro lado se encontram os que emudecem refestelados no silêncio cômodo e preferem esquecer o passado mal resolvido, e que por não ser purgado insiste em assombrar e retornar.
 
A Nostalgia é a saga da memória, das pacientes escavações de mulheres chilenas em busca de pequenos, mínimos vestígios dos  parentes assassinados pela fúria de Pinochet e asseclas. Seus corpos foram jogados na poeira do deserto do Atacama, norte do país, um dos locais mais secos do planeta. Neste O botão de pérola (tradução equivocada do título original - El botón de nácar, ou seja, O botão de madrepérola) Guzmán se desloca para o sul, para as águas que banham a Patagônia e levanta um véu de silêncio que caiu, durante mais de século, sobre o massacre dos índios kawéskar, um dos quatro grupos de indígenas da região. E, mais recente, faz um paralelo sobre o destino dos cadáveres de dissidentes do regime de Pinochet jogados de helicópteros e de aviões no fundo do Pacífico.
 
“O meu objetivo é procurar que se devolvam os corpos,“ disse Guzmán, em uma bela entrevista que deu, na Alemanha, durante o Festival de Berlim, ano passado. ”Para que os mortos terminem de morrer e os vivos sigam com vida.”
 
Na primeira parte da sua narrativa, ele apresenta os indígenas das terras geladas onde os Andes mergulham no mar e se transformam em arquipélago de mil ilhotas, esses “nômades da água” cuja chegada por lá precedeu em milênios o colonizador que os dizimou. 
 
No prefácio do filme no qual é o próprio narrador, o diretor relata: “Eles viajavam pela água. Viviam submetidos à água e em comunhão com o cosmos.”
 
Na segunda metade do doc, faz um paralelo com os dissidentes que eram drogados ou já tinham sido mortos antes de serem atirados dos helicópteros no mar, os corpos amarrados a pesadas barras de trilhos de ferro.
 
O botão de madrepérola é o fio condutor de Guzmán. Visitando o museu de Punta Arenas ele conheceu a macabra história do botão com o qual os colonizadores seduziram um jovem indígena batizado depois como Jemmy Button, para fazer a experiência de levá-lo para a corte espanhola, transformá-lo em cavalheiro europeu e devolvê-lo depois ao seu lugar de origem; ao qual, é claro, nunca mais se adaptou.
 
E no museu Villa Grimaldi, em Santiago, prisão tristemente célebre como local de tortura na época, conheceu a história de um segundo botão de madrepérola. “Vi um daqueles trilhos aos quais os torturadores fascistas amarravam suas vítimas antes de afogá-las, com um botão colado sobre seus corpos. Imediatamente fiz a ligação com o outro botão e o filme se construiu a partir dessa relação.”
 
Um dos aspectos que mais chamaram a nossa atenção, na voz de Guzmán narrando o filme, foi esta observação: “Os chilenos eram um povo silencioso”. Referia-se aos tempos de Allende, que rompeu mais de um século de silêncio sobre o extermínio dos indígenas da Patagônia devolvendo-lhes as terras usurpadas. Apenas 19 dos kaweskar sobreviveram e vivem nelas até hoje. 
 
E, com a ditadura, o silêncio sobre os corpos de dissidentes esquartejados, degolados ou estuprados, queimados com ácidos e drogados, e afogados no mar.
 
Guzmán é protagonista no processo de restabelecer a memória do seu povo que se encontra na poeira e no cascalho do deserto do norte e nas águas profundas do oceano, no sul.
 
No Brasil de agora, como escreveu, há dias, o jornalista e escritor Felipe Pena sobre a doença do silêncio e do esquecimento, “os golpistas contam com a espiral do silêncio causada pelo medo da solidão social. Ele se propaga em espiral. A ameaça de exclusão alimenta a espiral do silêncio. Ela é o vetor totalitário que perpassa a construção de um falso consenso e constrói a ponte para o passado. Ela é o terror das vozes dissonantes. Ela é o atraso.”
 
Revolvendo a memória chilena, e mais: a memória  geral latino-americana, remexendo no pó da terra e no fundo das águas, o poeta Patricio Guzmán alerta para o perigo que  corremos com o esquecimento, o silêncio e  com a omissão, o seu fruto covarde. 
 
Seu filme é imperdível e traz este recado dirigido também para nós,  nestas próximas semanas decisivas.


*Jornalista

 

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