BOA SORTE!

 

Maria das Grašas Targino *

 

“Boa sorte”, filme adaptado do conto “Frontal com fanta” graças ao esforço do próprio autor Jorge Furtado (vale a pena consultar sua biografia, http://pt.wikipedia.org/ wiki/Jorge_Furtado) junto com Pedro Furtado, é mais uma prova inequívoca que há muito o cinema brasileiro deixou de lado o estigma das pornochanchadas e, ainda, do fascínio do chamado cinema novo, década de 50. O movimento brasileiro derivado do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa teve como representantes máximos Glauber Rocha, Cacá Diegues e Ruy Guerra, dentre outros, e como característica central a chance de superar a carência de recursos técnicos e financeiros de então para trazer à tona problemas ligados à realidade nacional mediante o emprego de linguagem inspirada em traços da própria cultura brasileira. Foi o auge do adágio “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” em prol da arte cinematográfica de apelo popular.

Segundo longa-metragem de Carolina Jabor (o primeiro, o documentário, ano 2008, “O mistério do samba”), “Boa sorte”, lançado em novembro de 2014, nem alcança a excelência nem a perfeição, apesar do bom desempenho dos protagonistas Deborah Secco e João Pedro Zappa. Ao que tudo indica, o filme de Carolina, filha do também cineasta Arnaldo Jabor, é mais um passo para firmar a trajetória de Deborah como atriz, distanciando-a do rótulo restritivo de “mulherão”, caminho iniciado desde o discutível “Bruna Surfistinha”. No caso, a atriz representa na tela Bruna, cognome da brasileira Raquel Pacheco, cujo maior mérito é ter optado, em certa fase de sua vida, pelo meretrício. Seu primeiro livro, “O doce veneno do escorpião”, editado com intensa publicidade e transformado em estrondoso e questionável sucesso editorial, suscita bombástica polêmica em diferentes meios sociais, além de inspirar a película.

Fora da telinha da tevê, 10 quilos mais magra a fim de assumir o papel de Judite, paciente HIV positivo e dependente química, em fase terminal, Deborah está muito bem no papel ao lado do também jovem ator, Pedro Zappa, o adolescente João. Cúmplices, amigos e, logo depois, amantes fervorosos, dentre cenas tórridas (mas não chocantes), vivenciam paixão fulminante marcada por traços de ternura infinda. O tempo todo, em meio a uma trilha sonora oscilante entre a melancolia e o “moderninho”, Judite tenta proteger João das consequências de um amor sem perspectivas, embora ela própria passe a vislumbrar parcos sonhos de felicidade.

Ao longo de seus 90 minutos de duração, fugindo de um roteiro estritamente sequencial, o drama / romance revela, em parte, a realidade obscura das chamadas casas de recuperação. No caso, a ênfase vai para a heterogeneidade presente nos corredores da clínica psiquiátrica, onde diferentes personagens com diferentes males vivem um cotidiano quase inumano. João, com problemas comportamentais depressivos convive com alcóolatras e, ainda, com portadores de doenças mentais, viciados em drogas variadas, que vão de medicamentos à “simples” maconha, à sofisticada cocaína, ao crack e até as mais pesadas substâncias impossíveis de reconhecer. O importante é que o filme expõe a facilidade de circulação de drogas nas casas de repouso, e, com frequência, em troca do sexo fácil entre funcionários inescrupulosos e os seres humanos fragilizados que ali estão.

São também interessantes ou tristes (cada um escolhe o adjetivo que mais lhe convier) os flashbacks que revelam possíveis causas dos infortúnios dos dois protagonistas. Estão sempre atreladas ao ambiente familiar desajustado em que as pessoas se olham e não se veem. Trata-se de inferência questionável, uma vez que endossa a crença de que a pais saudáveis correspondem inevitavelmente filhos perfeitos, o que nem sempre é verdade inconteste. De qualquer forma, serve como reflexão em torno das dificuldades de educar e formar cidadãos para a vida.

Além de Deborah e Zappa, o elenco conta com nomes de peso no mundo artístico, a exemplo de Fernanda Montenegro (como Célia, avó de Judite), Gisele Fróes e Felipe Camargo. Por fim, além de ser mais uma projeção cinematográfica acerca da droga que é o mundo das drogas, “Boa sorte” traz a esperança de grandes amores emergentes no universo de grandes tragédias.

 

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

 

Ficha técnica:

Produtores Eliana Soárez e Carolina Jabor

Produção executiva Pedro Buarque de Hollanda e Cecilia Grosso

Coprodução executiva Ilana Brakarz

Produtores associados Guel Arraes e Deborah Secco

Coordenador de produção Mirela Girardi

Roteiro Jorge Furtado, Pedro Furtado

Diretor de fotografia Barbara Alvarez

Direção de arte Cláudio Amaral Peixoto

Figurino Ana Avelar

Maquiagem Martín Macias Trujillo

Produção de elenco Guilherme Gobbi

Som direto Yan Saldanha

Montagem Sérgio Mekler

Música original Lucas Marcier

Pós-produção Mônica Siqueira

 

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