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Brother, de Takeshi Kitano, descoberto
por Léa Maria Aarão Reis.

Tudo sobre cinema como indústria
e com arte, tudo mesmo.
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 O Segredo de Brokeback Mountain

 Léa Maria Aarão Reis *

  O Segredo de Brokeback é um dos filmes mais fortes produzidos por Hollywood, nos últimos tempos.

É uma novidade, no quadro da mesmice do cinema, exceção de diversas das muitas produções de cineastas asiáticos originais, como Kar-Wai, Hsiao Hsian, Tsai Liang Miang e a geração um pouco mais velha, de japoneses e chineses - Takeshi Kitano, Yimou e Chen Kaige -, todos inovadores da linguagem cinematográfica, com narrativas surpreendentes, fascinantes no bom gosto e nas pesquisas formais - e cujos filmes, no Brasil, se conhece tão pouco.

O filme de Ang Lee, um diretor híbrido, nascido em Taiwan, estudante de cinema na Universidade de Nova Iorque e radicado nos Estados Unidos, é um prodígio de força, coragem e delicadeza – uma combinação rara.

 

Antes, os seus filmes foram sucesso de público e, em geral, de crítica. São filmes frios, cerebrais, bem feitos, ou atendem à demanda comercial: Beber, Comer, Viver (o melhor deles), Tempestade de Gelo,Razão eSensibilidade,O Tigre e o Dragão, além de ... Hulk!

Pois agora ele acerta a mão e sua “frieza” é posta a serviço de uma delicadeza incomum. Brokeback Mountain chega, disputando, nada mais nada menos, que várias categorias do Oscar** , distinguido com os prêmios máximos do Festival de Veneza de 2005, o Leão de Ouro, com a premiação do grupo influente da crítica de cinema estrangeira dos Estados Unidos, o Globo de Ouro, e com uma coleção de prêmios Bafta 2006, o Oscar inglês.

Em Cannes, ano passado, o filme foi esnobado. Nem entrou na seleção de indicados.

 

Lee filmou a bela história da paixão nascida entre dois jovens caubóis, na sua convivência solitária nas montanhas do Wyoming, nos idos de 1963 e que se estende por 20 anos.

 

O conto é da americana Annie Proulx, lançado em 1997, com o mesmo título, e o excelente roteiro é do festejado Larry McMurtry - roteirista de A Última Sessão de Cinema, o clássico do diretor Peter Bogdanovitch - e de Diana Ossama.

Assim, Lee conseguiu concretizar o que dois colegas que adoravam o roteiro, os diretores Gus Van Saint (Elefante) e Joel Schumacher (Um Dia de Fúria), tentaram, sem sucesso, não conseguindo convencer quem se arriscasse em terreno tão minado.

O próprio ator Jack Gyllenhaal, que faz com brilho o personagem de Jack Twist, um dos caubóis apaixonados, e o mais frágil deles (mas o mais corajoso) foi convidado, anos atrás, para fazer o papel. Tinha 18 anos e recusou.

 

Atendendo aos apelos do marketing, o filme, agora, primeiro foi vendido ao público como o “western gay”, servindo até de piada para os cassetas machões de plantão, que a ele se referem como um filme “cauboiola”. Ridículo, porém compreensível. Como ocorre quando o assunto perturba, cria-se a piada e alivia-se a tensão através do humor, em geral grosseiro.

Em um segundo momento, ao se surpreenderem com a aceitação do público heterossexual, os exibidores passaram a vendê-lo como “uma apaixonante história de amor"...

 

Brokeback Mountain é bem mais que um filme sobre gays e destinado ao segmento dos homossexuais. Nele, o sexo é uma conseqüência e uma extensão da história. É um melodrama que conta o amor entre dois homens viris– caubóis pós–modernos -, na terra de Malboro, na América profunda do início dos anos 60. Uma região com caipiras reacionários, que nem chegou a (re)conhecer as grandes transformações inspiradas pela contra cultura e pelas rupturas de comportamento que viriam, em ondas, pouco tempo depois, na segunda metade da década de 60.

A repressão ali perdura até hoje (sobretudo hoje), nesse reduto emblemático da era Bush.

 

Para se ter uma idéia do atraso do meio-oeste dos Estados Unidos, dois anos depois do lançamento do livro de Proulx, em 1999 (!) um jovem de 22 anos, Matthew Shephard, foi linchado no Wyoming porque era homossexual.

 

Herdeiro da linhagem dos grandes westerns de Ford, Howard Hawks, de Fred Zinnemman, Anthony Mann e Samuel Fuller, e, depois, de Peckimpah e Clint Eastwood, o filme tem romance, lutas, bandidos, desafios, vastos cenários naturais e apresenta, mais uma vez, o tema da busca obsessiva pela liberdade.

Agora, os bandidos não são os peles vermelhas, empenhados não mais em defender suas terras, perdidas, mas os seus dólares investidos na construção dos mega cassinos que possuem.

 

A luta hoje é contra os caipiras reacionários, a maioria silenciosa. Os chamados “pescoços vermelhos”, perigosos brancos de pescoços gordos e suados, religiosos fundamentalistas, permanentemente irritados, irados e indignados com tudo que de espontâneo possa emergir no ser humano. No filme de Lee, a luta é contra uma América atrasada, que proíbe o aborto e se recusa a formalizar as relações homossexuais.

 

O que mais perturba, em Brokeback Mountain, é a paixão não apenas entre iguais, mas entre dois caubóis, ícones da cultura americana, sem caricaturar o feminino nem adotar trejeitos de clichê. As seqüências de amor entre eles são de extrema delicadeza – na tenda armada na montanha (as filmagens foram repetidas treze vezes), no reencontro, quatro anos mais tarde, e na cama, no motel.

 

O até aqui obscuro ator australiano Heath Ledge se sai com uma competência inesperada da complexa empreitada, fazendo o introvertido vaqueiro Ennis Del Mar. Gyllenhaall não fica atrás. As duas atrizes coadjuvantes são ótimas, embora as mulheres se saiam mal, nesta história.

 

Perguntas incômodas podem emergir, depois de assistir a Brokeback Mountain. Onde estará, dentro da gente, este espaço atemporal, este “alto de montanha” onde nos refugiamos quando a vida, aqui em baixo, se torna dura demais?

E se lá em cima, em Brokeback, encontramos um igual, como fazer durar o paraíso? Pode este encontro radical ocorrer entre um homem e uma mulher? Ou apenas entre iguais que se reconhecem no fundo do coração?

O filme de Ang Lee nos faz (re) lembrar o que volta e meia esquecemos. É que dentro de nós há um delicado animal, forte e cheio de vigor, pronto para sair quando reconhecido.

* Jornalista, autora dos livros Maturidade,Além da Idade do Lobo e Cada um Envelhece como Quer (e Como Pode)

  • Entrega dos Oscars: dia 5 de março

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