BLUE JASMINE

Maria das Grašas TARGINO

 

Repetindo o que sempre se dá quando do lançamento de filmes dirigidos por Woody Allen, a estreia de Blue Jasmine desperta mil controvérsias. Trata-se, na verdade, do primeiro filme de Allen nos Estados Unidos da América desde 2009. Como esperado, desperta críticas elogiosas e notas de repúdio. Assim é. Assim sempre será. Nenhum grande criador, em qualquer campo de atuação, sobrevive unânime. Se algum escritor, artista plástico, circense, ator, arquiteto, e assim sucessivamente, escapa do olhar feroz do outro significa que sua obra não existe para as coletividades.

 

Jasmine (Cate Blanchet), filha adotada, se encanta pela boa vida proporcionada por Hal, protagonizado por Alec Baldwin, que já esteve com o diretor e roteirista Woody Allen em dois outros filmes: Simplesmente Alice, 1990; e Para Roma com amor, em 2012. O belo marido rico, aparentemente um bem-sucedido investidor de Manhattan, o mais antigo e glamouroso dos cinco bairros de Nova Iorque, mima a mulher de todas as formas. Sucumbe à sua beleza e ao seu glamour. Ela se sente amada e distante do passado de possíveis sofrimentos e privações. Aliás, a rejeição pelo que ficou para trás pode ser interpretada desde a negação de seu nome de batismo. Nascida Jeanette, tenta se reiventar como Jasmine. As traições do amado, ela não deseja enxergá-las. Diante das falcatruas do companheiro, se mantém indiferente até mesmo quando ele rouba da irmã e do cunhado a única oportunidade de mudar de vida. Jasmine e Hal seguem cercados de luxo e futilidade. O próprio filho parece mero apêndice numa união caracterizada por mentiras.

 

Num dia qualquer, à semelhança dos contos de fadas e de bruxas, Hal se sente ele próprio traído por seus sentimentos. Paixão avassaladora toma conta de seu ser. Comunica à mulher. O desespero a devasta. Sente-se totalmente despreparada para seguir adiante e tomar as rédeas de sua vida. Num momento máximo de desesperança, denuncia por telefone o marido aos órgãos norte-americanos. A prisão por fraude financeira vem em seguida. O desprezo do filho. O suicídio do empresário na prisão...

 

São vidas que se desmoronam. Sem outra opção, a mulher literalmente corre em busca de auxílio junto à irmã Ginger (Sally Hawkins), em São Francisco da Califórnia. A esta altura, bebe compulsivamente. Tranquilizantes fazem parte de sua rotina. Fala sozinha em bancos de praça ou no quarto modesto do apartamento quase miserável de Ginger. Seu intuito: recomeçar a vida numa nova cidade. Ledo engano. Acima de todas as dores, sente falta da riqueza, das joias luxuosas, dos carros exuberantes, da vida fácil, das festas e das reuniões de falsa filantropia. A pobreza da irmã comerciária a enlouquece. Os empregos “abaixo de seu nível” fazem maldizer a vida. Tudo a incomoda, incluindo as companhias da “meia-irmã”, de quem sempre se manteve ostensivamente distante. Tudo a faz odiar o dia que amanhece ou a noite que se aproxima.

 

Parte para a “caça” de um marido rico. Encontra-o e inicia novo mundo de mentiras até que é desmascarada pelo antigo cunhado frente ao “noivo” e às vésperas de nova união. Claro está que Blue Jasmine (filme produzido nos Estados Unidos, 2013) relata uma história de vida que se repete aqui e acolá. Na América do Norte ou na Concochina. Na China ou no cafundó de Judas. Por isso mesmo, tem valor incrível. É a arte reiterando a vida ou a vida reiterando a arte. Em termos de Brasil, é só lembrar mulheres que usufruíram uma vida de luxo e de ostentação. Compactuaram ativamente com as fraudes e tramoias dos maridos. Finda a relação, posicionando-se como “falsas vítimas”, os denunciaram de forma escabrosa. A antiga primeira-dama Rosane Collor é um caso emblemático. O falecido prefeito Celso R. Pitta do Nascimento teve seu segundo mandato (junho de 2000 a janeiro de 2001) marcado por intensa corrupção, denunciada em março de 2000, sobretudo, pela ex Nicéia Pitta. Agora, nos últimos dias, Vanessa Caroline Alcântara, 27 anos, também no papel de ex-mulher do auditor fiscal Luís Alexandre Cardoso de Magalhães, um dos servidores da Prefeitura de São Paulo, preso sob a acusação de cobrar propina para reduzir o valor do Imposto sobre Serviços de imóveis novos, acusa o marido e detalha com fel os pormenores do gasto com dinheiro público.

 

Ademais, o relato não literal de Blue Jasmine, em que presente e passado se cruzam, nos parece encantador. Há, por fim, a semelhança ou esperança de que a punição atinja os corruptos, onde quer que seja, inclusive na fantasia. Classificado como comédia dramática, na verdade, os 98 minutos de duração da película se aproximam da vida real. Mulheres e homens precisam encontrar uma razão de viver, além das aparências. As piores perdas são, inevitavelmente, as que corroem a alma, embora seja possível afirmar que, em alguns indivíduos, o vazio é parte integrante do ser. É como se nascera com eles. É como vivera com eles, para sempre. Por isso, em nossa visão, a força dramática aparece com maior veemência e densidade do que a comédia.

Por fim, vale lembrar que Allen lança, sistematicamente, desde 1982, um filme por ano, em comprovação inequívoca de sua criatividade e produtividade. Logo, deve ser reconhecido tanto por suas obras magistrais, à semelhança de Match Point (2005) e de Meia-Noite em Paris (ano 2011), como por Blue Jasmine, que se destaca pela trama surpreendente.

 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

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